Microrrizo

0 comentários 🕔12:30, 14.Jul 2016

O casaco retornara ao roupeiro com o capuz recheado de memórias.
Como cada tarde, ela percorreu a casa. Alheou-se, enxertando a memória nas fibras da prenda, com o ar morto na garganta, e, no tremeluzir da esperança, achegou-se, odiou, distanciou-se, abriu a caixa cor violeta para contemplar as fotografias doutrora. Retornou à emoção e acariciou o fantasma do cabide, intensamente azul, que abrigava o volume da incógnita.

Tinha parado o mundo no momento preciso de florir. O golpe da porta criara vinte anos de ausência, de vertigem na vulva, de náusea na alma que rangia, seca, descarnada, murcha. A lembrança explodia em azul escuro, para deixá-la amputada de afeições.
Apenas o casaco que ele vestira regressava diariamente para reavivar os sentidos e a dor.

Uma luz acendeu-se no cabide.
A luminescência emergia do interior da teia. Retomado, o corpo ausente parecia ler o mesmo livro, na mesma posição de vinte anos atrás. Erguia os olhos, tímido, como a namorada se esquecera de lembrá-lo.

Na agonia do instante, escorregou o casaco. Do corpo, magnificamente conservado, emergiram filamentos que avançaram, a procurar nela o som da subsistência.

A simbiose deixou cheiro a humidade na raiz morna das ruínas.

Sobre o autor / a autora

Iolanda R. Aldrei

Iolanda R. Aldrei

(Galiza)

Sem comentários

Ainda não há comentários

Ninguém deixou um comentário para este post ainda!

ESCREVA UM COMENTÁRIO SOBRE ESTE POST

Escrever um comentário 

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *