Entrevista à escritora galega Concha Rousia e poemas de <em>Se os Carvalhos Falassem</em>

Entrevista à escritora galega Concha Rousia e poemas de Se os Carvalhos Falassem

1 comentário 🕔12:30, 19.Set 2016

Desde a Palavra Comum agradecemos à escritora galega Concha Rousia a disposição para ser entrevistada aqui, assim como o envio de vários poemas do seu recente livro de poemas “Se os Carvalhos Falassem“, publicado na Através Editora em 2016. Aqui publicamos a entrevista, e a seguir os poemas desta obra:

- Palavra Comum: Que é para ti a poesia/literatura?

- Concha Rousia: Concebo a poesia como uma eira, um espaço no tempo, um espaço fora do próprio espaço físico, onde o Espírito de um determinado coletivo, um povo, respira. Poesia é esse lugar de sanação coletiva, é a escola livre de limitações do pensamento racional. A poesia acontece quando apagamos o ruído da racionalidade que tudo quer classificar em função das medidas do pensamento. A poesia se cultiva não na parte dirigida pela nossa dimensão cognitiva; se cultiva desde o nossa mente emocional. Já a Literatura é o templo, a fortaleça, com os Santinhos que vamos conseguindo consagrar para a supervivência; constitui a nossa resistência como seres culturais, que é o mesmo que dizer como seres humanos, pois a cultura é o que nos diferencia do resto de nossos irmãos animais. Sem poesia, sem criar, seríamos apenas consumidores de produtos artístico. Não sempre arte e cultura caminham juntas. Arte é um produto, a obra de uma pessoa artista; mas cultura é aquele produto que o coletivo escolhe como representação artística de si, de todos. Muitos produtos artísticos fantásticos passam desapercebidos pelo coletivo, não conectando com o coletivo, passando sem serem cultura no povo do criador para depois talvez se converterem em elementos maravilhosos da cultura universal da Humanidade. Pensemos em Van Gogh, por exemplo, ou na nossa Rosalia…

Não todas as pessoas escrevem poesia, mas todas podemos ler, todas podemos comunicar nessa dimensão. Por exemplo, um recital poético tem a poesia que se lê, tem a poesia do recitar, e tem a poesia do ouvir, do olhar, do comunicar estar naquela mesma longitude de onda, por assim dizer. Poesia transcende o poema, transcende o que cabe na palavra, poesia é mostrar o que já foi visto antes mas revela-se agora como se os olhos fossem sempre novos… É por isso que poesia se reinventa sempre, como um jeito de andar da nossa alma.

- Palavra Comum: Como levas a cabo, no teu caso, o processo de criação literária?

- Concha Rousia: A minha escrita é intuitiva, não é muito programada. Para mim escrever é ouvir mais do que um falar. Eu ponho o ouvido, quase sempre orientado para o interior, mas acho que é para dentro e para o exterior que coloco, simultaneamente, e trato de deixar sair pelos dedos aquilo que se move na minha mente emocional. Procuro escrever diariamente, como quem respira, isso quer dizer que procuro, sem que seja ativamente, aquele silêncio para ouvir as cousas que andem por aí perto dessa minha dimensão emocional. Como se descrevesse de jeito informal aquilo que vem mexer comigo na vida. Por vezes olhar o fogo faz com que essa imagem se misture com uma lembrança e nasçam aí emoções suscetíveis de serem captadas em fotografias poéticas, sejam palavras ou obras de criação de outra índole, tudo é poesia. Eu escrevo em qualquer lugar e forma, papel, computador, telemóvel, escrevo em qualquer superfície que suporte letras e esteja ao meu alcance… Por vezes acordo no meio da noite com um sentimento poético, uma imagem de um sonho e tenho que me erguer para escrevê-lo, se o não escrever não vou recordar, e mesmo se lembro as palavras não sou capaz de fazer nada poético com elas. O momento poético é emocional, ou então nos poríamos diante do papel e escrever-íamos sempre que o desejássemos, e não acontece desse jeito.

- Palavra Comum: Qual consideras que é -ou deveria ser- a relação entre a literatura e outras artes (plásticas, música, audiovisual, fotografia, etc.)? E entre Arte(s) e Vida?

- Concha Rousia: Pois não me tenho parado a pensar nisso. Acho que as pessoas estão mais acostumadas a ver arte pendurada nos muros como paisagem, estamos acostumados a viver com as pinturas, mas acho que a maior parte das pessoas vivem sem contacto com a poesia, muitas pessoas nunca têm estado num recital, nunca leram um livro de poemas… Eu gosto muito de misturar esses espaços; de fato alguns poemas meus já têm feito parte de uma exposição junto com as pinturas de Helena Badia, artista plástica natural de Pelotas, em Rio Grande do Sul, no Brasil. Pintura e poesia num diálogo singular. Pares feitos de uma pintura é um poema; ficou algo muito lindo; obras irmanadas. Gostaria de repetir essa experiência aqui na Galiza incluindo a leitura dos poemas à medida que as pessoas avançam pela sala o dia da inauguração, e talvez outros dias. Temos que aproximar mais a poesia das pessoas; educar a sensibilidade. Há pessoas que dedicam a energia que podiam dedicar à poesia a coisas como o futebol ou a religião, só porque apareceram em seu caminho e os cativou primeiro… Se o futebol foi capaz de seduzir o gosto das pessoas como não vai poder fazer isso a poesia recitada. Haveria que estudar isso bem. Depois temos a música, as canções que levam quase sempre uma boa poesia junto da música. Aí temos um bom relacionamento. Cabe tudo, vídeo-poemas. Fotografia incorporando poesia… o convívio das artes, pelas ruas e as salas da cidades, é a minha proposta.

- Palavra Comum: Trabalhas como psicoterapeuta. Existem, do teu ponto de vista, vínculos com a poesia? Nesse caso, como se combinam para ti essas duas vertentes?

- Concha Rousia: Para mim a poesia é uma forma de auto-terapia; se a psicoterapia é uma conversa entre a psicoterapeuta e o usuário da terapia, a poesia é minha conversa com o universo, com a vida… Nessa conversa se reorganiza o ser, a mente, tudo. Eu sou psicoterapeuta narrativa, entre outras aproximações teóricas. A minha atenção se dirige grandemente a possíveis falhos na narração que fazemos das nossas vidas; de quem somos; de quem somos realmente. Os humanos temos tendência a deixar fora das histórias que nos contamos sobre nós mesmos aqueles aspetos que contradizem a ideia principal do discurso dominante que temos sobre nós. Quer dizer que se eu me defino principalmente com ‘tímida’, todas as minhas intervenções no mundo social nas que não fui tímida, quase nem são registadas porque o discurso dominante sobre mim não lhes outorga nenhum protagonismo. Chegamos a esquecer tudo do que somos capazes, e continuamos narrando-nos sempre com as mesmas histórias limitantes, mas que confirmam a nossa identidade.. Isto é um pouco mais complexo do que isso, mas em essência é isso, e tem muito de criativo. Viver é um ato criativo, mas podemos cultivar mais conscientemente essa criatividade. Eu acho que o mundo moderno está perdendo essa faceta que as culturas tradicionais mantinham, com a música, a dança, a regueifa, ou o cantar do desafio… A vida não pode ser tão materialista, devemos alimentar o espírito, o nosso individual e o espírito do coletivo, aí a poesia é o pão…

- Palavra Comum: Que caminhos (estéticos, de comunicação das obras com a sociedade, etc.) estimas interessantes para a criação literária hoje?

- Concha Rousia: Acho que se devem criar oportunidades de encontro entre a poesia e as pessoas, os programas de divulgação cultural que fomentam a criatividade devem ser desenvolvidos, levados a sério. Programas de rádio, televisão, espaços nas bibliotecas, nas livrarias, etc., que abram esse espaço, que ofereçam a oportunidade do encontro. Talvez nos centros escolares, tanto de primária quanto de secundária, poderiam fazer um esforço nas horas de literatura por aproximar os escritores e escritoras locais das e dos estudantes. Humanizar a criatividade, pôr rostos a arte. Oferecer modelos. Eu estaria disposta a ir uma vez por mês, por exemplo, a falar de poesia, a ler poesia, a compor poesia com os estudantes que o desejarem. O contacto com a poesia no livro e na pessoa da poeta.

Também acho que fomentando a reflexão, a mirada reflexiva interior e sobre o mundo, seria bom. Aprender a ver, a mirar com mimo, sem julgar. Acho que o que mais aprendemos na vida é a julgar. A arte, a estética da arte é mais acolhedora.

- Palavra Comum: Que perspetiva tens sobre a língua e cultura galegas e a sua vinculação com a Lusofonia? Que achas das relações existentes e para onde consideras que se devem/podem dirigir?

- Concha Rousia: Sobre a língua e a cultura galegas tenho sensação de fragilidade. O que me resulta incómodo, quase de dor física. Que uma cultura tão forte e sã como a nossa, e uma língua antiga, uma língua de poesia, se vejam ajoelhadas ante o castelhano, é para além de absurdo, uma tristeza. A nossa língua é grande, livre pelos continentes do mundo, e enfraquecida no seu lugar de nascença. Esta fragilidade é obra do esmagamento histórico, não é um acontecimento pelo passo do tempo, é fruto do resultado da violência a que fomos, e somos de forma mais ou menos perceptível, submetidos. Nem sabemos o quanto. Os vínculos com a Lusofonia nos darão a energia suficiente, nos darão o espaço para estender essas nossas frágeis (fragilizadas) asas e voar. Olha só, eu escrevo isto e sai publicado na Net; na Espanha talvez ninguém me leia, mas me lerão em Portugal, no Brasil, e daí eu tenho mais do que motivos para escrever.

Considero que as Políticas públicas deviam ir encaminhadas a abrir novos caminhos, e alargar os caminhos existentes, pelos que a nossa literatura poder andar, em vez de dedicar-se a criar falsas estradinhas pela nossa terra adiante para acalmar as consciências e perpetuar o minifundismo literário. Temos muita terra em que plantar os nossos versos, afinal o nosso jeito galego de ser é sair ao mundo, navegar, ir… A nossa Língua tem muito futuro, tem todo o futuro, mas pouca vida na própria terra em que nasceu, se continuar sendo tratada como está sendo tratada. “A Minha Ortografia é uma Emigrante Retornada, como eu” é um verso meu no livro, a nossa ortografia deveria ser melhor tratada, não vem pedir nada que não lhe pertença.

- Palavra Comum: Que projetos tens e quais gostarias chegar a desenvolver? Fala-nos, mais em concreto, do teu novo livro, Se os Carvalhos Falassem, publicado por Através…

- Concha Rousia: Queroconcha-rousia-e-se-os-carvalhos-falassem que o meu próximo livro seja de prosa poética, ou de ‘ensaio poético’, ainda não tem título definitivo. Alguns dos textos que incluirá já tenho prontos, outros ainda estão sendo escritos; projeto para publicar no próximo ano. O seguinte projeto é um livro de textos relacionados com a vida num ginásio. Incluirá prosa poética, poesia, frases, contos… uma mistura de narrativas… e quem sabe uma canção… Noutro futuro quero escrever um segundo livro de Nântia, e ainda um terceiro… quero que seja uma trilogia, mas não tenho pressa. Também quero publicar em papel o meu primeiro romance “As Sete Fontes”, que foi publicado como e-book em 2005 pelo Editor Victor Domingos da Editora Arcos Online; queria também publicar outro romance meu, ganhador do Certame Literário Feminista do Condado em 2006, intitulado A Língua de Joana C. Acho que é tudo por hoje… E ainda queria pelo meio desses projetos todos que mencionei, escrever junto com poetas de outros países da Lusofonia, com poetas do Brasil, e publicar livros galego-brasileiros. E também queria aprender a pintar.

Se os Carvalhos Falassem é um livro que recolhe os poemas com os que me fez poeta. As raízes da minha poesia estão todas neste livro. Tem uma história: quando escrevi o meu primeiro romance, As Sete Fontes, eu fiquei muito feliz; tinha a sensação de ter-lhe dado sentido a muitas cousas. Então tentei publicá-lo; e foi tão difícil… Um livro tão galego como era esse meu romance e não parecia haver sítio para ele na Galiza. As Sete Fontes foi um filho negado; por dous motivos; o primeiro a grafia em que estava escrito, e a segunda porque fala da cultura tradicional, do nosso mundo indígena do que a nossa sociedade se quer esquecer. Quando descobri que não havia lugar para o meu romance na minha própria terra, e que tive que publicá-lo em Portugal, senti o negados que estamos culturalmente. Aí, nesse desespero nasceram os primeiros poemas que agora juntos fazem parte deste livro. O poema “Se os Carvalhos Falassem”, que dá título ao livro, é o primeiro poema dedicado ao meu pai; ele ensinou-me a ver o nosso mundo com olhos de druida. Este livro é uma homenagem à minha mais sacra herança cultural. Com cada livro publicado acho um bocadinho de paz.

*

POEMAS

*

Se os Carvalhos Falassem

Ao pai

Se os carvalhos falassem
não ficaria eu tão só
e as minhas conversas
deixariam de ser monólogos
que me queimam na gorja

Se os carvalhos falassem
minha seria a dor da sua decota
meu o medo ao incêndio
e minha a capa de prata do seu tronco

Se os carvalhos falassem
meu seria o mundo dos pássaros
meus os degoiros e fantasias
minhas as pernas trepadoras de criança
e suas as minhas carícias

Se os carvalhos falassem
seus os meus ouvidos
minhas as suas queixas
meus os ancestrais e os druidas
e as fadas do monte que há herdar meu corpo

Se os carvalhos falassem
escutaria eu não outra fala
meu o refugio entre urzeiras e carpaços
minhas a paz e a liberdade
meu o meu destino
minha a minha pátria.

*

Canção de Emílio ou a Morte da História

A Covas, aldeia natal

Antes éramos cem homens no concelho
cem vizinhos, cem casas de jugada…

O tempo galopava pelos montes
como lobo, respeitava as distâncias

Agora somos uma dúzia de nada
casa desfeitas a paisagem
e o tempo campa no coração da aldeia
tornando-se cruento e caprichoso

Dantes conformava-se com os mortos
com o seu ritual de doença e despedida
mas agora, alimária alentada pela historia
não lhe avonda com os corpos

O mundo pegou a volta
onde ontem viviam os nossos mortos
hoje morrem em despedida as nossas vidas

Tempos selvagens estes
que nos abrem em canal
que nos apartam as tripas
sem matar-nos primeiro

Hoje o tempo falou-me pela rua
aborrecido disse que anda
já nem medo nos mete
ele também vai velho
qualquer dia morre e lá vai tudo.

*

Quem Perde a Sua Língua

Quem perde a sua língua
não tem mais deus
não tem mais pátria
não tem onde ir morrer…

Quem perde a sua língua
esquece a alma própria
não lembra os caminhos do céu

Condenado fica para sempre
a vagar por algum inferno

Quem perde a sua língua
leva na boca um cemitério
morreu a primavera
morreu o Cuco e a Melra
não vão voltar as andorinhas

Quem perde a sua língua
não tem mas como pôr fim
a este eterno desassossego

Não tem mais como seguir vivo
pois não tem verbo
para fazer-se carne
para fazer-se casa dessa alma
dessa alma em pena
dessa alma….

Seremos ave fénix
mortos que sempre renasçam

Para eles deixo meu canto resistente
e uma alvorada roxa da garganta

Para eles deixo a fouce afiada
para cortar as silvas que nos prendem
que nos prendem a língua
que nos prendem
que nos prendem a alma
que nos prendem
que nos prendem a palavra
a palavra
a palavra
a palavra…

Quem perde a sua língua
algum dia no Olimpo das deidades
tem, por força, de reencontrá-la

Quem perde a sua língua

*

Ser 

A Nerea

Pertenço a uma cultura milenar
sou chinesa
sou afeicana
sou japonesa

Sou galaica
sou índia e sou malaia

Sou a terra
sou mulher
sou mãe
sou filha
sou filha da filha

Sou infinita…

Sobre o autor / a autora

Ramiro Torres

Ramiro Torres

(Galiza) Ramiro Torres nasceu na Corunha no 1973 e estudou Graduado Social. Tem publicado poemas na revista 'Poseidónia' e 'Agália', assim como no blogues 'A fábrica' e 'A fábrica da preguiça'. Inaugurou as edições do Grupo Surrealista Galego com o seu livro "Esplendor Arcano".

1 comentário

  1. 🕔 16:27, 20.Set 2016

    Ceciiia Arinto David

    Pensamento muito claro e muito caro ao que entendo ser a poesia.
    Vale a pena ler como uma lição de amar….qiue vamos encontrar nos poemas da autora entrevistada.

    Responder comentário

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