Da laje, do meu quintal e da nossa rua

Da laje, do meu quintal e da nossa rua

0 comentários 🕔11:45, 28.Mar 2016

De tanto ficar varrendo a nossa rua engoli muita poeira, muita mesmo, e achei melhor me recolher. Não consigo ficar contemplando o caos de cima da laje o tempo todo, arde os olhos. Então, vim pro meu quintal, é aqui que cuido das palavras e fico de chamego com elas. É bom que se diga: todo chamego tem lá seus dias de choque, mais ainda sim é chamego.

Reguei as folhas, reforcei o varal, religuei os fios, recolei os canos e até o caminho entre a porta de casa e a rua ficou mais livre. Há quem possa dizer que isso aqui não é quintal nem aqui, nem em lugar nenhum, mas a gente é assim, chama corredor estreito de quintal.

É aqui que me sobra um tiquinho de sol de tardezinha, enquanto ouço as fantasias da minha pequena.  É aqui que ouço o movimento da porteira e espio se o lodo da escada não tá perigoso pra subir na laje. Daqui do meu quintal, até a rua fica mais nítida.

Na nossa rua não consigo desligar a esteira da solidão, nem convencer as chatices que não tenho interesse na terra prometida, seja sagrada, seja profana. Não deixei de caminhar pela nossa rua, gosto de ir à esquina jogar bafo e voltar sem figurinha repetida. Gosto de ouvir as lorotas que os verdadeiros me contam, com eles escambo mentiras, mas não vou ficar varrendo poeira, disso o vento e as certezas se encarregam.

Quero ficar no meu quintal, ficar de chamego com as palavras. São elas que me dizem o quanto sou contraditório, sem risco de punição ou desconfiança, são elas que me fazem ser. Só assim encaro nossa rua sem medo, resolvido, sem crise de saber que o fim não será hoje, e o início não foi ontem.

E apesar do risco de escorregar no lodo dos degraus, subo na laje sem receios, sei que na hora certa as asas se abrem, só preciso ser, deixar ser.

No meu quintal cuido das palavras e elas cuidam de mim, não me diluo nos restos de feira. Aos olhos alheios, posso ser casca de banana, laranja podre, ou a garapa que renova a chegada da manhã, tanto faz o que dizem, mas quero continuar sendo.

Vou a nossa rua quando quero, subo na laje se precisar, mas meu quintal é minha passagem, é onde colho os rastros de cada caminho, onde tomo sol de tardezinha, onde ouço as fantasias da minha pequena, onde recebo meus cúmplices companheiros, onde cuido das palavras e é aqui que prefiro ficar.

Michel Yakini é escritor e produtor cultural.

NOTA DA PALAVRA COMUM: a fotografia do autor é de Sonia Bischain.

Sobre o autor / a autora

Michel Yakini

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Michel Yakini é escritor e produtor cultural brasileiro.

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