Entrevista e obra do poeta português residente em Bruxelas <em>Yeos</em>

Entrevista e obra do poeta português residente em Bruxelas Yeos

0 comentários 🕔11:30, 05.Set 2016

Agradecemos a Yeos, poeta português residente em Bruxelas, ter-se achegado à Palavra Comum para dar a conhecer a sua obra. A seguir, publicamos esta entrevista realizada com ele e vários poemas da sua autoria. Bem-vindo!

ENTREVISTA

- Palavra Comum: Que é para você a literatura?

- Yeos: A resposta é bem mais complexa que a pergunta mas vou tentar dizer o máximo com um mínimo de palavras… Para mim a literatura é bem mais do que simples entretenimento, ou simples constatação niilista da complexidade humana… Porque não considerá-la como um instrumento de predilecção para evoluir expiritualmente? E eis por que sou e continuarei a ser um grande apreciador de literatura mística, poesia incluída. Como alguém disse uma vez «a poesia é a linguagem dos deuses». Ou ainda, utilizando uma outra imagem mais metafísica-filosófica do que mística, a poesia « é uma belíssima viagem em direcção ao Absoluto». Viagem essa que vale a pena, quer cheguemos ao nosso destino quer não – «tudo vale a pena quando a alma não é pequena», como diria o nosso prezado e incomparável F. Pessoa…

- Palavra Comum: Como entende (e leva a cabo, no seu caso) o processo de criação literária (e cultural)?

- Yeos: Na Índia há um termo -Sadhana- relacionado com o misticismo hinduísta e cujo significado é: sessão de devoção, exercício espiritual, momento sagrado. No meu caso o processo de criação literária assemelha-se a um sadhana, em suma, a vertente cultural é menos importante que o processo criativo… A cultura é um fenómeno de massas que não poderia existir, ser, sem o fenómeno criativo, daí a primazia deste último sobre a cultura.

- Palavra Comum: Qual considera que é a relação -ou qual deveria ser- entre a literatura e as diversas artes (música, artes plásticas, ilustração, audiovisual, etc.)? Como é a sua experiência, neste sentido?

- Yeos: Difícil responder cabalmente, dada a minha atitude (que será certamente considerada fora-de-moda) e uma certa intransigência que dela resulta.

Creio que a irrupção da tecnologia -sobretudo o audio-visual- na história da humanidade influencia a evolução da arte mais negativamente que positivamente… Sou pela colaboração, ou até mesmo pela complementaridade entre diferentes artes mas sem a intervenção de tecnologia -o que não me impede de escrever os meus poemas num computador (riso…) Nunca poderia estar de acordo, por exemplo, com o que li numa entrevista dum «camarada da pena» há muitos anos atrás: «o poeta do futuro, com um aparelho fotográfico na mão…». Ah não, isto para mim é inconcebível, a poesia deve e deverá continuar a ser exprimida através da escrita…

- Palavra Comum: Que referentes tem, num sentido amplo?

- Yeos: Os meus referentes são bastante diversificados visto não se limitarem á literatura. Esoterismo, Oriente, a Natureza, certas ciências, o que se passa no Mundo, outras artes e em termos «estritamente literários» grandes poetas portugueses tais que Ramos Rosa, Pessoa, Al Berto, Carlos Oliveira, Sophia de Mello Breyner mas também poetas de outras origens: Rabindranah Tagore, Rumi, Hafez, a poesia antiga chinesa, poetas anglófonos contemporâneos, mas também clássicos como Shakespeare, Lord Byron e outros…

- Palavra Comum: Que projectos tem e quais gostaria chegar a desenvolver?

- Yeos: Em termos de Poesia gostaria de publicar mais frequentemente através de revistas, porque não, visto a publicação sob a forma de livro ser tão… complicada, digamos. Gostaria igualmente de criar uma secção especializada em poesia místico-religiosa. Para além disto, tenho andado a” magicar” -é caso para o dizer- na publicação de textos esotéricos em prosa!

*

Queda & Ascensão

I

…a pouco e pouco ou num ápice
a aranha da memória e do medo
tece a gigantesca teia do apego:
chagas, gritos, espectros
o que penso que fui, sou
ou virei-a-ser,
tudo está corrompido
e nesses instantes de queda
– de ausência de âmago –
espectros, gritos, chagas,
sinto-os aqui e agora-
como um punho cerrado
em torno deste coração
propenso à danação…

II

Que tudo cesse!
Que da flor apenas o etéreo odor
aaaaaaaaaa permaneça
ou do vento o inebriante movimento.
Que o apelo da Nascente prevaleça
e que a pouco e pouco
tudo se desvaneça…
que tudo cesse.

O Mal? O Mal “é una cosa mentale”
e a mesma corda
que ainda há momentos ameaçava de m’enforcar
agora trepo por ela acima…
Volto a quando e onde
tudo ainda estava por inventar
e a pouco e pouco ou num ápice
o mundo torna-se no que sempre
fui, sou ou serei:
da flor o odor e do vento
o inebriante movimento…

*

para não morrer dessa morte

escrevo
como um recém-nascido grita
como uma ferida recém aberta sangra

escrevo
para não morrer dessa morte
que nos mata a todos
todos os dias um pouco mais…

escrevo
para morrer
para morrer
de uma outra morte

*

ao deus-dará

no meio do mar
longe que chegue
do aconchego da areia
da terra ambígua
no ventre da vaga recolhido
abro-me ao teu apelo
deixo-me ir

ao deus-dará

*

Como Uma Selva Em Fogo

O que não podemos descrever
só os olhos do coração –
por enquanto intacto como uma
gota de orvalho o pode ver.

Brotando das profundezas do azul
o arco-íris canta a boa-nova:
– O fruto do olhar enfim maduro
está pronto a ser colhido… entretanto

no mesmo espaço mas noutro tempo
pelo som das cintilantes ondas
transportada, misteriosa irrompe
a flor do amor

e mesmo se um raio reduzir a cinzas
os castelos antes construídos
na areia do tempo, o Amor alastrará
como uma selva em fogo…

*

Elogio do Dilaceramento

Esta idade não é
não pode ser o tempo da felicidade.
Apesar de ferido de morte, o animal
recusa-se a perecer.
Exacerbam-se o desejo e a posse. Vivo
entre formas tenebrosas e densas
alérgicas à luz. Permanentemente insatisfeito
perco-me nas coisas – just enough
is never enough.
À lentidão e meio-termo da penumbra
prefiro o sol do meio-dia
as promessas das trevas e
o ritmo endiabrado do efémero.
Os amigos são raros
as esquinas sucedem-se
e tudo isto ao mesmo tempo
atemoriza-me e atrai-me…
de sul norte este e oeste
divergem os caminhos que me afastam
do meu secreto centro.
Esses caminhos são fantasmas do passado.
Labirintos. Ajustes de contas sempre adiados.
O que fui e não consigo deixar de ser
noites brancas e dias negros
cada ínfimo instante do mundo…
tento esquecer.
Tento esquecer e aproximar-me do centro
mas a memória trai-me:
– continuo a ignorar
quem ou o queaaa se reflecte
no espelho…

Sobre o autor / a autora

Ramiro Torres

Ramiro Torres

(Galiza) Ramiro Torres nasceu na Corunha no 1973 e estudou Graduado Social. Tem publicado poemas na revista 'Poseidónia' e 'Agália', assim como no blogues 'A fábrica' e 'A fábrica da preguiça'. Inaugurou as edições do Grupo Surrealista Galego com o seu livro "Esplendor Arcano".

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