Crianças de Moçambique (1/12)

0 comentários 🕔18:13, 17.Dez 2015

Saí do aeroporto de Lisboa com direção a Maputo, naquela noite de outubro de 2007. O avião da TAP fez a travessia de África desde Argel a capital de Moçambique. Fiquei no aeroporto até a tarde e viajei em um avião da LAM (Linhas Aéreas de Moçambique). Uma viajem de pavor, pelos sobressaltos que a nave dava, a bater pelo meio duma brava tempestade. Aterrou em Mampula, desde o aeroporto os viageiros vimos como um motor do avião se incendiava, os mecânicos a arranjá-lo ante uma medonha expectação. Não sei se os espíritos animistas intervieram no arranjo, mas o avião chegou a Quelimane, a capital da província da Zambézia. Não longe desta cidade passa o longo, grosso e impetuoso rio Zambeze. Estive uma semana em Quelimane e outra em Maputo. Adorei Quelimane. Fiquei muito atraído por aqueles ambientes nutridos de crianças e de mulheres que são indispensáveis na vida da cidade. Há dias que procurei centenas de fotografias e apontamentos de campo sobre a referida viagem, para articular esta dúzia de imagens e comentários que ofereço aos leitores de Palavra Comum.

As crianças de qualquer parte de África sempre impactam, pela sua cortesia ao olhar-nos de uma maneira contundente e muito simples. Os ambientes de subúrbio propiciam a olhá-las em esses âmbitos contagiantes e não duma maneira frívola. Eu vi na cidade de Quelimane como as crianças destilavam essa harmonia, quando repousavam a olhada no meu rosto. Não sei que cerimónia ou que dúvida de mim elas tinham. Eu a poupar essa gentileza e a procurar refúgio em seus magnânimos silêncios. Em essas olhadas, tão generosas e profundamente estáticas, um respirava sensibilidade de integração, para nunca mais recuar nem esmorecer no nosso retardado olhar, tão acostumado a não nos ingerir na observação do talentoso olhar infantil das crianças de África. A presença de aqueles três miúdos que se sentiram persuadidos pela curiosidade do que estava a fazer este branco, olhando por um tubo, para fotografa-los. O surpreendido fui eu, quando aqueles olhos brilhavam e seus corpos, tendidos sobre o capim, repouso tinham os seus desesperos.

Sobre o autor / a autora

Xosé Lois García

Xosé Lois García

(Galiza-Catalunha) Nascido na Galiza, Xosé Lois García é formado em Geografia e História pela Universidade de Barcelona (Catalunha), cidade onde atualmente vive e trabalha. Articulista, ensaísta, conferencista, tradutor e poeta, é considerado uma das mais importantes vozes da poesia galega contemporânea. Publicou na Espanha antologias da poesia galega, portuguesa, brasileira, angolana e moçambicana, entre outras, além de importantes estudos sobre a simbologia do românico em Portugal e Galiza. Tem vários poemários, dentre os quais se destaca “Tempo precario”, no qual o autor dá voz a seu heterônimo, Pero Bernal, trovador galaico-português.

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