Entrevista ao escritor português Victor Domingos

Entrevista ao escritor português Victor Domingos

0 comentários 🕔09:30, 13.Out 2016

- Palavra Comum: Que é para ti a literatura?

- Victor Domingos: A literatura é uma forma de arte que faz da palavra a sua matéria-prima. É uma definição muito ampla, como amplo e variado é o campo de ação desta forma de arte. Tal como a música ou a pintura, a literatura presta-se a diferentes contextos, assumindo ora um caráter reativo ou mesmo interventivo sobre o mundo, ora um aspeto mais contemplativo ou reflexivo, ou mesmo um cariz simplesmente lúdico. Há autores que tendemos a identificar, de jeito mais ou menos direto, com alguma destas vertentes. Eu considero, contudo, que a melhor literatura – e porventura a mais difícil de produzir – será a que reúna todas essas características, e talvez mais algumas. O texto que entretém, mas que ao mesmo tempo deixa entrever uma perspectiva nova sobre a realidade e que talvez nos leve a mudar a forma como pensamos o nosso lugar no mundo e a relação com o que nos rodeia – será esse a meu ver o texto mais completo.

- Palavra Comum: Como entendes – e praticas, no teu caso – o processo de criação literária?

- Victor Domingos: Em primeiro lugar, sinto que preciso de um certo silêncio. Dos outros e de mim. E isso, que deveria ser o mais fácil, é afinal tantas vezes o mais complicado de providenciar. Depois, quanto à escrita propriamente dita, eu continuo a comportar-me como um irremediável aprendiz. Gosto de experimentar. O mais difícil é começar com uma folha em branco. Isso eu já aprendi, por isso às vezes começo logo por escrever a primeira frase que me ocorre, como se fora para quebrar o gelo. Posteriormente, se essa frase deixar de fazer sentido (o que é bem provável acontecer, quando se trata de uma frase aleatória), risco e continuo com o resto do texto.

- Palavra Comum: Ainda escreves em papel?

- Victor Domingos: Quem me conhece sabe que sou um grande entusiasta dos livros em formato digital (ebooks). Podemos lê-los num smartphone, num tablet, num e-reader, no computador… É muito prático e permite-nos ter acesso rápido a títulos muito mais variados e a preços até mais acessíveis. É fantástico! Mas escrever é outra coisa. Já escrevi em folhas soltas, em cadernos, no computador, no telemóvel… mas cada vez mais tendo a regressar à caneta e ao papel, a começar pelos guardanapos de uma qualquer mesa de café. O ritmo a que escrevemos em papel tem qualquer coisa que… bem, que comigo funciona melhor, pelo menos naquele momento inicial em que começam a surgir as ideias.

Após essa fase embrionária, o meu texto é sujeito a sucessivas operações de reconstrução e revisão (e aí, sim, já uso mais o computador). É um processo que tanto pode levar uma ou duas horas, no caso de um poema breve, como pode estender-se por vários dias. E geralmente quase todos os meus textos são sujeitos a um período de quarentena – ou de “envelhecimento em casco de carvalho”, como se faz com o vinho. Algum desse vinho dá vinagre, outro serve-se como vinho de mesa. E algum é simplesmente rejeitado. Mas gosto de deixar passar algum tempo e reler, para reavaliar melhor e decidir o melhor destino.

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- Palavra Comum: Qual consideras que é – ou deveria ser – a relação entre as artes entre si (literatura, artes plásticas, fotografia, etc.)? Tens experiências com este tipo de vínculos?

- Victor Domingos: Acho maravilhoso quando as diferentes formas de arte se cruzam de forma criativa e harmoniosa. Há alguns autores bem conhecidos que o têm feito com resultados que superam o que resultaria da mera soma de cada forma de arte. No meu caso, porém, não tenho explorado muito essa área. Talvez um dia.

- Palavra Comum: Quais são os teus referentes criativos (num sentido amplo)?

- Victor Domingos: Marcou-me muito, de modo particular, a leitura dos autores do Modernismo português, a começar por aquele que é provavelmente o nosso maior poeta, Fernando Pessoa. Conhecer pela primeira vez um autor tão original e tão multifacetado como Pessoa é uma experiência complexa, que muda radicalmente a nossa perceção do mundo e do próprio processo literário. Sentimo-nos tão pequenos e impotentes perante o seu génio criativo. E de repente parece que queremos entrar na conversa, escrever também os pensamentos que a leitura nos suscitou. Depois lembramo-nos que o autor já não vive entre nós (embora a sua escrita pareça tão intensa e tão contemporânea), que não teremos por isso uma resposta ou mesmo um mero encolher de ombros… É disso que falo em “É Preciso Calar o Monólogo”. E isso leva-nos a uma outra definição possível da literatura, como um ato de comunicação generativa, algo que semeia e faz germinar o diálogo, entre autor e leitores, e entre leitores. Continuo a acreditar que é preciso calar o monólogo, que a literatura pode até começar na solidão, mas o seu destino, a sua missão, encontram-se mais além.

Mas quando falamos de referentes criativos, que é como quem diz influências, não podemos restringir-nos a um autor ou a uma corrente histórica. Isso acontece em cada livro que leio, cada canção que escuto, ou uma sinfonia de Shostakovich, ou uma obra como a “Sagração da Primavera” ou o “Pássaro de Fogo”, de Stravinsky. São obras marcantes. E a vida, claro, a vida…

- Palavra Comum: Que caminhos (estéticos, de comunicação das obras com o público, etc.) estimas interessantes para a criação (e os criadores) artística e cultural hoje?

- Victor Domingos: Eu penso que estamos num decisivo momento de viragem para a literatura. Uma espécie de crise. Não tenho a pretensão de ter a solução para esse momento, mas creio que a seu tempo a literatura (re)encontrará o seu caminho. Estamos num tempo em que todos sabem ler palavras, mas poucos sabem ler literatura, e muitos menos decidem fazê-lo. Vivemos a um ritmo frenético, uma rotina extrema que não deixa espaço para esse recolhimento de que às vezes precisamos para escrever, e também para ler. Reconquistar esse direito ao silêncio, e ao diálogo de que eu falava antes, é fundamental para a literatura se reencontrar consigo mesma e com o seu público. Sem isso, nada feito. Isto não é necessariamente uma questão de estética, mas a estética poderá desempenhar o seu papel, adaptando-se ao contexto cultural do seu tempo, como foi ocorrendo em diferentes épocas. Porém, estou convencido de que o maior problema ou desafio que a literatura enfrenta na atualidade, mais do que estético ou genético, tem a ver com a reconquista do seu lugar de destaque, o reconhecimento do seu valor e da sua importância na sociedade.

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- Palavra Comum: Que vínculos achas entre Arte(s) e Vida?

- Victor Domingos: São indissociáveis. No entanto, isso não confere automaticamente um cariz biográfico a cada narrativa ou poema. A vida, a meu ver, é simultaneamente a inspiração derradeira e a finalidade última da Arte. Da vida procedem as sementes que dão origem às ideias. E à vida retorna a obra de arte quando o autor a torna pública. Independentemente do estilo mais ou menos lúdico, mais ou menos interventivo do autor, a obra cria um contexto à sua volta, gera aquela comunicação que eu referia há pouco, chega mesmo a moldar ou suscitar a evolução das nossas ideias e a forma como nos relacionamos em sociedade.

- Palavra Comum: Qual é o estado da literatura portuguesa nestes momentos, do teu ponto de vista?

- Victor Domingos: Atravessa o mesmo estado de crise que a literatura atual em geral. Falta-nos a vivacidade que, por exemplo na Galiza, a questão identitária e a sobrevivência da Língua parecem ter estimulado. Mas padecemos de um mal geral, que é a dificuldade em tornar visíveis projetos artísticos que não se articulem com a lógica dominante do mercado ou do poder instituído. Financiar uma vida de artista é extremamente complicado, mesmo recorrendo a outras fontes de rendimento. Porque trabalhamos para podermos viver (para então podermos criar), mas depois quase não nos resta espaço ou tempo para a atividade criativa, que também é muito exigente. E mesmo a questão económica ganha uma preponderância que talvez não seja sequer politicamente correto admitir… Penso que há autores interessantes, mas infelizmente muitos deles perdem-se quase antes de ganharem visibilidade.

- Palavra Comum: Que conheces e opinas sobre Galiza e as suas – existentes e/ou potenciais – relações com a Lusofonia – e que experiências tens, neste sentido? Para onde achas que poderiam caminhar?

- Victor Domingos: Há um injustificado desconhecimento mútuo. E digo injustificado, antes de mais, porque temos tanto em comum, a começar pela nossa língua. Chamemos-lhe galego, português, brasileiro… A verdade é que temos uma língua comum, com particularidades nacionais, regionais e locais, que lhe conferem uma enorme riqueza lexical e expressiva. E o potencial desta língua comum está por explorar. Presos à ideia de que falamos línguas diferentes, separadas quase unicamente por uma mera convenção ortográfica arbitrária (e o Português do Brasil é fonética e lexicalmente tão ou mais distinto do Português Europeu, do que o Galego ou Português da Galiza), limitamo-nos a uma relação empobrecedora. Porque não partilhar conteúdos audiovisuais, canais de TV e rádio, literatura, projetos educativos, relações económicas mais fortes, como fazemos por exemplo com o Brasil e restantes países da CPLP? A meu ver, a Galiza merecia figurar como membro pleno da CPLP, assumindo um património linguístico e cultural que lhe cabe por direito (digamos que a Galiza é, por assim dizer, o berço da Língua Portuguesa).

A minha experiência pessoal incluiu um momento de revelação, em que tive a curiosidade de ler autores galegos e aprender uma nova língua. Vim todavia a redescobrir a minha própria língua, com novos matizes. A língua e toda uma série de tradições comuns. E a cada passo, estando agora mais atento, descubro que sempre houve algum intercâmbio cultural entre as duas nações e que, apesar do discurso dominante isolacionista, tem havido várias tentativas de aproximação em diferentes momentos da história. Contactar de perto com alguns autores galegos que optam por escrever em galego adotando a ortografia internacional do galego/português ajudou a compreender que a ortografia era afinal uma barreira artificial e indesejável.

Enquanto português, e enquanto galego que também me sinto, não posso senão desejar que essa aproximação cultural se torne cada vez mais uma realidade e que deixemos de nos olhar como estranhos, como estrangeiros. Nunca me senti estrangeiro na Galiza, quando me falavam em Galego. Haverá talvez setores da sociedade galega que olharão com desconfiança este caminho, temendo talvez que as relações com a Lusofonia pudessem anular a sua riqueza enxebre. Mas não creio. Essa anulação tem vindo a ocorrer, no caso linguístico, por meio da penetração do castelhano nos usos domésticos do galego, um sintoma a que cumpre dar a devida atenção. O léxico e a pronúncia do Galego tem vindo a deteriorar-se, muito por influência do castelhano, pelo que o apoio na base histórica da língua (isto é, o galego-português) e no seu atual uso internacional podem insuflar-lhe nova vida sem degradar nem fugir à sua etimologia natural.

Falo na Língua, porque é algo que nos une antes de mais, e porque é algo que todos sentimos como definidor da nossa identidade cultural. Eu vejo a nossa Língua como uma ponte. Falta apenas passarmos a utilizar essa ponte para comunicarmos, criarmos e partilharmos novos projetos.

- Palavra Comum: Que projectos tens e quais gostarias chegar a desenvolver?

- Victor Domingos: Neste momento, tenho um grande projeto em mãos que começou com o nascimento da minha filha. (Risos) É um projeto pessoal e privado, mas muito importante para mim. Tenciono, a médio prazo, publicar um segundo título de poesia, provavelmente mantendo-me como habitualmente no formato digital. Tenho ponderado também algum tipo de projeto internacional relacionado com a cultura lusófona, em suporte escrito ou mesmo áudio. No imediato, a capacidade de execução é limitada, mas essa aproximação entre os territórios da Lusofonia (que para mim é sinónimo de Galegofonia) é algo que me interessa particularmente.

POEMAS NA VOZ DO AUTOR

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NESSE OLHAR QUE FOGE

      Nesse olhar que foge de toda a alteridade - Victor Domingos

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TODO O DIA É NEGRO

      victor-domingos-todo-o-dia-e-negro

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Sobre o autor / a autora

Ramiro Torres

Ramiro Torres

(Galiza) Ramiro Torres nasceu na Corunha no 1973 e estudou Graduado Social. Tem publicado poemas na revista 'Poseidónia' e 'Agália', assim como no blogues 'A fábrica' e 'A fábrica da preguiça'. Inaugurou as edições do Grupo Surrealista Galego com o seu livro "Esplendor Arcano".

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