Unha antoloxía diferente da moderna poesía portuguesa en 1941

Unha antoloxía diferente da moderna poesía portuguesa en 1941

0 comentários 🕔10:45, 24.Mar 2016

En 1941, en plena guerra mundial, no Portugal salazarista, teoricamente neutral, desencadeárase unha guerra literaria entre presencistas e neorrealistas. Ambas tendencias, porén, estaban enfrontadas á oficialidade literaria salazarista, tanto literaria como politicamente. Nese ano, en Coimbra, publicado pola Tipografia da Atlântida apareceu unha Antologia da Moderna Poesia Portuguesa, organizada por A. C. L. e prefaciada por Campinas de Figueiredo. As palabras do prefacio eran as seguintes:

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E assim se irmanaran en formoso livrinho algumas das mais mimosas produções de inspirados versejadores da nossa hora, para que quantos os não conheciam e admiravam, passem agora a conhecê-los e a… apreciá-los.

Uns passaram ontem por esta Coimbra parideira de poetas e tricanas –segundo rezam lendas fantásticas; outros ainda por cá arrastam o seu desejo ardente de infinito sintético, de mistura com muita aguardente de cana e copos de cerveja na Brasileira.

E tu leitor amigo, por mais prosaico que te julgues, se ao acabares a leitura desta Antologia te convenceres de que também és poeta, terás atingido o fim a que me propuz, eu que também me sinto inspirado, desde o cadáver pretencioso ao intelecto chato e agiota, por dever de oficio.

Coimbra, maio de 1941

CAMPINAS DE FIGUEIREDO

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E a Antologia da Moderna Poesia Portuguesa 1941continuación viña a antoloxía, democrática: un poeta, un poema. Que poetas foron os escollidos, os antologados? Velaí os seus nomes e os títulos dos poemas, estes entre parénteses: João Pochofel (Espello Cruel), Adolfo Canais Morteiro (Feira), Melro Fartado (O Pobre Diabo), António da Lousa (Poema do Desaparecido), António Vamos a Almeida (Serão), Campinas de Figueiredo (2º Poema do 1º Diário), Federico Zamora (Alma sem Consêrto), Farto de Oliveira (Fábrica), Ramiro Caladão (Canção da Maré Vazia), Cauto José (Manhã), Negrinho da Fonseca (Balada do Menino Feito), Virgílio Ferreiro (Raúl Vário) (Poema da Esperança-Posse), Saúl Noites (Quadro da Roupa Lavada), Joaquim Apaixonado (Contradição das Horas). A antoloxía foi publicada en papel de embrullo ou de estraza, con 16 páxinas de texto e o formato 15 x 21,5 cm.

O folleto é difícil de atopar e tan difíciles de atopar como o folleto son os nomes destes poetas en calquera historia da literatura portuguesa, porque, como percibiría o lector trátase dunha antoloxía “satírica”. E os satirizados eran os poetas João Cochofel (João Pochofel), Adolfo Casais Monteiro, que fora director da Presença (Adolfo Canais Morteiro), Melo Furtado (antologado como Melro Fartado) abandonou aos poucos a poesía. António de Sousa (António da Lousa), António Ramos de Almeida, un dos introdutores do neo-realismo, como António Vamos a Almeida, Almeida Campinas de Figueiredo, a quen se lle atribuía o prefacio quedaba como Campinas de Figueiredo, Fernando Zamora era, claro, Fernando Namora e non o home das Irmandades do que Galaxia publicou en 1972 Refráns e ditos populares, Farto de Oliveira o, daquela, novísimo poeta Carlos de Oliveira, Ramiro Caladão era o escritor Ramiro Valadão, Cauto José era o presencista Fausto José e Negrinho da Fonseca o presencista disidente Branquinho da Fonseca. Virgílio Ferreiro (Raúl Vario) era o, daquela, neo-realista Vergílio Ferreira e Saúl Noites evidentemente o presencista Saúl Dias. E o último antologado, Joaquim Apaixonado non podía ser outro que Joaquim Namorado.

Se estes eran os poetas e os títulos dos poemas antologados, que é o que “dicían” os poemas. Vexamos as mostras dalgúns destes poemas (de todos os poemas antologados).

***

João Pochofel: Espelho Cruel:

[…]
Nasci é certo
mas também nasceu o meu fiel.
Se como e bebo
e ladro e esgatanho,
tambén fiel o faz.
Hei de tornar ao nada inicial?
mas o meu cão será tambén
o nada que já foi.
Mas que focinho o meu!
Meu Deus que escuridão!
Não sei se sou home, se sou cão.

Adolfo Canais Morteiro: Feira:

Sol a pino
jaleca nova
saia de fita vermelha
cinco tostões p’ra tremoços.
Pum! Pum!
– O sô França não vê
que estamos a dar banho à minhoca.
Mé-mé
Có-có-ró-có
Quá-quá.
[…]
Sol que desce.
Regresso:
cansaço e tristeza.
. . . . . . . . . . . . . . . . . .
Êle vendeu o porco.

Melro Fartado: O Pobre Diabo:

Eu sou Aquêle
que estreou ontem uns sapatos novos
e foi à feira
e bebeu duas canadas de verde dum só trago.
Eu sou o Pobre Diabo,
o que foi saltimbanco
e anda agora a deitar pingos
nas panelas rôtas da cidade onde nasci.
[…]
Eu, o Pobre Diabo,
que tenho uns sapatos novos
e sei tocar ao piano
o tiroliro com um só dedo.

António da Lousa: Poema do Desaparecido:

Sol de Agosto
clarão rico
beijo morto em bôca de criança…
Cão lazarento
consoladinho
a rebolar a pança.
[…]
Sol de agosto
clarão rico
cerveja ao copo.
Casamento de abelhas no pomar de Rita.
. . . . . . . . . . . . . .
O filho do Moleiro
caiu no poço
e nunca mais se viu.

António Vamos a Almeida: Serão:

Piano de cauda.
Menina prendada a torturar
a visita da casa.
Alfredo Marceneiro
Bach
Mozart.
Sopeira na porta
dizendo denguices
ao filho do Tendeiro da esquina
que anda na tropa
e é matulão.
Bocage. Anedotas.
Tremoços. Pevides.
e basto apalpão.
[…]
O gato da casa
de fita ao pescoço
por tras do piano
deixou-se mijar.
Bach. Crochet.
Tremoços. Pevides
Bocage. Mozart.

Campinas de Figueiredo: 2º Poema do 15º Diário:

Através do monóculo olho a estrada.
Figura cansada
que vejo correndo de braços no ar.
E’ ela que corre buscando-me a mim
ou está-me a gosar?
Deitado de bôrco
Tal meu irmão porco
aceno-lhe e digo:
Pastora gentil guardando os teus patos,
olha como eu tremo
e a febre que tenho do calo criado.
[…]
Que eu quero ver longe
e gritar com força
o anseio antigo do homem da terra.
Agarra-te a mim, prende-me em teus braços
e mexe-te e berra.

Fernando Zamora: A Alma sem Conserto:

Alma que eu tenho.
Contradição contínua.
Tubo de ensaio gasto em experiências
falhadas e inúteis.
Anseio vago de não ser,
desejo de criar.
Cornos de cabrito morto
a perfurar estrêlas desenhadas
na caixa de cartão.
Tudo se abre
e se vê e se desdobra.
Excepção cruel
tubo de ensaio rachado;
lume vivo
a ressuscitar coisas mortas.
Digestão mal feita;
arrôto de pescada podre.

Farto de Oliveira: Fábrica:

Mexido. Curto e chato.
Bebe-me o sangue
chupa-me o suor.
Ladrão legal. Filho do lixo:
Estupor!
Cabeça mártir. Quieta.
Pensamento profundo; jantar gordo.
Piolho reles, comilão louco:
Estupor!
Mas afinal para viver
sofreu a mãe,
tal qual a minha,
uma DOR.

Ramiro Caladão: Canção da Maré Vazia:

Serenidade
caixas caladas
quatro gatos que se foram na maré.
Calou-se a campainha do portão
e as coisas são
como camélias cortadas
e desfolhadas
por mÃo [sic] sem carne
num chão de injúrias.
[…]
Ai Deus i ué.
Pegos pregados,
sinos tocados,
mar verde sem escolhos.
Calos que doem
metidos nos sapatos novos
como freirinhas em celas escuras.
Morreram os gatos.
Vasou a maré.

Cauto José: Manhã:

Sardinha d’areia.
Padeiro.
Querem comprar hortaliça?
Tim tim.
Pó, pó, pó, pó.
Areia fina.
– Ó ver a lista.
Correio.
– Adeus ó truta.
–Tire a mão seu atrevido,
«Eu atrás das pulgas
Elas aos saltinhos»,
Tim tim, tim tim.
Ãi ão ão
Miau fu, miau fu.
[…]

Negrinho da Fonseca: Balada do Menino Feito:

Vinho mosto.
Canções novas.
Que é aquilo
debaixo daquêle cedro?
Imitações grosseiras.
Partiu-se a bilha
matou-se a sêde.
As horas passam.
Ranchos
música e amor.
[…]
E o neto do Moleiro que viu tudo,
foi contar para o Adro.
As moças morderam-se de inveja.
os machos olharam-nas chiando.

Virgílio Ferreiro (Raúl Vário): Poema da Esperança-Posse:

Ó minha menina boa,
que estás lá longe na janela bordada
nos sonhos que fiz;
não venhas de avião, não chegues de vapor,
que eu quero esperar-te mais.
[…]
Vem devagar; por nada desta vida
embarques para mim
num comboio da C. P.
que chega sempre à hora.
Linda menina dos meus sonhos belos
vem num carro enfeitado
puxado por bois de retorcidos cornos
e chegarás a tempo.

Saúl Noites: Quadro da Roupa Lavada:

A mulher bate
a roupa ensaboada
contra o penedo duro e aguçado,
e a água mexe e brilha
como sonho de virgem
em lupanar barato.
Solta-se a canção rouca
da bôca torcida
da mulher que lava a roupa da cidade.
Na voragem revolta
das águas quietas
solta-se a forma branca
de qualquer coisa estranha.
As calcinhas da menina do juiz
foram-se na corrente.

Joaquim Apaixonado: Contradição da Horas:

Loucura solta. Tigres na jaula.
Casa caídas. Papeis no ar.
Fonte transbordante junto a um choupo derreado.
– Ó mãi, leva-me ao Circo.
Chuva batida pela ventania
Silvos agudos de máquina ofegante
buscando um mundo novo
de ansiedades velhas.
– O arroz subiu oito tostões em quilo.
Berros de parto, fome de beijos.
Convulsões negras. Sinos a chorar sem fim.
Caiu a rosa rubra que tratei
durante os ócios da Primavera que passou.
Se tivesse quatro paus ia ao cinema.

***

Velaí unha mostra de versos de todos os poemas desta curiosa antoloxía da moderna poesía portuguesa. Polas informacións que deita Petrus en Os Modernistas Portugueses. Escritos Públicos, Proclamações e Manifestos, Porto, Textos Universais, C. E. P. (volume IV: Dos Surrealistas aos Abstractos. Sátiras, Diatribes e Críticas à Arte Moderna), s/d. –, o volume, do que tiramos as reproducións dos poemas, «é da autoría do então estudante António Carlos Leónidas». Semella que nun principio a intención de Leónidas, e doutros académicos de Coimbra, medio do que partiu esta «antologia», era promover nun teatro da cidade (Teatro Sousa Bastos) un recital burlesco «em que os versos que figuram nesta Antologia seriam declamados por uma simpática vendedeira de delícias eróticas que habitava a alta e que para o efeito seria apresentada pelo poeta Diniz, figura popular de Coimbra, versejador fácil, meio ingénuo, meio tonto». Finalmente, e segundo Petrus non se sabe por que, apareceu a policía e impediu o recital. Ao non poder realizar o recital, os responsábeis (sic) decidiron publicar esta antoloxía. Petrus escribe: «A tiragem parece que foi muito grande e o sucesso correspondente àquela, pois en 15 dias venderam-se alguns milhares de exemplares, como nos informa ufano o autor da graça». A antoloxía non era nin partidaria nin partidista, pois metía nun mesmo saco as dúas grandes tendencia literarias enfrontadas naquel ano en Portugal: a Presença (e os seus disidentes, aínda que entre estes falta Adolfo Rocha, máis coñecido como Miguel Torga) e a nova corrente que dominaría o panorama literario portugués até a aparición do surrealismo e outras correntes como o existencialismo, Távola Redonda, etc.: o neo-realismo.

Sobre o autor / a autora

Xesús González Gómez

Xesús González Gómez

(Galiza-Catalunha)

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