Crianças de Moçambique (7/12)

0 comentários 🕔12:15, 07.Jan 2016

Lá estavam prostradas sobre um colchão, aquelas jovens mergulhadas no despotismo da doença. Vítimas de furtivos violadores: transgressores de vidas plenas que irradiavam esperança. Lá estavam ladeadas com o suplício da SIDA e o peso das sombras sobre elas. Nenhum poder civil, religioso e de falsa moral posse escarnece-las. Basta de anátemas! Puta que pariu as suas excomunhões! Sempre envoltos num lenço de pureza e, tão altos e tão longe das realidades e das tristezas que afligem os que já renunciaram a qualquer forma de viver. As vi com as chinelas a seu lado: totem querido e bálsamo de seus pés, símbolo que nos tateia a alma em espiral a qualquer preço. Assim, de perfil e sem mediocridades, ficam mergulhadas noutro desterro, o das nossas ambiguidades e pérfidos silêncios.

Sobre o autor / a autora

Xosé Lois García

Xosé Lois García

(Galiza-Catalunha) Nascido na Galiza, Xosé Lois García é formado em Geografia e História pela Universidade de Barcelona (Catalunha), cidade onde atualmente vive e trabalha. Articulista, ensaísta, conferencista, tradutor e poeta, é considerado uma das mais importantes vozes da poesia galega contemporânea. Publicou na Espanha antologias da poesia galega, portuguesa, brasileira, angolana e moçambicana, entre outras, além de importantes estudos sobre a simbologia do românico em Portugal e Galiza. Tem vários poemários, dentre os quais se destaca “Tempo precario”, no qual o autor dá voz a seu heterônimo, Pero Bernal, trovador galaico-português.

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