Entrevista ao escritor português Pedro Eiras

Entrevista ao escritor português Pedro Eiras

0 comentários 🕔11:15, 09.Jun 2016

- Palavra Comum: Que é para ti a literatura?

- Pedro Eiras: Um lugar de vozes extremas. A literatura fascina-me quando leva ao limite uma regra que ela própria inventa. Não existe apenas um jogo, existem muitos jogos de linguagem, a escrita da dor, da fúria, de uma feroz alegria – e eu apenas peço que essa escrita seja o mais densa possível.

- Palavra Comum: Como entendes -e practicas- o processo de criação literária?

- Pedro Eiras: Sinceramente, não sei bem. O essencial nesse processo é muito misterioso: surge-me uma ideia, a intuição de um ritmo, o desejo de um texto que ainda não existe. De onde vem esse desejo – ignoro. Sei que surge, normalmente, quando estou desocupado; e é raro estar desocupado… Claro que, depois, essa vontade de escrever pode exigir muitas leituras, durante meses ou anos. Escrever, em si, é mais rápido; às vezes, extremamente rápido. E corrigir volta a ser um trabalho consciente, lúcido, lento, lento, muito, muitíssimo lento.

- Palavra Comum: Qual consideras que é -ou deveria ser- a relação entre as artes entre si (literatura, artes plásticas, fotografia, etc.)? Tens experiências com este tipo de vínculos?

- Pedro Eiras: A relação deveria ser imensa – e também entre a literatura e a filosofia, a psicologia, a antropologia, a história. E ainda a física quântica, o xadrez, a cosmologia, a culinária, o xamanismo, tudo… Quanto a mim, tenho muito menos trabalho de diálogo com as outras artes do que gostaria, e espero um dia desenvolvê-lo. Mas o meu Bach é uma tentativa de diálogo com a música, com a impossibilidade de escrever sobre música, sobre – por exemplo – a Paixão segundo Mateus, que estou a ouvir neste instante. Como escrever sobre isto que ouço, sobre esta partitura sublime, tão comovente, luminosa e enigmática? Escrever é, por vezes, descobrir que a escrita é incapaz. E então, nesse instante, aceitar essa falha da linguagem.

- Palavra Comum: Quais são os teus referentes criativos (num sentido amplo)?

- Pedro Eiras: Tantos! Pessoa dizia que nada influenciou a escrita de Sá-Carneiro, mas que ele, Pessoa, era influenciado por tudo o que lia. Nesse sentido, acabo por ser mais pessoano do que sá-carneiriano… E às vezes o que me inspira não é um texto anterior, mas uma obra musical, por exemplo. A minha peça de teatro Um Forte Cheiro a Maçã nasce de um ritmo em Stravinsky. Uma Carta a Cassandra, de notícias de jornal. E Cartas Reencontradas de Fernando Pessoa a Mário de Sá-Carneiro, das cartas do próprio Sá-Carneiro, da vontade de lhe responder.

- Palavra Comum: Que caminhos (estéticos, de comunicação das obras com o público, etc.) estimas interessantes para a criação (e os criadores) artística e cultural hoje?

- Pedro Eiras: Interesso-me pelo uso do computador e da internet. O facto de o texto poder permanecer maleável, aleatório, “surfável” interpela-me (mas a disciplina de ler o livro página a página também). Seja como for, pela minha parte, ainda tenho muito que descobrir a esse nível…

- Palavra Comum: Qual é o estado da literatura portuguesa nestes momentos, do teu ponto de vista?

- Pedro Eiras: Muito plural, e nesse sentido muito saudável. Agrada-me que haja muitas linguagens diferentes no mesmo tempo e no mesmo lugar – e mesmo tantos entendimentos diferentes da literatura. Seria preciso, acho eu, multiplicá-los ainda mais.

- Palavra Comum: Que vínculos achas entre Arte(s) e Vida (ou a Realidade, em termos mais amplos)?

- Pedro Eiras: A arte multiplica a realidade. A realidade não esgota a arte. A arte provoca insónias à realidade, dores de cabeça, a inquietação de haver mais mundo, um tenso, intenso sobressalto de temor e tremor.

- Palavra Comum: Que conheces e opinas sobre Galiza e as suas -existentes e/ou potenciais- relações com a Lusofonia? Para onde achas que poderiam caminhar?

- Pedro Eiras: Sou desde sempre fascinado pela Galiza: no meu primeiro romance, há muito tempo, existe mesmo uma peregrinação a Santiago de Compostela, em pleno século XII. E recentemente fiz um périplo pela Galiza – Betanços, Santiago, Ponte-Vedra – a convite do Instituto Camões, falando de Bach. O meu excelente anfitrião, João Ribeirete, levou-me ao encontro de muitos leitores, e dialogámos numa deliciosa fusão de português e galego… Que haja mais périplos assim: eis um caminho, sem dúvida, para a relação com a lusofonia.

- Palavra Comum: Que projectos tens e quais gostarias chegar a desenvolver?

- Pedro Eiras: O diálogo com as outras artes, decerto. Mas como? Preciso de ficar desocupado, rapidamente, para as ideias surgirem…

Sobre o autor / a autora

Ramiro Torres

Ramiro Torres

(Galiza) Ramiro Torres nasceu na Corunha no 1973 e estudou Graduado Social. Tem publicado poemas na revista 'Poseidónia' e 'Agália', assim como no blogues 'A fábrica' e 'A fábrica da preguiça'. Inaugurou as edições do Grupo Surrealista Galego com o seu livro "Esplendor Arcano".

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