Epístola sétima

Epístola sétima

0 comentários 🕔08:30, 18.Jan 2016

1 – Escrevo-te de A. para te dizer que aqui também tudo está iluminado. Estão iluminadas as tendas dos árabes que acreditam na paz, estão iluminadas as ondas do mar e também as pequenas embarcações dos pescadores, e as figueiras, e as flores de plástico que tenho na sala. Continuam ainda iluminados os mamilos da minha namorada à espera do orvalho, e os lápis de cor com que pinto os desenhos para o meu sobrinho. Também ele está iluminado, bem assim como a trotinete que lhe comprei no Natal. Iluminado encontra-se também o jacuzzi do hotel onde me albergo à semelhança da conta do meu advogado. Iluminados andam os meus olhos com o que vejo à noite no meu quarto. Andam iluminados os segredos do meu bem-estar, a felicidade por poder ver o céu azul e as linhas diáfanas da mulher que agora me acompanha para todo o lado. E sem compromisso. Bem, quase sem compromisso. Muito bem iluminada continua a boa amizade que tenho por ti, meu bom amigo. Um abraço mesmo muito bem iluminado. PS – Não te esqueças de arejar os pirilampos (Lampyris noctiluca). Também eles precisam de se iluminar convenientemente.
2 – E ainda continua tudo iluminado: o Largo do Arrabalde depois da chuva, as coxas de Marilyn Monroe no filme “O Pecado Mora ao Lado”, a “Teoria da Relatividade”, Tom Wolfe, a linguagem imaginativa de Mia Couto, “O Malhadinhas” de Aquilino Ribeiro, a minha máquina fotográfica, as sandálias do pescador, Lawrence da Arábia, as minhas recordações do Cine-Teatro de C. onde vi “O Último Tango em Paris” e os “Doze Trabalhos de Astérix”, a posição enrolada da Luzia, o sorriso altruísta do Vasco, o clarinete do Axel quando toca a “Garota de Ipanema”, a poesia de Vinicius de Moraes, a música de Frank Zappa e a sua fina ironia, as ilusões de Natal, as desilusões de Ano Novo, a regularidade dos dias e das noites, tu, eu, a vontade de estar sempre num lugar diferente, o olhar das ovelhas, o concerto no La Scala de Milão do pianista Keith Jarrett, o lento passar das nuvens, os gritos das baleias, o silêncio, o arado com que o meu avô arava as terras da Ribeira, as páginas já escritas do meu novo livro, as geadas da meia-noite, o amanhecer do Sol por detrás do Brunheiro, os olhos secretos de Deus, a alegria dos homens e das mulheres quando fazem amor…
3 – … as orelhas de Franz Kafka, a grande muralha da China, os candeeiros da ponte Romana, a enciclopédia Larousse, as folhas caídas dos carvalhos, a literatura erótica, Corto Maltese, a Casa Dourada de Samarcanda, o livro de poesia “Vocação Animal” de Herberto Hélder, o olhar dinâmico da Luzia, a calma da chuva miudinha que continua a cair nesta tarde de Inverno, o olhar selvagem da raposa esfomeada das serranias, a carne cozida no pote, a cafeteira de barro, a relva das margens do T., os gestos labirínticos da água a escorrer na calçada da Rua de Santo António, o próprio Santo António, a linguagem diáfana das sereias.
4 – Está tudo iluminado: os arcos da ponte, os teus olhos, os dedos do meu pensamento, a lenta paciência do musgo, os picos do azevinho, os peixes do rio, a tua face cálida, a ternura esponjosa dos níscarros, os livros de aventuras, a poesia das tuas mãos, as feiticeiras más, os lambris dos passeios de Oz, os anões de Oz, os vestidos de Judy Garland, as longas e belas mãos do Vasco e do Axel, o nariz do boneco de neve, a neve do boneco de neve, Rosebud, Juan Rulfo, Daryl Hannah – a namorada do “replicant” do Blade Runner, a actriz e o actor do filme “Disponível Para Amar”, a rua Direita, o sorriso dos meus amigos, as paredes irregulares da casa da minha avó, os caminhos aventurosos do Larouco, as dúvidas dos crentes, as alucinadas alucinações dos visionários, o altruísmo dos simples, a lógica irracional, a razão impura, os ramos dos rododendros, a electricidade estática dos carros, a imobilidade dos nenúfares, o meu chapéu azul, as palhas da corte dos bois, o podão, as linhas cimeiras dos montes e…

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