Ensaio provinciano ou um conto angustiado

Ensaio provinciano ou um conto angustiado

0 comentários 🕔12:30, 06.Out 2015

Apetecia-me escrever sobre os jornais de província. E olhem que eu sou um homem de apetites. Mas não posso. Ou não consigo. Não é por causa dos jornais. Eles mesmos. Pobres coitados. É, antes, por causa da província, ela própria, a cinzentona.

A província é, por definição, provinciana, nem outra coisa se lhe pede. Ou exige. A província vive disso, de ser provinciana. Está claro que há províncias que são mais provincianas que outras. Mas, valha a verdade, todas as províncias são provincianas. Até as províncias que pensam que o não são, como, por exemplo, a província que acolhe no seu seio a Capital. Que, por definição, é também a capital da sua província, mas que é muito mais do que isso, é a capital de Portugal. Ora, e mais uma vez por definição, sendo a capital do país, não pode ser provinciana. Só se se der o caso de o país ser uma província. O que, de todo, não é verdade. Ou melhor, não é a verdade toda. Basta sair de Lisboa até aos arredores para nos apercebermos que ali mesmo, a uns escassos quilómetros do Marquês, a província emerge, circunda e conspurca a Capital. A Capital apenas não é província num pequeno perímetro que vai do rio até ao castelo, depois sucedem-se os bairros, as ruas, as lojas, os restaurantes, os cafés, as tabernas, os postos da polícia, os urinóis e pouco mais.

Temos de reconhecer que não existe uma fronteira entre a província e a capital. Mas que existem portagens, lá isso existem. Para a ida e para a volta. E caríssimas, por sinal. Uma pessoa não vai à capital em vão. Na capital, o provinciano paga caro a sua estadia. Paga cada minuto de parqueamento a peso de ouro. Isto, a dar-se o caso de encontrar estacionamento. Claro que também na província já se paga o estacionamento. Mas a província deseja desde há muito tempo a esta parte deixar de ser provinciana. E por algum lado temos de começar. E não existe desenvolvimento sustentável sem dinheiro. E o Estado, que somos todos nós, tem de arranjar dinheiro de alguma forma, e essa forma é o povo (que é o Estado) pagar ao Estado (que é o povo) o que lhe é devido, senão não havia Estado, nem povo, nem país, nem capital, nem província, etc.

Ora, como devem ter reparado, este ensaio, ou conto, está a ficar cada vez mais confuso. Mas a culpa não é minha, ou inteiramente minha, pois, eu sei, que alguma culpa terei de ter, mas não é a culpa toda, isso também sei eu. A culpa inteira é do Estado (que somos todos e qualquer um, só que sabiamente administrados por uns senhores [e senhoras, pois o Estado da Nação já deixou, de algum tempo a esta parte, de ser provinciano] eleitos por nós, que somos povo e Estado ao mesmo tempo). O Estado é que é muito confuso. Mas é da confusão que nasce a ilusão. Está claro que o Estado já deixou de ser o povo para passar a ser ele mesmo. É um pouco como o computador no filme 2001 Odisseia no Espaço, onde a máquina se torna muito, mas mesmo muito inteligente, e passa a desobedecer às ordens dos homens que a criaram, matando os mais desconfiados e aprisionando os administradores, que pensa dominar, mas sem os quais não pode sobreviver.

A ser assim, como vos conto, coitada da província. A província sente-se mal, pois também é Estado, também é povo, também é Portugal. Mas um Portugal lento e provinciano, e com isto quero dizer, com muito menos gente por metro quadrado, com transportes públicos muito mais caros, sem ministérios, sem teatro de vanguarda, sem as sedes principais dos partidos políticos, de todos os partidos políticos, pois alguns (talvez os melhores, ou menos provincianos, ou mesmo nada provincianos, por isso melhores) só existem em Lisboa, sem os políticos mais influentes, sem a Assembleia da República, sem o Palácio Nacional de Belém e o seu insosso inquilino, sem a fábrica dos pastéis de Belém, sem o Palácio de São Bento e o seu perseguido e mal amado ocupante, sem o estádio do Benfica, sem o Chiado, sem Alfama, sem o Bairro Alto, porra, sem o Bairro Alto, porra, sem Alfama, porra, sem as marchas populares, sem o fado, porra, sem o fado, porra, sem o fado e sem Eusébio (não a lontra macho do Oceanário), e sem a Amália (não a do panteão nacional, que foi fadista de renome, mas sim a linda lontra fêmea do Oceanário), porra, porra, porra, e sem o ginásio clube português e sem um patriarca como o de Lisboa e sem o Santo António e sem o Parque Eduardo VII e toda a sua simbologia literária e libertária e libertadora e sem rap e sem kizomba e sem funaná e sem ministério público e sem a ponte vinte e cinco de Abril e sem o vinte e cinco de Abril propriamente dito e sem a ponte Vasco da Gama e sem o Tejo e sem os cacilheiros e, meu Deus, sem o Carlos do Carmo e os putos do seu fado, o Paulo de Carvalho e os seus meninos à volta da fogueira, o Paulo Gonzo e os seus jardins proibidos e sem o Gambrinus e o seu Eisbein com Choucroute (Chispe à Alemã), e sem a Lontra (não a do Oceanário, mas a discoteca) e sem o túnel do Marquês e sem o Parque Mayer e sem a Feira Popular e sem o aeroporto da Portela e sem o Metro de Lisboa (que é subterrâneo, pois um Metro que não é subterrâneo só pode ser provinciano) e sem os pregões de Lisboa e o Cais da Ribeira e o cacau da dita e tudo e tudo e tudo. A nós, os provincianos, falta-nos tudo. Tudo. Até nos falta a vontade de deixar de o ser.

PS (Só para homens. E podem acusar-nos à vontade de machistas. Algum proveito temos de tirar da nossa pobre condição de provincianos… e homens, pois os homens são muito mais provincianos que as mulheres, basta olharmos para os nossos deputados.) – Para que não nos considerem ainda mais provincianos do que aquilo que somos, por favor, caros leitores deste blogue, não saiam à rua de calça vincada, camisinha com o emblema da Lacoste (e não vale a desculpa de que foi comprada nos ciganos), meias brancas e mocassins. Topa-se à distância que são provincianos. Tal indumentária é ainda mais traidora do que o cheiro a naftalina. E se há coisa que denuncie a condição de provinciano é o cheiro a naftalina.

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