Na herança templária

Na herança templária

1 comentário 🕔13:00, 17.Set 2015

A passear por Tomar, por acaso entrei no jardim da Mata Nacional dos Sete Montes, a sul do castelo dos templários. Comecei a caminhar intuitivamente até que topei com um cartaz que anunciava a direção da “Fonte do sangue”. Então pensei: isto é providencial, vou caminho da Fonte do Sangue e eu vestido com a minha camisola de motivos históricos, um dragão e um leão como os que provavelmente teriam usado os descendentes da dinastia galaica que há muito ergueram este castelo na conquista das terras a sul do reino. Assim, sentia, tudo eram felizes indicadores para a minha primeira visita ao castelo templário. Uma visita esotérica sob o sol comum que aos visitantes vulgares aquece.

Castelo de TomarPorém, o caminho perto do castelo nunca chegou a revelar-me a fonte do que quer que fosse aquilo, e o castelo mesmo não quis mostrar-me sua entrada, fazendo-me permanecer sempre por fora de seus muros. O tempo acabava-se enquanto eu andava perplexo o perímetro, e já devia baixar sem demora para comprar o pão na vila. Ao tempo, a minha camisola de profundos alicerces históricos se tornava um fato de simplicidade turística, e as minhas pretensões desejos de tele-novela.

No final da manhã entrei numa livraria de velho em que achei uma edição portuguesa do poeta galego Ernesto Guerra da Cal. O livro tinha uma dedicatória para alguém que o não conservou, ou a quem lhe foi roubado, ou espoliado. Poesia de um galego escrita em português, editada em Portugal e dedicada à Galiza, e o meu país nem sabe nem quer saber o quanto os seus filhos a amam, seus autênticos filhos e não aqueles que a herdam para a malbaratar nos becos que Madrid destina às anomalias e às não declaradas colónias, até por essa colonização tiver começado antes de a colonização ter sido iniciada. E para além desses becos em Madrid não há nada de bom, só deserto e excrementos. Mais além há de novo gente, com certeza boa gente, na ausência da cidade.

Penso por um instante em comprar o livro do Guerra, mas finalmente dá-me nos olhos uma antologia de poesia portuguesa 1940-1977. Então sim compro, decidido a beber nas fontes do Guerra e deixando este ficar na estante para algum dia voar para a mão de quem precisar descobrir o poeta de além-Minho que se converteu num dos mais reconhecidos especialistas na obra de Eça de Queirós, um galeguinho que fugiu das garras de Franco para lecionar longo tempo nos EUA. Conhecia a antologia, e gostava muito dela desde que o poeta Amadeu Baptista no-la tinha presenteado há muitos anos, e achava que não tinha sido reeditada. Apanhei-na, abri a capa e na portada vi escrito em letra manuscrita o nome de um dos autores da antologia, E. M. de Melo e Castro. Outro espólio, ou talvez o desinteresse dos descendentes de quem tanto amou a poesia.

Deduzi de tudo isto que devia ser uma obra que visa a fraternidade entre poetas, devido a toda a energia poética que contém e a tanta com que deveu ser elaborada. Em verdade, no exato momento em que a vi já sabia a quem a havia de entregar como presente. Assim foi, eu senti imediatamente que acabava de comprar um livro que não havia de permanecer muito comigo, um livro com trinta e cinco anos que ainda pretendia rumar para um outro destino e repousar ainda nas mãos de outro poeta. E não ia ser eu que lhe empecesse o caminho.

*

Para Linda, Gijsbrech e Carlos
regentes do parque de campismo
de Poço Redondo
À burra Diana
Aos cães Sexta-Feira e Sábado
Aos póneis Barby, Kent e Carlotta
Aos gatos
Aos insetos que se deixaram salvar na piscina

CAMPING REDONDO

Resistência? Salvação?
Vontade? Patriotismo?
Devemos é queimar os montes
do nosso egoísmo.
Existe a nação
ou é só um xarope intelectual?
Ouço gritar um burro todas as manhãs
tão orgulhoso que semelha cantar.
Um burro pagado de si
gritando a pleno pulmão
é uma potência natural agradável,
a afirmação de uma espécie
em perigo de extinção
mas que ainda não esquece
seu lugar no mundo.
Brama o burro como um barco
que volta ou retorna ao mar-maior,
afirmando ele ser
o mais fundo peito da serra ou da ria.
Barcos galegos e burros portugueses
semelham dinossauros preservados
pelos erros do capitalismo.
E a mim, ainda, escritor galego e poeta
já pouco me falta para ser
um animal mitológico
que um dia alguém julgará
não ter existido nunca.
Aquele dia em que o barco descansará
para recreio dos peixes
e os burros continuarão a bradar
por séculos sem conta,
muito além do que possa ficar
da minha memória.

Poço Redondo (Junceira), 5-7/9/2015.

 

Sobre o autor / a autora

Alfredo Ferreiro

Alfredo Ferreiro

(Galiza) Alfredo Ferreiro nasceu em 1969 na Corunha, onde estudou Filologia Hispânica. Pertence à Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega, à Associaçom Galega da Língua e ao Grupo Surrealista Galego. Tem participado desde os anos 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas galegas e portuguesas. Na atualidade trabalha como escritor e consultor tecno-cultural.

1 comentário

  1. 🕔 16:43, 13.Out 2015

    João Sousa

    Amigo Alfredo,

    confesso que quando busco um artigo de poesia, busco algo que me revele um final completamente diferente ao expectado pelo título. Engraçadas as voltas que o fizeram culminar num tão belo poema. Um grande abraço, uma sentida partilha desse amor por animais mitológicos, mais vivos, mais permanentes que todas as máquinas…
    Seguimos na senda da tartaruga, em passos de lentos, mas de casca dura!

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