Entrevista a João Madureira

Entrevista a João Madureira

2 comentários 🕔11:00, 15.Jul 2015

- Palavra Comum: Que supõem para ti a literatura e a fotografia?

- João Madureira: São a minha forma de viver, de tentar compreender o mundo e de me relacionar com ele. São como uma espécie de respiração interior. Através da literatura e da fotografia tento que a minha vida e a dos que me rodeiam tenha, ou ganhe, sentido. São a minha forma de ascese pois implicam a prática de uma vida interior ao mesmo tempo solitária e caótica. Escrever e fotografar são formas de arte distintas, mas tento que a minha poesia, a minha prosa e as minhas fotografias, contem sempre uma história, pequena ou grande, pouco interessa. A minha forma de escrever, mesmo com as imagens, pois eu iniciei a aproximação à arte através do cinema amador em super8, baseia-se em contar histórias dentro de histórias e estas dentro de outras histórias, num processo multiplicador que pretende levar-nos sempre um pouco mais além. Nisso sou vítima das minhas influências. Sem influências não existe produto criativo sério e consistente. As minhas influências são boas, disso tenho eu a certeza absoluta, não sei é se consigo responder-lhes com a qualidade que merecem. Mas tento. Nisso sou honesto. As minhas tentativas de seguir os mestres são sérias, apesar do tom irónico com que muitas das vezes as visto, quase religiosas, quase místicas. Isto apesar de ser um agnóstico profundo e torturado. Creio que a minha escrita reflete esse estado de alma. Bem ou mal, com qualidade ou sem ela, isso já é outra conversa.

- Palavra Comum: Como entendes o processo de criação artística?

- João Madureira: Escrever é um ato solitário. Fotografar é outra coisa, pois quase sempre pressupõe relação entre quem fotografa e quem é fotografado. Mas a edição, que é imprescindível na qualidade fotográfica, também é um ato solitário. A edição é a forma de alinhar a gramática interior inerente a cada fotografia.

A arte, seja ela de que tipo for, é sempre uma eterna paciência. Quem a ela se dedica não consegue viver em paz. Está sempre dependente do seu desenvolvimento. Quem tem alma não tem calma, escreveu Fernando Pessoa. Eu, que sou uma espécie de desalinhado interior, uma espécie de anarquista comportamental, programo os meus tempos de escrita. Obedeço a um horário que cumpro de forma rigorosa. Por exemplo, escrevo religiosamente os meus poemas à quarta-feira, num período razoavelmente dilatado, consentido pelo cumprimento do horário escolar, pois sou professor. Já a prosa escrevo-a às quintas e sextas-feiras. A segunda-feira é ocupada a redigir a crónica para os jornais. As terças são dedicadas à leitura e à correção dos diversos textos. Tudo feito entre os intervalos das aulas, ou após elas. Se não fosse organizado não conseguia escrever uma linha. E esperar pela inspiração é estratégia que não dá grande resultado.

- Palavra Comum: Qual consideras que é – ou deveria ser – a relação entre a literatura e outras artes (fotografia, música, artes plásticas, etc.)?

- João Madureira: A arte é só uma. A sua expressão é que varia. Eu não as distingo umas das outras no momento da fruição. Nisso sou omnívoro. Posso no entanto dizer que, especialmente na escrita, a elaboro a partir de imagens. E que a minha poesia possui sempre uma espécie de música interior que resulta da que oiço todos os dias no meu ipod enquanto faço a minha caminhada ao fim da tarde. No meu cérebro tudo se mistura de uma forma muito próxima do jazz, que na sua forma mais simples resulta da escrita a partir de pequenos roteiros e muita improvisação sobre as pequenas frases musicais alinhavadas anteriormente.

- Palavra Comum: Quais são os teus referentes criativos (num sentido amplo)?

- João Madureira: Eu misturo tudo. Ou melhor, tudo se mistura em mim, na minha cabeça. Hieronymus Bosch, Cervantes, Bach, Vermeer, Henri Cartier-Bresson,Van Gogh, Frank Zappa, Miles Davis, Robert Capa, João Ubaldo Ribeiro, Miguel Ângelo, Fernando Pessoa, Fellini, Eça de Queirós, Sebastião Salgado, Keith Jarrett, Garcia Marques, Frida Kahlo, Béla Tarr, Zeca Afonso, Picasso, Carlos Gardel, Josef Koudelka, Kusturica, Aquilino Ribeiro, Man Ray, José Mário Branco, Hugo Pratt, Juan Rulfo, Jimi Hendrix, Takeshi Kitano, Leonardo da Vinci, Andreï Tarkovski, Mozart, Frank Capra, Chaplin, Herberto Helder, Jean Giraud, Bento da Cruz, Eduardo Gageiro, Carlos Paredes, Tom Sharpe, Alfredo Cunha, os Monty Python…

- Palavra Comum: Que caminhos (estéticos, de comunicação das obras com a sociedade, etc.) estimas interessantes para a criação literária e cultural hoje?

- João Madureira: Para ser honesto, eu passo um bocadinho por cima disso. O caminho fá-lo cada um. Em arte, a determinação é o caminho. Pode ir dar a lado nenhum, mas o que interessa é caminhar. A criação literária é cada vez mais um enorme plágio. A possibilidade da cópia é atualmente infinita. Mas o meu conselho é que a copiar se deve fazê-lo a partir dos melhores. E desses devemos escolher sempre o mais original. O referente mais antigo. A sociedade do conhecimento é uma treta, uma quase mentira. A cultura e a literatura de hoje, como a de ontem, tem ou não tem qualidade. Cada vez se consome mais fast food literário. É o que vende. É o que se compra. É o que se compra. É o que se vende. É uma espécie de pescadinha de rabo na boca. Um bom romance, um bom poemário, uma boa fotografia, são entendidos por todos. E os que não conseguirem, pois que se esforcem um bocadinho. Mas não é por não existir comida saudável, que muitas vezes é mais barata do que a outra, que as nossas crianças, jovens e adultos se empanturram com comida de plástico.

- Palavra Comum: Que perspetiva tens sobre a Galiza em relação à Lusofonia?

- João Madureira: Eu vivo e trabalho em Trás-os-Montes. Aqui nasci. Vivi em Lisboa e no Porto nos meus tempos de criança. Tornei ao chão pátrio. Primeiro a Montalegre e depois a Chaves, onde vivo atualmente. Mas confesso que sempre me senti uma espécie de estrangeiro dentro do meu país. A gente lá do sul sempre me pareceu boa, mas de outro lado. Como sou arraiano, pois nasci na Torre de Ervededo, convivi sempre paredes meias com um povo que diziam ser espanhol (pois chamar-lhe galego era depreciativo) mas que falava a minha língua, tinha os mesmos hábitos, cultivava os mesmos produtos, matava o reco e respirava o mesmo ar. Eu achava estranho, pois ensinaram-me que os meus compatriotas mais esclarecidos e poderosos, aqueles que mandavam, e mandam, em tudo, até na língua que falamos, viviam, e vivem em Lisboa. Veio a democracia, as fronteiras físicas caíram. E o meu país ganhou o Norte. Passei a ser um galego do sul, sem bilhete de identidade, mas isso pouco interessa. A verdadeira pátria está guardada dentro do coração de cada um.

A lusofonia é mais um mito do que uma realidade palpável. Quem manda nela são os que vivem lá na capital. Eles até são boa gente, mas são de outro lado. Interessa-lhes bem mais os negócios do poder e o poder dos negócios do que a língua. Pelo menos enquanto não se puder vender na bolsa e dar lucro fácil e especulativo.

Não existe lusofonia, mas sim lisbofonia… Acredito na Galiza… vivo em Trás-os-Montes e Lisboa leva-nos tudo. Até os filhos. Isto assim não vai acabar bem. Qualquer dia a minha terra transforma-se numa espécie de reserva de índios. Num dos meus romances, que espera publicação, abordo esse tema.

- Palavra Comum: Que projetos tens e quais gostarias chegar a desenvolver?

- João Madureira: Atualmente estou a meio (mais ou menos, penso eu) do segundo livro de uma trilogia que penso levar ao fim. Nele misturo (ai as influências, Deus meu!) estilos tão diversos como Kusturica, Frank Zappa, Gabriel Garcia Marques, Fellini, Cervantes, Álvaro Cunqueiro e Diniz Machado.

Estou a rever os meus dois últimos romances e à procura de editora. Se vivesse em Lisboa, outro galo cantaria.

Continuo a escrever o meu “Poema Infinito”, que já vai no sexto caderno (260 poemas), e também espera quem os edite. Se vivesse em Lisboa outro galo cantaria.

Preparo uma exposição de fotografia para Novembro ou Dezembro de 2015 intitulada “Interioridades”.

Continuo a publicar textos e fotografias no meu blog Terçolho.

- Palavra Comum: O que achas de Palavra Comum? Que gostarias de ver também aqui?

- João Madureira: Palavra Comum evidencia uma simplicidade muito bem elaborada. E a simplicidade é, como todos sabemos, atributo dos sábios. Parece-me um espaço cultural com futuro, feito por bons galaicos, esteticamente apelativa a que tenho orgulho de pertencer, pois a sua direção teve a simpática insensatez de me convidar para ser colaborador. Espero não vos desiludir e muito menos aos vossos distintos leitores.

Para já contento-me com as rubricas que aqui são editadas. Diz-se na nossa terra que mais vale pouco e bem do que muito e mal.

Sobre o autor / a autora

Ramiro Torres

Ramiro Torres

(Galiza) Ramiro Torres nasceu na Corunha no 1973 e estudou Graduado Social. Tem publicado poemas na revista 'Poseidónia' e 'Agália', assim como no blogues 'A fábrica' e 'A fábrica da preguiça'. Inaugurou as edições do Grupo Surrealista Galego com o seu livro "Esplendor Arcano".

2 comentários

  1. 🕔 0:21, 16.Jul 2015

    Luís Henrique Fernandes

    “Pling! Plong! Tong! Fung!”

    JOÃO MADUREIRA merece ser dado a conhecer a “Galegos do Norte e a Galegos do Sul””.
    Mesmo até só pelos seus “Pling-plong-tong-nang-fung-pling-tung” já valeria a pena: foram como um «truz-truz!» que nos abriram portas, janelas e cancelas para invadirmos campos de arte e de letras, onde florescem, viçosas, a poesia, a prosa e a fotografia.
    Ele, JOÃO MADUREIRA, sabe que eu «plingo», «plongo», «tongo» e «fungo» por esse pedaço Ibérico celtibérico.
    Saudações galaico-transmontanas
    M., 15 de Julho de 2015
    Luís Henrique Fernandes

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