Poemas de Ashraf Fayadh, em tradução de José Pinto (III)

Poemas de Ashraf Fayadh, em tradução de José Pinto (III)

0 comentários 🕔11:30, 08.Fev 2016

Agradecimento: a Mona Kareem, poeta, ativista e amiga de Ashraf Fayadh, pelo esclarecimento generoso do significado e do sentido de certas palavras e expressões árabes, que enriqueceu terminantemente a tradução.
Nota de Palavra Comum: agradecemos a José Pinto ter escolhido esta revista para a publicação das traduções dos poemas, com a vontade de partilhá-las com o público interessado.

A MELANCHOLY MADE OF DOUGH

Parts of you pile one on top of another—a mixture of your blood,
sweat, remains, and discharge from your eyes.
And discharge from your eyes.
The knot of your tongue at the midway point of the ocean,
and when the sphere of the sun swims
in a preconceived orbit—
Complications!

What the sidewalk never mentioned
is that you used to step on it
and present your shoes on a plate of concrete,
your feet on a plate of shoes,
your legs on a plate of your misfortune.
You tune the strings of your head to affect your foolish delight,
you bury a skull—you’d rather not bear.
You heap yourself on a slate that claims whiteness due to a fistful of flour—
and you ferment.
You swell and puff your sadness like a hot loaf
and dry.
You search for your water
Between your delicacy and your hardness
and your breaking.
and your forehead reddens
also, like a loaf!

You are stored
in the chaotic memory
of the earth, of its core
of al-Lauh al-Mahfuz on your shoulders

You grow mold, also, like a loaf!

In vain, you resist your body’s floundering atop the whitened slate
on your bed
on the sidewalks, on
reflecting and reflected surfaces
and surfaces that absorb light.
Your body always forgets that it’s a complex admixture,
that you have only the familiar look of your legs.
That you resemble a vagrant
whose features stick out among those who walk other walks.
He can neither master their walk nor speak their tongue;
has no right to walk as he pleases
or stumble or weep as he pleases.
No right to crack open the window of the soul
to renew its air and debris and mourning.
You forget that you too are
like a loaf!

You forget how your soul was mixed
at birth, since the day they ripped your placenta,
mixed, your soul
with clothes that conceal your genitals
and reveal what may be seen of them. Of you
and of women who have grown accustomed to ripping their own collars
and hanging portraits on walls.
Of boys who have trained themselves to draw on walls
and gravestones and cars in junkyards
and to march in your name, also,
like a loaf!

So your soul was mixed:
homogenized, fermented, kneaded, baked
and sold at stores that violated health codes,
forged—and used for illegal purposes,
voted on— and eaten
like a loaf.

***

MELANCOLIA DE MASSA

Traduzido por José Pinto, a partir da tradução em inglês de Tariq al Haydar
Original na coleção de poesia do autor
Instructions Within, 2008

Partes de ti amontoam-se uma na outra – mistura do teu sangue,
suor, sobras e despejos dos teus olhos.
Despejos dos teus olhos.
O nó da tua língua a meio do oceano
e quando a esfera solar gira
numa órbita pré-concebida –
complicações!

O que a calçada nunca mencionou
é que costumavas pisá-la
e presentear os teus sapatos no concreto,
os teus pés na sola dos sapatos
ou as pernas no chão da tua miséria.
Sintonizas os tons da tua mente para o prazer tolo,
enterras o esqueleto – era melhor não resistires.
Sobes para a ardósia que dizes ser branca por teres a mãos cheia de farinha –
e fermentas.
Inchas e arquejas a tristeza como o pão quente
e secas.
Procuras a tua água
entre a delicadeza e a dureza
e uma pausa.
E a tua testa cora,
também como o pão!

És posto
na memória caótica
da Terra, do seu centro,
da Tábua Preservada* carregada nos teus ombros

Ganhas bolor, também como o pão!

Em vão, resistes à apatia do corpo sobre a ardósia esbranquiçada,
na tua cama,
nos passeios,
nas superfícies refletoras e refletidas
e superfícies que absorvem a luz.
O teu corpo esquece sempre que é uma complexa amálgama,
que tens apenas uma perna.
Que pareces um vadio,
cujas feições sobressaem entre os que trilham outros caminhos.
Ele não pode dominá-los nem falar a sua língua;
ele não tem direito a caminhar
ou tropeçar ou sequer chorar.
Ele não tem direito a abrir a janela da alma,
renovar o ar, os escombros e as lágrimas.
Também tu esqueces que tu és
como o pão!

Esqueces como a tua alma foi misturada
à nascença, desde o dia em que rasgaram a tua placenta,
misturaram a tua alma
com roupas que tapam os teus genitais
e revelam o que deles se pode ver. De ti
e das mulheres que cresceram habituadas a que lhes fossem arrancados os colares
e pendurados retratos nas paredes.
Dos rapazes que treinaram para desenhar nas paredes
e lápides e carros em sucatas
e marchar em teu nome, também,
como o pão!
A tua alma fundiu-se:
homogeneizada, fermentada, amassada, cozida
e vendida nas lojas que violaram os códigos de saúde,
falsificada – e usada para propósitos ilegais,
eleita – e comida
como o pão.

* al-Lauh al-Mahfuz significa Tábua Preservada, onde Deus escreveu tudo o que aconteceu até ao momento presente e tudo o que acontecerá até ao Dia do Julgamento

*****

FOUR SHORT POEMS

EQUAL OPPORTUNITIES

A son and a daughter.
The mother prefers the son to the daughter.
The son will stand by his mother through the vicissitudes of life.
The daughter will produce another son to stand by her side.

AN APHORISM

To be in love is not to be a bird in the hand of the one you love,
better for them than ten in the bush.
A bird in the bush is better than ten in the hand,
from the birds’ point of view.

CONCLUSIONS

Sometimes love is like a meal to someone who’s been fasting
at other times it’s like a new pair of sports shoes given
to a disabled child.
Love, in general, is a deal that brings much loss
to all parties.

LOGIC

The old door applauds the wind by clapping
for the dance it has performed, accompanied by the trees.
The old door doesn’t have hands
and the trees haven’t been to dancing school.
And the wind is an invisible creature,
even when it’s dancing with the trees.

***

QUATRO POEMAS CURTOS

Traduzido por José Pinto, a partir da tradução em inglês de Jonathan Wright
Original na coleção de poesia do autor Instructions Within, 2008

EQUIDADE

Um filho e uma filha.
A mãe prefere o filho.
O filho estará ao lado da mãe nas vicissitudes da vida.
A filha vai produzir outro filho que fique a seu lado.

AFORISMA

Estar apaixonado não é ser um pássaro na mão de quem amas,
melhor para eles que dez no arbusto.
Um pássaro no arbusto é melhor que dez na mão,
da perspetiva dos pássaros.

CONCLUSÕES

Às vezes, amor é uma refeição para quem passa fome,
outras vezes é um par de sapatilhas novo dado
a uma criança com deficiência.
Amor, no geral, é um contrato que traz muito prejuízo
a todas as partes.

LÓGICA

A porta velha aplaude o vento ao bater
pela dança que ele apresentou, acompanhado pelas árvores.
A porta velha não tem mãos
e as árvores não frequentaram uma escola de dança.
E o vento é uma criatura invisível,
mesmo quando dança com as árvores.

*****

A SPACE IN THE VOID

Everything has weight.
Your weight is well known to the back walls
because your heavy shadow doesn’t give the asphalt, the paint, or the writings stuck on the windows
a chance to appear.
You also have space, significant space,
in the void.

The air is polluted, and the dumpsters are too,
and your soul, too, ever since it got mixed up with carbon.
And your heart, ever since the arteries were blocked
and it refused to grant citizenship
to the blood coming back from your head.

Without your memory, you’d lose much of your weight.
You need to follow a proper diet
to lose more of you.

Make up your mind quickly,
because the earth’s gravity
doesn’t wait long.
Hint: replace the time factor with your name
so that you find the right way to throw the last page
of your diary
right into the rubbish bin.

You consume enough air for two new-born babies
if the screaming was equal,
given that the air molecules around you
carry sound badly, and your throat
needs repairing.
A beggar woman of more than fifty displays her dignity in
a rag studded with coins. She prays that you, and that
pretty woman who happens to be walking beside you,
will soon be blessed with a child,
to fill another part of the void
in return for a coin.

The time has come for you to pick up the pace, not sexually,
and for you to change your smelly socks.

A scientific fact: bacteria grow rapidly.

Succumb to sleep.
because the time has come for you to melt, and dissolve,
to take the shape agreed for the alienation into which you’re have been poured.
Evaporate, condense,
and go back to your void,
to occupy your usual space
in the You.

***

ESPAÇO NO VAZIO

Traduzido por José Pinto, a partir da tradução em inglês de Jonathan Wright
Original na coleção de poesia do autor Instructions Within, 2008

Tudo tem peso.
O teu é bem conhecido das traseiras
porque a tua pesada sombra não deixa aparecer a estrada, a pintura ou a escrita
postos à janela.
Tens espaço também, muito espaço
no vazio.

O ar é poluído e os caixotes do lixo
e a tua alma também, desde que a trocaste por carbono.
E o teu coração, desde que as artérias colapsaram
e recusaram conceder cidadania
ao sangue vindo do fundo da tua cabeça.

Sem memória, perderias muito peso.
Precisas seguir uma dieta rigorosa
para perderes mais de ti.
Decide-te rapidamente,
porque a gravidade da Terra
não espera muito.
Dica: substitui o fator tempo pelo teu nome
para descobrires como atirar a última lágrima
do teu diário
direta para o cesto do lixo.

Consomes ar basto para dois recém-nascidos
se os gritos fossem iguais,
dado que as moléculas de ar à tua volta
transportam mal o som e a tua garganta
precisa de reparação.

Uma mulher mendiga acima dos cinquenta exibe dignidade num
farrapo cheio de moedas. Reza para que tu e a
mulher bonita que está contigo
sejam em breve abençoados com uma criança,
para encher outra parte do vazio
em troca de uma moeda.

Chegou a hora de aprenderes os passos, não sexuais,
e de mudares as meias malcheirosas.
Fato científico: bactérias crescem rapidamente.

Rende-te ao sono,
porque chegou a hora de derreteres e dissolveres
e tomar a forma alienada em que foste servido.
Evapora, condensa
e volta para o teu vazio,
para ocupares o espaço habitual
em ti.

Para a petição de Amnistia: Free Ashraf, poet facing execution in Saudi Arabia (Amnesty International UK)

Ashraf Fayadh

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