<i>Mundo maquinábel</i>, de Táti Mancebo

Mundo maquinábel, de Táti Mancebo

0 comentários 🕔13:30, 29.Out 2015

Mundo maquinábel oferece petiscos da vida comum à luz de uma perspectiva mágica e misteriosa, de modo a revelar-nos nos pequenos fatos da existência o sentido oculto da vida, a autêntica, substanciosa e profunda que corre sob a superfície do quotidiano.

O mundo torna-se «maquinábel» porque aquelas energias tão simples ou vulgares podem ser entendidas como manifestação de uma poderosa máquina que, por ação e inação de alavancas e processos ocultos, produz as realidades que percebemos como nosso destino. Assim, tudo o que existe se comporta como o que é devido ao misterioso funcionamento da grande máquina universal que dá lugar ao mundo. É uma perspetiva de partida mais mecanicista do que espiritual, e porém esotérica à vez que materialista.

mundo-maquinabel_300Entre as experiências fundamentais da vida figuram percepções básicas como o «frio» (“O frio é o que primeiro se esquece”; “E aínda me pergunto quanto frío son capaz de atesourar”), o «percurso vital» (“Atravesamos unha ponte que desaparece ao noso paso”), a «incerteza perene» (“Cheiráballe tanto a súa confusión”; “Unha dúbida marca o movemento”) e a “experiência do outro” (“Ti devólvesme o eu multiplicado”).

Mas neste poemario de Táti Mancebo floresce, no quadro destas energias irrefreáveis, uma rebeldia patente, um afã contestatário que visa valorizar os sucessos atingidos e promover um controlo, ao menos parcial, do funcionamento da grande máquina: “[…] creamos a noite. / Faceis ben a nos temer”. Surge deste modo a presença do inimigo e a vontade de luitar contra a injustiça, de procurar um lugar para evoluir (“[…] ansias de atopar un lugar entre as serpentes”); e a par do inimigo o colaborador na procura da transcendência: “Promete que me venderás a túa alma a prezo de amigo”.

En definitiva, este poemário fala da dimensão transcendental de aqueles fatos breves constantemente repetidos, da importância da intenção mais do que a da ação. E de como as percepções, por erro, tantas vezes nos ocultam a verdadeira maquinaria do mundo em que vivemos. É um apelo sincero para uma nossa maior atenção aos pormenores, até porque as realidades mínimas da vida têm com frequência um significado colosal.

À venda na Loja de Sermos Galiza (epub).

[Sermos Galiza]

Sobre o autor / a autora

Alfredo Ferreiro

Alfredo Ferreiro

(Galiza) Alfredo Ferreiro nasceu em 1969 na Corunha, onde estudou Filologia Hispânica. Pertence à Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega, à Associaçom Galega da Língua e ao Grupo Surrealista Galego. Tem participado desde os anos 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas galegas e portuguesas. Na atualidade trabalha como escritor e consultor tecno-cultural.

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