François Davo, Tono Galán e Rubén Fenice: <em>4 Voltas</em>

François Davo, Tono Galán e Rubén Fenice: 4 Voltas

0 comentários 🕔12:30, 20.Jul 2015

4 Voltas, de François Davo, Tono Galán e Rubén Fenice. «Livro objeto», Taller Milpedras, 2014.

A experiência da leitura remete para a reflexão sobre a essência do humano através da procura dos mais ocultos arcanos, aqueles que estabelecem fórmulas de convívio entre o vegetal, o animal e o racional. Assim o papel grosso, rugoso, a madeira e a pedra nos assaltam como de época pré-histórica, pré-intelectual, pré-científica, pré-racional, profundamente primitiva, focando a vida numa etapa pré-consciente. Mas existe qualquer experiência mental prévia à consciência? Não é isso que quotidianamente se revela como intuição, como sendo um conhecimento «de série» anterior a toda a aprendizagem ou uma associação de ideias prévia a qualquer estudo de campo?

Efectivamente, estamos no âmbito do acto ritual, em que o caos do mundo se torna fórmula apreensível, e os fenómenos naturais, de partida caóticos e insondáveis, fenómenos significativos que é possível decodificar: “entrar no mundo danzando” porque “danzar é acordar”. “Dans le cercle où je deviens”, diz o eu poético, o nosso caminho é nos converter num “chercheur d’or”.

Mas o mundo material é trapaceiro, sempre o disse a Tradição que o Platão elevou a filosofia. Porém, a grande trapaça a descobrir não reside nos objetos, mas no sujeito: “ici le brume s’épand au fond de l’oeil”. Porque o órgão de visão limita a percepção e desta depende, de partida, a interpretação. Por isso o trabalho primeiro consiste na apuração íntima e inexcusável de encontrar a essência do eu: “O val atópame espido”.

Manchas de cor, letras como vestígios de criação poética primigénia, palavras como restos de placenta poética fossilizados, grafemas em relevo como «grafoglifos» que o acaso nos trai e que nos provocam a «reminiscência», a lembrança do ser essencial que transmutado em poeta desde o início dos tempos conecta o passado e o presente, o que somos e o que nunca deixamos de ser. Lemos esta obra como se das «Tábuas da lei poética» se tratasse, um documento ancestral escrito sob a influência do “sorriso da Moura”, para depois, quando alçarmos a vista, descobrirmos “l’univers serein”.

Sobre o autor / a autora

Alfredo Ferreiro

Alfredo Ferreiro

(Galiza) Alfredo Ferreiro nasceu em 1969 na Corunha, onde estudou Filologia Hispânica. Pertence à Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega, à Associaçom Galega da Língua e ao Grupo Surrealista Galego. Tem participado desde os anos 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas galegas e portuguesas. Na atualidade trabalha como escritor e consultor tecno-cultural.

Sem comentários

Ainda não há comentários

Ninguém deixou um comentário para este post ainda!

ESCREVA UM COMENTÁRIO SOBRE ESTE POST

Escrever um comentário 

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *