Entrevista de Japone Arijuane ao escritor angolano José Luís Mendonça

Entrevista de Japone Arijuane ao escritor angolano José Luís Mendonça

0 comentários 🕔11:00, 23.Mai 2016

Por Japone Arijuane (1)

José Luís Mendonça é um escultor de palavras, conhecedor da sua realidade e das outras, sua escrita ultrapassou o tempo e tempestades mantendo a originalidade própria. Este poeta angolano nascido em Golungo-Alto, na província do Cuanza Norte, em 24 de Novembro de 1955, consegue aliar a literatura e o bom jornalismo de forma e conteúdo galanteador. Mendonça é um daqueles angolanos, como diz seu patrício Lopito Feijó, também poeta; que estudou Direito em linhas tortas. Integrou na “novíssima geração”, expressão escolhida para designar o conjunto de jovens que começaram a despertar, no início dos anos 80, para o que é literário, membro da União de Escritores Angolanos desde 1984, hoje para além de ter uma excursão pela UNESCO, na França, dirige uma prestigiada publicação de cultura, “Cultura. Jornal angolano de arte e letras”. É com esta autoridade literária que estivemos a conversar poeticamente dos nossos fantasmas comuns, conheça-os!

JA: A literatura, como definiu Fernando Pessoa, “é a maneira mais agradável de ignorar a vida”. Encarrando o “ignorar” como a forma de fugir do real e inventar um mundo a partir da ficção que possa ser justo à nossa maneira, e olhando para as nossas sociedades (PALOP) hoje, a literatura que produzimos consegue criar esse mundo oposto daquele que vivemos?

JLM: Consegue sempre. Sem fugir do real não há literatura, mas sim mero recorte do real, texto informativo ou jornalístico, ou mero relatório de polícia.

JA: Nietzsche, um filósofo que dispensa descrições, disse que “os leitores extraem dos livros, consoante o seu carácter, a exemplo da abelha ou da aranha que, do suco das flores retiram, uma o mel, a outra o veneno”. O que dizer dos nossos leitores, quem são e se existem, o que tiram dos nossos livros?

JLM: Só se pode falar com propriedade dos leitores, com base num inquérito. Na falta deste, pode-se aferir sobre os leitores, analisando o sistema de ensino, a realidade académica, principalmente na disciplina de Língua Portuguesa e, também, analisando o discurso da nossa imprensa. O primeiro, o sistema de ensino, diz-nos que já pouca juventude lê. O que se escreve nas nossas universidades, salvo raras excepções, é lastimável. Há alunos da universidade que nem sabem copiar certas palavras já escritas nos enunciados ou no quadro da sala de aula. Analisando o segundo, os média, verificamos que não existe o que há em Portugal, por exemplo, que é um conjunto de jornalistas especializados na crítica dos livros, ainda que uma simples resenha ou resumo. A Leya, de Portugal, antes de lançar uma obra, envia uns 50 exemplares para toda a imprensa, para jornalistas que geralmente fazem as tais resenhas ou análises, mesmo que não muito profundas (estas cabem aos académicos). Ora, estes jornalistas estão sempre a ler as obras que saem. Nós não temos este tipo de cidadãos. Somos paupérrimos, neste domínio. Em Angola e Moçambique lê-se muito pouco. Por isso, é difícil dizer que os leitores tiram dos nossos livros. Muitos cidadãos interpelam-me na rua e me cumprimentam “ah, o senhor é o escritor…”, mas é porque me vêm na televisão. Não porque me leram. Uma solução para este mal, é reformatar os nossos professores, obrigando-os a ler, para depois serem capazes de transmitir esse gosto pela leitura aos alunos.

JA: “Há livros escritos para evitar espaços vazios na estante” disse Carlos Drummond de Andrade. José Luís Mendoça enquanto poeta, conhecedor da realidade dos países que falam português, o que é que temos colocado nas nossas estantes?

JLM: Eu, nas minhas estantes tenho tantos livros, de tantos domínios do saber, que poderia abrir o meu escritório para uma biblioteca pública. Porque os livros que tenho em casa e no escritório não estão lá apenas para evitar espaços vazios. Por isso é que nunca empresto livros. Estou sempre a precisar de os ler, ainda que sejam rever certas passagens quando produzo ensaios, ou por mera saudade de um livro.

JA: “Subsaarianos somos/sujeitos subentendidos/subespécies do submundo/subalimentados somos surtos de subepidemias/sumariamente submortos/do subdólar somos/subdesenvolvidos assuntos de um sul subserviente”. Falemos da poesia, da sua poesia… acha que os angolanos entendem o seu lirismo, o seu amor a terra, o seu amor à mulher angolana e dessa África que exercemos como uma tarefa árdua?

JLM: Os que lêm e relêm as minhas obras, entendem certamente. Um poema, dada a sua densidade, deve ser lido várias vezes, até dele se extrair a luz íntima. Mas, como o disse atrás, somos pouco lidos, até pelos estudantes, é uma pena.

JA: Uma vez, em Maputo, disse que os jovens moçambicanos não estavam a entender a poesia de José Craveirinha, o que suponho que se referia ao nativismo, a questão de exaltar a terra. Os novos escritores angolanos entendem seus antecessores?

JLM: O que eu quis dizer é que os jovens moçambicanos não lêm José Craveirinha. E, se não lêm, não entendem nada. Isso nota-se na poesia que escrevem. O mesmo se passa em Angola. Quase nenhum jovem escritor analisa profundamente a poesia de Agostinho Neto, ou de Arlindo Barbeitos. Em resultado dessa lacuna, o que escrevem, em poesia, é oco como um boneco de palha. Não tem vida africana. É só palavras e quase todas iguais, tudo muito abstracto. José Craveirinha, Agostinho Neto e Arlindo Barbeitos, ou Mário António ensinaram-nos que a poesia deve expressar o ritmo emoção do homem africano e da terra africana. Aliás, os poetas portugueses, belgas, suecos e americanos ou russos, fazem isso mesmo. Os grandes poetas trazem para a poesia a alma dos seus povos, mas eu noto que há alguns poetas da nova geração, tanto em Angola como em Moçambique a fazer um esforço de telurização da poesia. É digno de nota esse esforço. Por exemplo, em Angola, o Kardo Bestilo, procura esse caminho do retorno às origens. Precisam é de ler muito mais. Falta-lhes o arcaboiço da Cultura Literária e da Cultura Geral. Camões sabia tanto de Geografia e de História e de Filosofia e Religiões, que era uma coisa espantosa.

JA: Como é que estabelece o diálogo entre as gerações na literatura angolana, se é que existe esse diálogo?

JLM: O diálogo é exíguo, porque as jovens gerações furtam-se a esse diálogo. Furtam-se como? Não indo beber às fontes dos precursores. E como é que não vão? Vou dar um exemplo. Se um jovem escritor moçambicano quiser estabelecer um diálogo com José Craveirinha, como é que vai realizar esse diálogo? Craveirinha já morreu. Por isso, a única forma de diálogo possível é o jovem adquirir a obra de Craveirinha e FALAR com Craveirinha, através de Karingana Wa Karingana, ou Xigubo. O mesmo se passa com os escritores vivos. Um escritor, como eu, que trabalha arduamente, não pode ficar o dia inteiro a receber jovens escritores para falar com eles. Os jovens escritores devem falar comigo, lendo os meus livros, ou indo às palestras que profiro na União dos Escritores Angolanos ou noutros fóruns. Eventualmente, recebo jovens na minha casa ou no gabinete, mas o número dos que me vêm procurar é enorme e já não tenho tempo para analisar as suas obras. É materialmente impossível. E a maior decepção que colho é que as recomendações que dou aos jovens para ler certas obras em profundidade não são acatadas. Os jovens continuam a vir com a mesma obra incipiente meio corrigida, em vez de ler bastante…

JA: Francisco Noa, um professor conhecido e reconhecido nas lides literárias, uma vez defendeu a ideia segundo a qual a poesia poderia ser terapêutica. Olhando para os fantasmas, os males que os nossos países atravessem, acha que a poesia, a literatura no geral, é parte da solução?

JLM: Como será parte da solução, se não somos lidos pela população? Actualmente, os nossos livros são editados em tiragens de 400 ou mil exemplares. Para um país de 24 milhões de habitantes, quem nos lê? E a venda desses livros demora bastante. Por isso tenho aconselhado os jovens escritores a superarem os grandes mestres, antes de lançarem obra no mercado, porque o mercado, a nível mundial, está saturadíssimo. Agora, a Literatura pode ser parte da solução no sentido em que cultiva o espírito e um homem culto é mais democrata do que um homem sem conhecimento livresco. Para isso, é preciso dar-lhes a beber palavras dos livros. Poesia ou prosa.

JA: Há sempre um livro que mudou as nossas vidas, um livro que nos levou a querer escrever, ou mesmo um livro que gostaríamos que fôssemos nós a escrever, fale do seu.

JLM: O livro que mudou a minha vida, que eu gostaria de ter escrito é a Bíblia Sagrada, não pelo seu conteúdo divino, mas pela sua beleza literária, a sua arrumação formal, o seu imaginário criador. Li-a aos nove anos e fiquei deslumbrado. Depois li outras obras, como Os Nus e os Mortos, de Norman Mailler, Karingana Wa Karingana, de Craveirinha, Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez, e tantos outros, que me marcaram profundamente. Há um livro em particular, que é Zorba, o Grego, que me deixou uma marca tão profunda que um dia quero morrer de pé, a ver o mar de uma janela, como morreu o marinheiro Zorba.

JA: Olhando para a literatura moçambicana, que bem a conhece, em particular a dos jovens que começam a mostrar sinais de um provável compromisso literário, alguns destes publicados no jornal que dirige, que dizer destes jovens? E como tem sido o movimento similar em Angola?

JLM: A literatura dos jovens moçambicanos é muito entusiasta, tem imagens fortes e expressa a intenção de inovar a poesia do vosso país. Da prosa conheço ainda pouco. O conselho que vos dou é o mesmo de sempre. Leiam e releiam Luís Bernardo Honwana, Craveirinha, Mia Couto, leiam e releiam os grandes, não uma, mas cem vezes, até nunca se cansarem. Depois leiam outras coisas, é fundamental terem uma Cultura geral e terem Competência Linguística: esta, só se adquire lendo muito.

JA: Angola vive um momento que alguns classificam como o fim de uma era política, refiro-me a questões ligadas com democracia, o exercício da liberdade de impressa, objectivamente dos tão propalados “jovens activistas angolanos”. Que análise faz desse processo?

JLM: Ainda é cedo para uma análise histórica, que é o meu domínio preferido, ainda há que esperar que a poeira assente e se veja o resultado desse activismo político, na sua dialéctica com a força dos poderes estabelecidos e a dinâmica do consumismo luandense e internacional e a crise que o caracteriza. A modalidade do poder das independências africanas, no geral, é muito sui generis, muito peculiar, muito controversa. A democracia na Europa só surgiu mil anos depois de se erguerem as primeiras universidades. Em Angola, a Universidade surgiu no final dos anos 70. Na tão propalada maior democracia do mundo (os EUA), ainda se assassinava Martin Luther King em plena década de 60. E hoje, ainda se mata um negro nos EUA, por dá cá aquela palha. Quer dizer, a minha análise da coisa política advém da análise do mundo, na sua globalidade. Por exemplo, mesmo que eu não concorde com o sistema vigente em Angola, se as coisas mudarem bruscamente, há, no nosso seio, sementes germinantes de outras situações que podem ser mais amargas do que o que se vive hoje. Sementes com casca de tribalismo, racismo, revanchismo e outros ismos perigosos. Por isso, é que falta tempo para se analisar o que se está a passar em Angola e não só: há elementos guardados na planilha do processo histórico que muita gente não descortina, no caso, “os jovens activistas”. Mas, de momento, uma coisa eu recomendo ao poder: que dê espaço a esses jovens para produzirem, não só um projecto de revolta político-social, mas que se lhes dê a oportunidade de trabalharem para uma mudança social a nível local, comunitário, que eles possam provar que se pode fazer algo de plausível pelas comunidades. Não sei se isto é possível, é apenas uma ideia, eu próprio gostaria e tenho feito certo trabalho invisível no bairro onde moro, por exemplo, já plantei seis árvores no espaço de um ano, é um largo absolutamente seco, sem sombra, então eu plantei seis acácias e mais uma moringa, tenho tratado das árvores, elas estão a crescer, criei um projecto de plantação de mil árvores em Luanda, o projecto chama-se Uma Criança, Uma Árvore, mas hoje em dia os projectos que não contêm milhões de dólares mão são sequer ouvidos, e até as crianças estão apegadas aos telefones android, que falar de árvore a um jovem luandense é aparecer como um “gajo maluco”, as pessoas querem é ver um cidadão com dinheiro e carro enorme, é uma maka que estamos os com ela, por isso é que os “jovens activistas” também estão isolados, a situação não é assim tão linear como a analisa a imprensa internacional. Há outras nuances do problema africano. Mas é preciso ouvir os intelectuais africanos, no país e na diáspora, e não ignorá-los ou conotá-los como “inimigos”. Nós somos parte da solução pacífica.

JA: Que pergunta gostaria de responder que não coloquei?

JLM: Porque é que desaparecem tantas crianças e jovens nos nossos países e nunca mais as vemos? Para onde as levam e quem as leva? Porque é que a Polícia não se pronuncia sobre esses desaparecimentos?

JA: Disso eu tenho quase certeza que nem a polícia terá respostas. Aqui nosso em Moçambique, a polícia diz sempre estar a trabalhar, desde a morte de Eduardo Mondlane, primeiro presidente da Frelimo, passando pelo Samora Machel, primeiro Presidente da República, até ao constitucionalista franco-moçambicano, Gilles Cistac, a polícia está a trabalhar, olha só como a nossa polícia trabalha. Até parece poético!

NOTA
(1) Japone Arijuane é Poeta, Jornalista moçambicano, ensaísta, autor do livro “Dentro da Pedra ou metamorfose do silêncio”, distinguido melhor livro lançado em Moçambique em 2014, ano da sua edição, pelo CEMD (Circulo de Escritores Moçambicanos na Diáspora) com sede em Lisboa, é membro fundador do Movimento Literário KUPHALUXA, dirigiu e editou a revista Literatas.

NOTA DA PALAVRA COMUM: a fotografia de José Luís Mendonça provém de Buala.org.

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