Cinco poemas de <em>Curso de Linguística Geral</em> e entrevista ao seu autor, Igor Lugris

Cinco poemas de Curso de Linguística Geral e entrevista ao seu autor, Igor Lugris

0 comentários 🕔14:00, 25.Fev 2016

NOTA DE PALAVRA COMUM: Curso de Linguística Geral é o novo livro de poemas de Igor Lugris, publicado por Através Editora neste 2016.

Agradecemos ao autor o envio dos poemas desta sua nova obra publicada para partilhar na Palavra Comum e que nos concedesse uma entrevista, que pode ser lida a continuação dos textos.

***

CINCO POEMAS DO LIVRO
CURSO DE LINGUÍSTICA GERAL

*

MATÉRIA E TAREFA DA LINGUÍSTICA
Decálogo de onze pontos para toda a Linguística futura que quiser apresentar-se como Ciência

Estes prolegômenos não são para uso dos principiantes, mas dos futuros docentes, e também não devem servir-lhes para ordenar a exposição de uma ciência já existente, mas, acima de tudo, para inventar essa mesma ciência.

Inmanuel Kant, Prolegômenos

Como primeiro ponto
e porque a necessidade cria o órgão
proponhamos inventar quanto antes palavras novas
dessas que sabem a chocolate a gengibre e a absurdo
e não gostam nos gabinetes da presidência
seja o que for o que presidam

Como segundo ponto
devemos exigir a abolição imediata de praticamente todas as regras da sintaxe
O sujeito já não terá que coincidir
o b r i g a t o r i a m e n t e
com o verbo
Mas sim com a honestidade a fraternidade
e especialmente a sororidade
dos demais membros da estrutura
de que fizer parte
e mesmo de que não fizer parte

Em terceiro lugar
decretamos com urgência
o fim de qualquer tipo de discriminação
por motivos de grafia ortografia morfologia
filologia semiologia ou metodologia
promovendo a constituição de assembleias sintagmáticas
horizontais igualitárias e libertárias
em que não tudo dependa do núcleo
e se permita a discordância

Como quarto ponto
eliminaremos a subordinação
em todas as suas expressões atuais
sendo substituída sem escusas
pela insubordinação
substantiva adjetiva e verbal
modal intemporal e causal
Sem condições nem consequências
para os sujeitos
sejam agentes ou pacientes

Em quinto lugar
dar-se-ão poderes plenipotenciários
ao Soviete de Fonemas e Sonidos
para reorganizar o Sistema Fonológico
em base aos critérios de
Liberdade Igualdade e Musicalidade
porque uma revolução na que não se poda cantar
não é a nossa Revolução

O sexto ponto
recolhe o reparto igualitário de palavras
entre toda a população
assegurando por lei o aceso universal
a artigos preposições determinantes e pronomes
com especial atenção para aqueles sectores historicamente mais necessitados
e sem permitir a sua acumulação por parte dos grupos oracionais reacionários

Em sétimo lugar
denunciamos como
injustas imorais e ilegais
as Monografias Dissertações e Teses até agora defendidas
por parte da Monárquica Academia Retrógrada e Burguesa
com o beneplácito do Fundo Literário Internacional e o Banco Mundial das Línguas
retirando a esses organismos imperialistas a legitimidade e a autoridade
para adotar decisões que afetam milhões de palavras em todo o planeta

No oitavo ponto
consideramos imprescindível recolher que
todos os complementos serão
circunstanciais e diretos
sem permitir distinções
que pressuponham a condição de indiretos
para nenhum sintagma ou grupo de palavras
que contribuam com significação e força de trabalho à coletividade

Em nono lugar
iniciar-se-á a elaboração
dum novo dicionário
lógico ideológico e sentimental
que reconheça todas e cada uma das palavras
realmente existentes
sem discriminação por motivo de género
número ou origem social
e exigindo de cada uma segundo as suas capacidades
outorgando a cada uma segundo as suas necessidades

No décimo ponto
recolhemos a histórica reivindicação
do Movimento Prosódico Internacional
para que levem acento todas as palavras que assim o desejar
sem permitir o mantimento de privilégios aristocráticos
baseados em absurdas superstições mitológicas
referidas às letras finais de cada palavra
e ao cômputo das suas sílabas

E como décimo primeiro ponto
reivindicamos o nosso direito inalienável
a escrever um decálogo de onze pontos
ou mais
sem permitirmos que definições superadas
e próprias doutros tempos
botem por terra o título deste poema
prosaico livre e comum
comunista comunitário e comunicador

A LÍNGUA A QUEM A TRABALHA!!!
A LÍNGUA A QUEM A TRABALHE!!!

*

REPRESENTAÇÃO DA LÍNGUA PELA ESCRITA

A minha grafia quero na tua pele
para escrever o teu corpo com nh
e colocar o ç onde poda ser pronunciado
Deixar escorregar todos os circunflexos
da minha boca até o teu sexo
enquanto pronunciamos devagar os hífenes
que juntam os teus verbos e os meus pronomes
E com a força de quem procura a rebeldia
lermos nas ruas em voz alta os desejos
duma língua livre para uma pátria libertada

*

DISPOSITIVOS DE PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO

Somos organismos
dispositivos
de processamento de informação
Terminais que se comunicam
codificando e descodificando mensagens
Para que a comunicação se produza o código deve ser igual em ambos os terminais
diz-nos a teoria
Sendo grande a redundância duma mensagem a sua entropia será pequena
diz-nos a teoria
Comunicativo significa significativo para o emissor. Informativo significa significativo para o receptor
diz-nos a teoria
Porém
falamos com criptolexemas
Inauditos Amnémicos Escuros
Algumas vezes crípticos
As mais das vezes ignotos
E aprendemos
que nem sempre
a comunicação se produz
partilhando o mesmo código

*

12 POEMAS SOBRE AS CARACTERÍSTICAS DA LINGUAGEM HUMANA DE C. F. HOCKETT

1. Semanticidade

Do momento em que
a nossa primeira antepassada
afiou um seixo
e inventou o universal
aaaaa |machada|
todas as ferramentas evoluíram

*

12 POEMAS SOBRE AS CARACTERÍSTICAS DA LINGUAGEM HUMANA DE C. F. HOCKETT

8. Aprendibilidade

Qualquer falante
duma língua dada
é capaz de aprender
uma nova

Nenhum falante
duma língua dada
é capaz de
voluntariamente
esquecê-la

***

ENTREVISTA

- Palavra Comum: QuIgor Lugris Curso de Linguística Gerale é para ti a literatura?

- Igor Lugris: Fundamentalmente, para mim a literatura é uma ferramenta para, no mínimo, intentar descobrir, compreender e entender a realidade. Tanto quando escrevo como quando leio, essa é a finalidade que procuro. A literatura é linguagem, e essa é a finalidade principal da linguagem: não comunicar-se, mas, antes de tudo, compreender(-se).

Entendo a literatura como um elemento imprescindível não só para compreender o mundo, mas para compreendermo-nos a nós própri@s. Com certeza, quando um@ autor@ escreve a sua motivação principal é explicar e explicar-se, refletir sobre algum fato, alguma ideia, algum assunto que lhe parece necessário entender e, ao mesmo tempo, clarificar. Mas também quando lemos qualquer leitor@ está a procurar o mesmo: as motivações podem não ser tão evidentes, mesmo muitas vezes podemos querer negar que exista essa motivação, mas tod@s abrimos um livro (qualquer livro, seja literário, científico, divulgativo, escolar,…) para procurar respostas, para que nos ajude a entender-nos, a compreender o mundo e a realidade na que vivemos. Estou convencido disto.

Não concebo que poda existir outra explicação para que sigam a existir leitor@s, e para que sigam a existir escritor@s. Lembro que quando estava no liceu tinha um professor de literatura que nos insistia na ideia de que já “os gregos” (os clássicos) escreveram tudo e sobre todas as coisas, e que a partir deles o único que existe é uma reescrita continua e infinita. Acredito em que isso tenha parte de verdade, e por isso mesmo entendo que a única explicação de que a literatura exista e persista ao longo dos séculos, nas diferentes culturas e realidade, nas mais variadas condições políticas, sociais, culturais, demográficas… , em todas as geografias reais e imaginarias, é essa necessidade de procurar respostas para as perguntas que nos acompanham e, ao mesmo tempo, perguntas para as respostas que já temos.

A literatura acompanha-nos, como seres humanos, desde o primeiro momento de aparição da linguagem, e tem evoluido com ela. Faz parte de nós mesm@s. Não é só que não exista nenhuma civilização conhecida na que não tenha existido, duma maneira ou outra, a literatura (e outras muitas artes), é que também não existem exemplos de civilizações ou culturas imaginadas, inventadas, ficcionalizadas, onde a literatura não esteja presente, mesmo que seja para persegui-la ou proibi-la.

- Palavra Comum: Como entendes (e praticas) o processo de criação literária – e artística, em geral-?

- Igor Lugris: Não sou metódico no que ao proceso de criação literária diz respeito. Permito que a criatividade me assalte em qualquer momento, com uma ideia, um conceito, uma imagem, e a partir desse momento vou trabalhando com esse elemento até decidir se pode chegar a converter-se em matéria literária. Às vezes é um simples pensamento, que pode dar lugar a um poema, ou só um verso; outras vezes, o que origina é uma ideia mais global, que pode devir na estrutura dum poemário ou dum conjunto de poemas, ou o título dum livro. A partir disso, escrevo, reescrevo, risco, borro, elimino, acrescento,… até chegar a um resultado que, por algum motivo, me convença ou me resulte útil.

De todas as formas, e contra o possa parecer pelo dito anteriormente, não acredito muito na “inspiração”. Acredito, antes bem, no trabalho, no exercício e na atividade. Dentro desse exercício, incluo a leitura, imprescindível para a escritura. Deve ser certo que se pode ler sem escrever (porque todo parece indicar que há muitas pessoas que assim o fazem), mas é completamente impossível escrever sem ler.

Além disto, há uma ideia fundamental que sempre tenho presente, que é intentar não dizer o que já está dito, não escrever o que já está escrito, não cair na previsibilidade. Isto, resulta evidente, é praticamente impossível: mas esse é o desafio. Fugir dos caminhos já transitados; não repetir aquilo que já está feito, dito ou escrito; procurar sempre conteúdos e continentes que intentem romper os limites, ou, como mínimo, expandi-los. Ir mais alá, sempre mais alá. E, se isto não resulta possível, forçar a ferramenta (neste caso, a língua e/ou a linguagem) até rompê-la. Quebrar as normas, dar-lhe a voltar às normas, confundir as regras,… No processo literário há muitas coisas que devem ser criadas; mas há também outras muitas que devem ser destruídas, ou quando menos deconstruídas. Considero que todo isso faz parte, deve fazer sempre parte, do núcleo da criação, literária e artística, com certeza, mas não só.

- Palavra Comum: Quais são os teus referentes (num sentido amplo)?

- Igor Lugris: Precisamente por isto que venho de dizer -que não é possível a escritura sem a leitura-, entendo que os meus referentes (para bem e para mal) são todas aquelas obras ou autor@s que tenha lido. Reconheço naquilo que eu escrevo a pegada de muitos livros, mas também de muitas músicas, e mesmo doutras artes; nesse sentido, é impossível escapar hoje em dia da influência do audiovisual, especialmente do cinema e da tv, mesmo que eu não seja um grande fã.

Em linhas gerais, gosto de tod@s aquel@s autor@s que desejaram, estão a desejar ou irão desejar refletir sobre o estabelecido, dispost@s a reagir contra ele se for necessário, tanto artística, como política ou socialmente. Seja um grupo de música punk que se atreve a mostrar o seu ódio a uma sociedade moralmente caduca e vitalmente insofrível, seja um@ escritor@ que é capaz de mostrar com a sua obra os motivos pelos quais a realidade deve ser transformada. Seja essa atriz ou ator de teatro que está disposto a pôr a sua capacidade e o seu conhecimento ao serviço duma causa revolucionária, seja um@ professor@ que se esforça em transmitir ao seu alunado os motivos pelos quais nunca deve conformar-se com obter respostas, mas deve aprender a fazer perguntas. Nesse sentido, as referências podem ser, e de fato são, múltiplas e variadas.

- Palavra Comum: Que caminhos (estéticos, de comunicação das obras à sociedade, etc.) estimas interessantes para a literatura, e quaisquer outras artes?

- Igor Lugris: Para responder a isto devo confesar certa esquizofrenia: se bem estou absolutamente convencido da necessidade de explorar ao máximo as oportunidades que oferecem as novas tecnologias da comunicação, aproveitando-as para fazer chegar a literatura -e a cultura em geral- a lugares até onde hoje não chegou ou aos que hoje já não chega; também é certo que, ao mesmo tempo, estou completamente convencido -muito influenciado pelo decrescentismo- de que nos achegamos a uma época de colapso: colapso ecológico, e, portanto, também económico, social, cultural…, que nos vai obrigar a aprender a viver doutro modo. Entre as realidades atuais, inquestionáveis, que se calhar já têm os dias contados, acho que estão precisamente as novas tecnologias da comunicação, muito especialmente internet, que não vai poder ser mantido, quando menos tal e como o conhecemos hoje. Surpreende-me muito, o pouco debate que existe sobre isto, porque, em minha opinião (e na de outras muitas pessoas mais informadas e formadas), o colapso -adote a forma que adote- está mais perto que longe.

Nesse sentido, ao tempo que insisto em aproveitar, por exemplo, as “novas redes sociais” para distribuir, comunicar e socializar a cultura, também considero que devemos ir pensando em como vamos recuperar e atualizar as “velhas redes sociais”: aquelas que permitiram durante séculos a transmissão do saber e da cultura, para evitar que acabem em mãos dos setores mais privilegiados ou poderosos. Como me considero um pessimista tático e um otimista estratégico, auguro uma importante vitalidade da literatura oral neste século XXI que ainda estamos a começar.

- Palavra Comum: Que opinião tens sobre o a língua e literatura galegas a dia de hoje?

- Igor Lugris: Sobre a língua galega, é complicado ser otimista. Os dados de uso e transmissão da língua, de pervivência de usos, de aparição de novos falantes e criação de novas necessidades linguísticas, não permitem muito otimismo. Temos uma língua na que podemos dar-lhe nome a todas e cada uma das partes dum carro tradicional (carro que já não faz parte das nossas vidas), ou nomear a chuva com parece que mais de cem nomes diferentes, mas com a qual as nossas crianças já não podem jogar ao futebol ou ir engatar aos bares, porque já não temos as palavras e as construções para isso. Ainda mais grave: temos uma língua que nos provoca dúvidas, erros e incorreções na nossa vida diária mais rotineira, mas isso sim, com um exaustivo conhecimento gramatical. Isto não lhe acontecia às pessoas galego-falantes há cinco ou seis décadas; e (a uma grande quantidade de neo ou paleo falantes) também não nos acontece em espanhol. Está-se-nos a escapar a língua dia tras dia.

Acho que levamos 40 anos (por ponher um número redondo), a perder o tempo, por dizê-lo rápida e simplesmente. O processo de normalização linguística que temos vivido foi um grande sucesso, mas para os seus impulsores, não para a população galego-falante. Hoje, é impossível não reconhecer que todo o plano de normalização linguística visava a normalização do espanhol naqueles lugares, âmbitos e estruturas onde, nos anos 70, ainda não estava normalizado. E isso foi conseguido. Ao mesmo tempo, com uma ingente campanha publicitária da que faziam -e fazem- parte um grande número de bem intencionados atores secundários, a língua galega não se normalizou em nenhum âmbito onde era necessário e retrocedeu naqueles outros em que estava assentada; parecia que sólida e consolidadamente assentada, mas realmente numa condição de fragilidade e fraqueza muito maior do que aparentava.

Mas, estou convencido, a situação é reversível. Depende da vontade: da vontade de realizarmos uma análise honesta, desprejuizada e valente da situação atual da língua galega; e da vontade de darmos passos avante num processo real de recuperação da mesma. Há uma máxima que eu considero que devemos aplicar: “se queres obter resultados diferentes, não continues a fazer o mesmo de sempre”. Os anos de tática isolacionista oferecem uns resultados claros; se queremos obter outros resultados, deveríamos mudar de tática. O reintegracionismo é essa tática, e estou convencido de que faz parte do futuro da língua galega.

Quanto à literatura galega, a dia de hoje é uma realidade ampla, plural e diversa. Devo reconhecer que há autor@s que me interessam, e muito, junto a outr@s pelos que não sinto o mais mínimo interesse. Podo sentir-me mais perto de autor@s portugues@s, brasileir@s, ou angolan@s, mas também catalães, basc@s, argentin@s, frances@s, ou mesmo espanhóis, que de algum@s autor@s galeg@s.

Também na literatura, considero que um dos grandes debates pendentes é a questão normativa, e a aceitação da pluralidade e diversidade neste terreno. Não compreendo que ainda a dia de hoje haja autor@s que não podamos participar em determinadas atividades (atos, certames, jornadas,…) devido à nossa escolha ortográfica, tendo mesmo pechadas as portas duma grande parte das editoras e das publicações existentes. Há quem pensa que negando a realidade esta se modifica ou deixa de existir. Mas, por sorte, existem cada vez mais pessoas, organizações de todo o tipo e coletivos que apostam pela democracia e a liberdade, permitindo que exista um debate aberto, sincero e plural sobre a ainda nunca solucionada “questione della lingua”.

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