Entrevista à poeta e editora Virgínia do Carmo

Entrevista à poeta e editora Virgínia do Carmo

0 comentários 🕔12:30, 12.Ago 2015

- Palavra Comum: Que supõe para ti a poesia/literatura?

- Virgínia do Carmo: Pressupõe, acima de tudo, uma profunda vivência de tudo o que nos acontece e de tudo o que vemos acontecer. No caso da poesia em particular, ela materializa-se dentro de nós, indomável e livre. É preciso que flua assim, cheia de si própria, cheia de nós próprios. No entanto, estou convencida de que a literatura, principalmente a literatura “não poética”, implica, acrescidamente, uma reflexão assertiva e isenta, não desprovida de emoções, mas separada do nosso corpo e dos nossos próprios afectos pelo fio da intuição universal do humano. Se conseguirmos, com o que criamos em palavras (mesmo na poesia), sair de nós próprios para sermos transversais à humanidade, então o que produzimos tem valor literário. Ressalvo que isto não significa que para o conseguirmos não possamos escrever sobre nós. O “eu” é o primordial elo de ligação de cada um ao universo. E é através dele que compreendemos todas as realidades.

- Palavra Comum: Como entendes o processo de criação artística?

- Virgínia do Carmo: Para mim a poesia é algo que me acontece, não algo que eu faça, ou que sequer procure. Sou recorrentemente atropelada por palavras que se me impõem tão irremediavelmente como uma dor de cabeça e só uma folha branca pode assumir aqui o papel de aspirina. Os poemas nascem, assim, de uma necessidade quase básica, primária. O que me move supera a minha consciência. Quando falo de prosa, o processo é diferente. Escrever assume-se como uma forma de tentar entender o que me inquieta. É sobretudo um processo de busca consciente. Construo, mas na verdade o que pretendo é desconstruir.

- Palavra Comum: Qual consideras que é – ou deveria ser – a relação entre a literatura e outras artes (audiovisual, artes plásticas, música, etc.)?

- Virgínia do Carmo: Todas as formas de arte podem e devem relacionar-se interactivamente. Está provado que coisas belas podem advir dessa saudável promiscuidade. Quanto mais interacção, mais inteireza. E a arte, quanto mais inteira, mais plena.

- Palavra Comum: Quais são os teus referentes criativos (num sentido amplo)?

- Virgínia do Carmo: A minha grande referência poética é Sophia de Mello Breyner Andresen, talvez por ter sido a primeira poeta que li, era ainda muito jovem. É claro que Fernando Pessoa é incontornável, mas os contágios terão sido outros, como o transmontano Miguel Torga. Chorei quando pela primeira vez li o “Reino Maravilhoso”. Talvez algumas afinidades, tal como a família, não se escolham. Recordo-me que me tocaram de forma especial, também, os livros que li de Vergílio Ferreira. Hoje em dia, na minha lista de poetas/escritores que muito admiro e que, creio, vão contribuindo para o meu crescimento no âmbito da escrita, são muitos, e a lista está em constante actualização. Agora mesmo recentemente, com a morte dessa poeta tão profunda, Ana Hatherly, relendo alguns dos seus poemas emocionei-me com a beleza do eco que deixam em mim. Todos os dias descubro e redescubro palavras que me vão construindo e solidificando como pessoa.

- Palavra Comum: Que poetas (ou artistas, em geral) reivindicas por não serem suficientemente conhecidos (ainda)?

- Virgínia do Carmo: A lista é infindável e por isso não cabe na minha resposta possível, que é esta: Enquanto a nossa sociedade for tão manipulável como se tem revelado até hoje, os reconhecidos, quer no âmbito da literatura e da arte, quer em outros, serão sempre poucos e nem sempre os melhores. As minorias são cada vez mais isso mesmo: minorias. E a margem de crescimento para elas é cada vez menor. A nós cabe-nos resistir e lutar para inverter essa tendência. Se cada um fizer a sua parte, penso que é possível. As minorias poderão não deixar de ser minorias, mas a liberdade de crescimento e de actuação pode ser outra.

- Palavra Comum: Que caminhos (estéticos, de comunicação das obras com a sociedade, etc.) estimas interessantes para a criação literária e cultural hoje?

- Virgínia do Carmo: O caminho só pode ser o da liberdade. Tem de ser. Criar é isso mesmo: ser livre. Não estar agarrado a arquétipos ou correntes, ou tão pouco a rótulos. Nem a grupos ou movimentos fechados. Nem aos parâmetros das maiorias. É também o caminho da coragem e do coração. E da honestidade intelectual. Eu só acredito nesse caminho.

- Palavra Comum: Fala-nos da tua experiência como editora em Portugal…

- Virgínia do Carmo: Nada fácil, mas muito gratificante. Sou apaixonada pelo que faço, ganhei para a minha vida pessoas maravilhosas que não trocava por nada, e sou auto-sustentável. Não preciso de mais nada. É claro que as pressões são muitas, por tudo o que já referi. Mas tento focar-me no meu trabalho, em cada projecto, positiva e assertivamente. Evito o queixume, fujo do ruído e dou o meu melhor. Comigo, felizmente, esta fórmula tem resultado, e as coisas boas vão acontecendo.

- Palavra Comum: Que perspectiva tens sobre a Galiza em relação à Lusofonia?

- Virgínia do Carmo: Devo confessar que me comove até hoje a descoberta do carinho bonito que os galegos nutrem pela nossa língua. E por sua vez tenho vindo a deixar-me fascinar pela cultura galega, que é riquíssima. Vejo esta aproximação como uma oportunidade imperdível de construir uma comunidade que não nasce de decretos políticos (que até existem, mas que falham na hora de “pragmatizar”), mas da vontade e do coração dos homens. Há muita poesia nesta ligação, gosto dela. Há que emprestar-lhe acções que a preservem, dinamizar o seu potencial, dar-lhe forma.

- Palavra Comum: Que projetos tens e quais gostarias chegar a desenvolver?

- Virgínia do Carmo: Vivo muito aberta ao que o universo me vai trazendo, não me apego às coisas, nem mesmo aos sonhos. A vida é para ser vivida com surpresa, sem dogmas, seja de que natureza forem. Só espero estar sempre à altura dos desafios e das pessoas que mos vão trazendo.

- Palavra Comum: O que achas de Palavra Comum? Que gostarias de ver também aqui?

- Virgínia do Carmo: Vejo a Palavra Comum como um alicerce importante dessa forma que é preciso dar à bonita ligação que existe entre Portugal e a Galiza. É uma ponte que urge frequentar muito, atravessar muitas vezes, para levar e trazer coisas que ajudem a fazer crescer uma identidade também ela com tanto em comum, afinal. Desejo que este trabalho prossiga e cresça. Com mais gente, mais vozes. E com diversidade.

Sobre o autor / a autora

Ramiro Torres

Ramiro Torres

(Galiza) Ramiro Torres nasceu na Corunha no 1973 e estudou Graduado Social. Tem publicado poemas na revista 'Poseidónia' e 'Agália', assim como no blogues 'A fábrica' e 'A fábrica da preguiça'. Inaugurou as edições do Grupo Surrealista Galego com o seu livro "Esplendor Arcano".

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