Encontro na Ribeira Sacra

Encontro na Ribeira Sacra

0 comentários 🕔13:44, 17.Ago 2015

Na passada quinta acudi a um encontro em Chantada. O propósito era reunir-me com dous amigos, um de há longo tempo, o Vergílio Alberto Vieira, e o outro de há bem pouco, o Xosé Lois Garcia. O contexto era o Românico galego e o tema a literatura peninsular ocidental que nos coubo conhecer, com seus delírios e suas grandezas.

O Vergílio conheci-no a finais de 90, se lembro bem, quando um amigo comum, o Amadeu Baptista, nos levou à Táti Mancebo e a mim a Braga para travarmos uma nova amizade na Galécia do sul, se me permitirem a reivindicação histórica. Num ambiente de fraternidade galego-portuguesa nasceu uma relação que chega até hoje. E que implica, felizmente, a Gina, a quem gostei imenso de voltar a ver.VAVieira_Gina_XLGarcia_AFerreiro_800

O Xosé Lois Garcia sempre foi para mim um referente da Galiza que, para além de teorizar sinergias, permanentemente exerceu como membro de pleno direito numa lusofonia que transcende as nescidades e misérias das políticas culturais do Estados. Lembro aquela entrevista ao Herberto Helder que realizou em 1987 para a extinta revista Luzes de Galiza, uma das escassíssimas e provavelmente a mais profunda que jamais concedeu aquele esquivo e genial poeta, referência ímpar da poesia europeia para tantos de nós. Achei-no repetidamente em todos os projetos de outro vulto da dinamização literária e da fraternidade galego-portuguesa, o António José Queiroz (que também conheci pelo Amadeu Baptista), e por isso não me admirou que fizesse parte do último júri do Prémio Literário Glória de Sant’Anna, este ano concedido pela primeira vez a um autor galego, o Mário Herrero Valeiro, caro amigo desde os alvores da nossa afeição pola escrita. LivrosXLGarcia_VAVieira_AFerreiro_600Assim as cousas, não podia deixar de também convidar o Garcia para participar na Palavra comum, esta nossa modesta ágora que promove o convívio fraterno de todos os filhos da galeguia, ou como se conhece habitualmente, a lusofonia, pois não pretendemos atribuir-nos mais méritos que aqueles tão humildes que no passado remoto ficárom esquecidos para tantos. Na verdade, tomamos a iniciativa desde este pequeno país europeu com vontade de apelar a uma fraternidade que gostamos de alimentar, e já vamos vendo como os velhos amigos e ainda os novos de toda a parte aparecem carregados de presentes e nos honram com seu esforço e seu talento, e já não podemos deixar de ficar gratos e satisfeitos.

Mas voltarei a Chantada e àquele memorável encontro: houvo poesia, amizade, livros, vinhos, truitas e vitela da Terra, e de tudo foi testemunha a majestosidade do Românico e o grande rio que atravessa o país e discorre por unha Ribeira que, entre todas a mais pura, acabou por se chamar de Sacra. A gente não vai acreditar, mas chegamos ao Cabo do Mundo e caminhamos polas duas beiras, uma experiência só possível na transcendência da cartografia que só a Poesia é capaz de conceder.

Sobre o autor / a autora

Alfredo Ferreiro

Alfredo Ferreiro

(Galiza) Alfredo Ferreiro nasceu em 1969 na Corunha, onde estudou Filologia Hispânica. Pertence à Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega, à Associaçom Galega da Língua e ao Grupo Surrealista Galego. Tem participado desde os anos 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas galegas e portuguesas. Na atualidade trabalha como escritor e consultor tecno-cultural.

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