Conto, por Raquel Miragaia, e ilustração de Mónica Montero Parcero

0 comentários 🕔12:00, 07.Mar 2016

- Não podes carregar sobre mim esse segredo.

Não sei se foi maior a indignação polo peso que acabava de deitar em mim ou pola sua brutal indiferença ante a minha dor.

- Não podes carregar esse segredo em mim e menos ainda ir embora depois.

Seu rosto não sofria a menor transformação. Começara a falar-me com um sorriso modesto, quase humilde, e com esse mesmo sorriso olhou finalmente pra mim pra despedir-se. Sem pronunciar sequer a palavra “adeus”.
Talvez não soubesse que aquilo acabava de transformar pra sempre cada peça da minha vida. As paredes da casa, a cor das cortinas, o ar que me envolvia, o tempo… O peso.
Consciente ou não, o único pai que conhecera embora não fosse o meu pai, contou-me aquela verdade que não queria saber e foi-se embora. Sem remorso.
E depois disso, devia aprender a mover-me com aquela certeza inquestionável. Preferia um milhão de vezes a ignorância, aquela de que reclamara a diário, aquela que acusava de ser a causa de todos os meus males.
Tinha uma lembrança exacta do dia que me levaram à casa do “pai”. Uma lembrança exacta desse dia ou da história que me contara ele tantas vezes ao longo dos anos. Não sou capaz de separar as cousas nesse embrulho que foram os primeiros anos de vida. Construí a minha infância com a mistura das lembranças vividas e as fabricadas com o escutado. A minha história é apenas um retalho multiforme. Ou era-o até hoje.
Tinha apenas três anos e os olhos estarrecidos de fome. Isso foi o que
ele contou. Acho que essa fome de criança me deixou os restos do pânico até hoje. Não suporto a geladeira vazia nem a perspectiva de passar os dias de férias com os mercados fechados. O meu pai (abandonarei a reticência, assumo a palavra com toda a sua força) dizia que a medida que a geladeira se vai esvaziando os meus olhos começam a ficar como aqueles de menina esfomeada que chegou à sua casa.
Era um dia de inverno e as freiras do orfanato não pararam quase nada. Deixaram o atadinho de panos e criança com o meu pai e partiram. O por quê ele, um homem viúvo, já passados os quarenta e com uma mãe doente pra cuidar adotou uma filha naquela altura, nunca explicou. Bem, adotar não é um conceito muito exacto. Apenas acolheu em sua casa e depois o tempo foi fazendo o resto. A situação no país não estava para pôr-se exigentes com legalidades, e uma menina menos num orfanato sempre é uma boa notícia.
Demorei muito a chamar-lhe “pai” e ainda até hoje o seu nome convive com a função. Ele nunca pareceu importar-se como isso. Atendia sempre bem disposto, mesmo que o chamasse Antônio. Pode-se dizer que fui feliz. Pode-se dizer mesmo que senti aquelas duas personagens como a minha verdadeira família.
Talvez não seja justo apelidar de personagens às duas pessoas que fizeram de mim uma cidadã com identidade. Mas a vida naquela casa foi sempre quase fantástica. Vivi uma infância com poucas regras sem questionar-me se aquilo era o normal ou não. Andava com liberdade dentro e fora, por cada canto, não havia lugares interditos nem conversas reservadas só pra maiores. Só mais tarde soube que aquelas cousas aconteciam em todas as famílias. Em todas, excepto a minha.
A avó, ela sim foi desde o início a avó, tinha uma doença rara que a sumia regularmente em estranhos delírios. Não duravam muito tempo mas eram imprevisíveis e isso incapacitava-a para a vida autônoma. Quando estava normal, nessa normalidade que todo o mundo aceita, era uma velhinha doce que me mal criava. Fazia-me sempre festas, concedia-me todos os desejos, mesmo os que eram impossíveis, e fazia-me sentir única no Universo. Nunca consegui saber como era capaz de tantas bondades. Quando era criança acreditava mesmo em que ela era uma fada, uma meiga, uma moura… qualquer um dos seres fantásticos que habitavam os seus contos. Foi muito triste descobrir com o passo do tempo que aqueles mundos eram de fantasia e aqueles seres não existiam. Essa foi a minha maior decepção de criança. Mas agora, à vista das últimas informações, já nada me parece impossível.
O pai cuidava da avó com uma delicadeza inédita. Era maravilhoso ver aquele homem sem jeito, torpe nos seus hábitos diários, tornar-se um enfermeiro paciente e carinhoso nos ataques da avó. E não era fácil. Tinha que evitar que saísse da casa porque um dos seus delírios mais recorrentes era que devia vingar-se. Nessas ocasiões pegava na faca da matança e tentava fugir em procura dessa vingança. Nunca dizia um nome, só falava palavrões pouco aptos para ouvidos de menina, palavrões que a mim me divertiam não tanto polo significado como pola voz rouca que não parecia da avó. Eu ria e essas eram as únicas vezes em que o pai me olhava com raiva, brigava para que calasse e só conseguia que ficasse mais excitada e risse mais forte.
A avó gritava “cabrões, ninguém se atreveu com vós mas vades ver esta merda de velha arrancar-vos os olhos” “Malnascidos, só abusades porque tendes a força, mas agora já nada me importa.”
O pai lutava por tapar-lhe a boca e acalmá-la sem machucar os seus braços, sem machucá-la… Era um equilíbrio impossível. O delírio durava umas horas e depois a avó dormia. Dormia quinze horas ou mais e acordava sem lembrar nada. Voltava a ser a doce fada de conto.
De criança eu perguntava sempre por que. Avó, que che passou ontem? Por que gritavas cabrões?
Ela olhava para mim com uma tristeza infinita e dizia que estava tola, que ela nunca falava palavrões. Dizia que ia contar para o meu pai se me seguia fazendo de boca suja.
De criança eu não acreditava naquilo. Como é possível uma pessoa esquecer o que fijo no dia antes? Agora tenho a certeza de que o impossível é não esquecer.
Porque agora, agora que sei, não consigo entender como a avó pudo viver com aquele segredo. Com aquele segredo e comigo ao mesmo tempo.
Mas eu fui feliz. Chegou uma hora em que tive que ir na escola. Bem, na realidade não tinha que ir na escola porque naquela época ninguém se importava. Mas o meu pai colocou o assunto como inquestionável.
Agora começo a compreender algumas palavras que na altura não faziam menor sentido para mim. O significado de “bastarda” aprendi rápido. Mas o meu pai convencera-me de que estavam todos errados. Que eu não era bastarda tinha que ser claro para mim porque o tinha a ele, Antônio, que era o meu pai ainda que às vezes o chamasse Antônio. E uma menina que tem pai não pode ser bastarda.
Os outros adjectivos eram sempre de gume afiado. Chamavam-me monstro e demo e eu convencim-me de que era por aquela deformação que afeia o meu rosto até hoje. Esse meu olho velado por uma película branca que me dá um aspecto quase fantasmal. Oxalá me insultassem apenas polo olho deforme. Preferia ter sido apenas corcovada, tateja ou vesga. Ou tudo ao mesmo tempo. Agora não sei como conviver com a minha condição de monstro.
Deve ter sido na adolescência que comecei a perguntar quem sou eu. Qual é a estranha condição dos humanos que nos obriga a saber quem somos? Para que? Será que as coordenadas do mapa da minha origem muda algo realmente? Pra mim mudou. E agora gostava de voltar atrás e apagar as perguntas. A pessoa que eu sou não pode ser a pessoa de onde venho. Não quero que seja. Não podo ser.
Mas comecei a perguntar e meu pai a calar. E a minha avó. A minha avó começou a ter delírios cada vez mais frequentes na minha adolescência. Combinava os dias de violência com outros de angústia inconsolável. Chorava horas sem parar até cair rendida de sono. E esquecia, claro. Como não ia esquecer?
Apesar dos silêncios eu era feliz. Acabei a escola na vila e o meu pai convenceu-me de seguir estudando, embora tivesse que ir à cidade e gastar o pouco dinheiro que podia poupar com o seu ofício de ferreiro.
Digem que sim porque sempre duvidei do carinho de meu pai. Dele, de Antônio. Sentia no seu trato uma distância incompatível com o amor. Sim, cuidava de mim com mimo e detalhe. Nada havia que reprochar ao seu papel de pai. Mas os seus abraços eram frouxos e ausentes e as palavras de carinho ficavam engasgadas na garganta. Eu quase podia ver como um esforço físico as suas tentativas de afagar-me com palavras. De vez em quando, olhava para mim com uma mistura de lástima e medo que não sabia interpretar.
Portanto, aceitei estudar na cidade e descobrir um perfeito caminho para a vida.
Voltava à casa só uma vez no mês e assistia ao declínio da avó com uma tristeza volátil, esquecida aos três dias de volta na cidade. A avó ia ficando margarida murcha e eu pensava que podia ser eterna, mesmo murcha. Queria pensar, talvez egoistamente, pra não abafar a minha felicidade urbana.
Porque entre outras cousas, provei o amor. Foi algo tão inesperado como festivo. Primeiro tive que acostumar-me a que alguém foi capaz de ver além da minha fealdade. Demorei meses em aceitar. Ficava de riso amargo quando me encontrava fermosa, algo vetado com o meu olho deforme.
O certo é que ninguém pode resistir demasiado tempo nem demasiado forte a um amor entregado. E a mim foi-me entregado como presente sem embrulho, puro, forte, intenso… Deixei-me cair pola pendente e continuei sendo feliz.
Entretanto, a margarida foi murchando até morrer. Recebi um telegrama na pensão avisando da morte da avó e a minha felicidade tivo um furo, uma via de água. Tão injusto interromper assim aquela viagem! Fiquei com raiva da avó para não ficar triste, para não sangrar. Tudo bem, se ela morria eu iria culpá-la da sua própria morte para não me sentir eu tão responsável. Responsável da minha felicidade inconsciente, da falta de tempo e cuidado nas minhas últimas visitas.
A avó morrera e nem puidera saber o quanto eu a amava. Quando passou a raiva começou o pranto. Voltei à casa convencida de que ia ser o pior dia da minha vida. Voltei à casa e descobri que a morte é muito pior antes de que aconteça. A avó tinha aquele rosto de fada que acompanhara a minha infância e de alguma maneira inexplicável, ainda morta, conseguiu mal criar-me uma última vez. A avó morta consegui confortar-me com a sua doçura.
O pai, em troca, estava desesperado. Nunca, nem antes nem depois daquele dia, vi uma pessoa tão desconsolada. O pai era a fotografia perfeita da desolação. Não interessava que a casa estivesse cheia de vizinhos, que primos afastados que nem conhecia vinhessem abraçá-lo e condoer-se dele. O meu pai estava só. Só desde a medula até cada centímetro de pele. Não podo dizer que um muro de solidão o cercava, mas essa era a impressão que eu tinha.
Agora sou capaz de entender a sua desolação. Agora que dividiu o peso da verdade comigo entendo perfeitamente a dor daquele dia, o dia que perdeu a sua mãe e a única pessoa que partilhava o seu segredo. Tinham-no deixado verdadeiramente só.
Maldigo o meu pai por não segurar o peso sozinho. É verdade que eu perguntei, perguntei desde que me figem adolescente até hoje, o dia em que soube a verdade, com uma regularidade teimosa e insistente. Mas se ele conseguiu resistir até hoje, por que não seguiu? Por que soltou a pedra e foi embora?
Voltei para a cidade e, embora a tristeza, seguia sendo feliz. A avó tinha-se despedido de mim como fada que era. Eu tinha recebido a mensagem e fiquei em paz. O amor abalava-me ainda no seu colo e até de vez em quando ousava tapar o olho baixo um pano quase de pirata. Sentia-me fermosa.
Acabei os estudos de Magistério voltando cada vez menos à casa. O meu pai nunca me reprochou nada e eu, enganava-me com facilidade. Via-o com um leão enjaulado em cada visita. Por detrás da minha inconsciência via o seu percorrer a casa em passos nervosos e cumpridos e sabia que algo estava pronto a acontecer. Só esperou a que começasse a exercer. Hoje foi o meu primeiro dia na escola e foi o dia que ele escolheu para mudá-lo tudo.
Tento entendê-lo. Essa é a verdade. Fago esforços por cima das minhas capacidades para entendê-lo mas não consigo.
Sei que não podia mudar o passado. Que não podia voltar atrás, àqueles tempos de terror para salvar a sua irmã. Sei que quando fijo o que fijo, mesmo na sua consciência de pecado, fijo-o porque era melhor ele fazer que os cabrões malnascidos que a minha avó insultava nos seus delírios. E provavelmente não tinha outra opção. Sei que o fijo pola sua irmã, apesar de que a mãe estava presente olhando a cena infernal que a alienaria para o resto da vida. Até consegui entender que me procurara depois, ainda que isso me cause enjoo.
Mas agora. Agora só precisava guardar o seu segredo uns anos mais.

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