Entrevista ao fotógrafo português Nuno Moreira

Entrevista ao fotógrafo português Nuno Moreira

0 comentários 🕔12:00, 24.Out 2016

- Palavra Comum: O que é para ti a fotografia?

- Nuno Moreira: É uma forma de expressão artística e pessoal, similar ao teatro, literatura ou cinema. Pessoalmente, faço uso da fotografia para expor e colocar questões sobre temas que considero pertinentes e que surgem dum universo interno. Tenho observado que as imagens que resultam melhor são também aquelas que tendem a ecoar facilmente no observador sem lhes dar no entanto nenhuma resposta concreta.

Para mim a fotografia que interessa é aquela que expõe verdades de forma crua, aberta e sem artifícios. A explicação nunca é importante se houver poesia, espaço para o vazio e mistério.

- Palavra Comum: Como entendes (e levas a cabo, no teu caso) o processo de criação artística?

- Nuno Moreira: A minha prática artística é claramente o resultado de um longo processo de pensamento. É algo diário, e o culminar de várias técnicas, como desenho, pintura e colagem, que no final se materializam também em fotografia e em livros. Interessa-me a ideia de partir de uma narrativa interior e haver espaço temporal suficiente para essa narrativa crescer e existir dentro de mim naturalmente. Só com o tempo necessário de 2 ou 3 anos de maturação sinto que os cenários imaginados começam a ganhar raízes e consistência para depois serem fotografados, até lá vou escrevendo e confrontado as minhas ideias e pressupostos com o que me rodeia no dia-a-dia. A realidade é que não penso em fotografia somente como um registo imagético circunstancial. Para mim aproxima-se mais de um campo performativo de contornos ritualísticos, abarca questões mais amplas como a ambiência espacial e psicológica, o ritmo do espaço, e a relação que as personagens têm dentro deste contexto por mim formulado. É um pouco como uma representação de algo muito concreto que pode ou não ter movimento ou obedecer a uma linearidade narrativa. Interessa-me explorar um universo singular, que por sua vez seja um reflexo de algo maior.

- Palavra Comum: Qual consideras que é a relação -ou qual deveria ser- entre a fotografia e outras manifestações da cultura (literatura, música, etc.)? Que experiências tens, neste sentido?

- Nuno Moreira: Pelo que expliquei, as minhas séries fotográficas surgem dum longo trabalho de pensamento e escrita, por isso entendo claramente que a ideia da fotografia é, no meu caso, interdependente da escrita e pensamento. Aliás, diria até, que não me interessaria fotografar se não tivesse essa ligação entre a imagem e a palavra, pois sem ela é difícil encontrar uma âncora entre os elementos ambiente-personagem-narrativa. A polinização de outras áreas criativas é algo que considero fundamental. Um criador é sempre um criador, quer esteja a fazer uma sopa ou a escrever um livro.

- Palavra Comum: Que referentes e influências tens no teu trabalho artístico?

- Nuno Moreira: O que me ocorre de imediato é a noção de vazio ou ausência, a intermitência da morte e uma certa sensualidade do mundo onírico, ou de estados alterados de consciência. Interessa-me alterar o ritmo do observador ao olhar para as imagens, invocando o silêncio de cada um, se possível fazendo com que a imagem seja um ponto de partida para o pensamento, e nunca um ponto estanque visual.

Tenho alguns referentes estéticos que tento tomar como pilares na procura de um sentido mais apurado, ou de uma linguagem própria. Por exemplo, procuro ter em atenção que os ambientes construídos sejam de uma natureza íntima e com um determinado ritmo e cadência. Procuro também que essa atmosfera invoque determinados elementos e que estes contribuam para a narrativa global do trabalho. Por vezes esses elementos repetem-se, ou surgem “mascarados” de algo com a mesma carga simbólica. Procuro que a narrativa tenha sempre algo de poético, intemporal, e que seduza sem ser de uma forma forçada.

Trabalho de forma muito isolada e considero isso algo construtivo. A maioria da arte que consumo é igualmente proveniente de artistas que não pertencem necessariamente a um meio ou corrente, mas antes procuram seguir o seu caminho isoladamente e descobrir uma linguagem própria num nicho. Da mesma forma, cada vez mais vejo o meu trabalho a alimentar-se de si mesmo, como uma cobra que morde a própria cauda e se vai auto-descobrindo.

- Palavra Comum: Que caminhos entendes que seria interessante transitar nas artes, nomeadamente na comunicação com o público e a sociedade? Quais deles valorizas mais, no teu caso?

- Nuno Moreira: Num cenário de sociedade ideal o papel dos artistas é abrir rupturas, cortes e discussões significativas na rotina dos observadores. Instigar o medo, e levantar o véu ao sagrado, deixar tudo fora do local de origem. Os artistas são responsáveis por instigar a imaginação e pensamento da comunidade. Por manter acesa a chama do mistério, dualidade, sombras e de tudo o que é imaterial. Por levantar questões do domínio íntimo e visceral de cada observador. Nessa sociedade ideal a comunidade sentir-se-ia estimulada e em contacto com um lado nem sempre aparente do mundo e, por isso, como transmudação de interesses, tentaria apoiar, defender e acima de tudo preservar o trabalho dos artistas, pois este descreve a sua cultura e funciona como um elixir e abrigo para a alma, como uma ponte entre o visível e inominável.

Para mim esta é a relação que interessa entre as artes, o público e a sociedade.

- Palavra Comum: Que vínculos há, para ti, entre Arte(s) e Vida?

- Nuno Moreira: O vínculo é sine qua non. A arte que me interessa é aquela que me põe a pensar. Seria o mesmo que conceber a vida sem questionar a mesma, sem a possibilidade de a analisar e pôr em causa. Não concebo quem eu sou, e como encaro a minha vida, sem o acto de criação e constante e a re-afinação do que significa ser relevante para mim em criar. Da mesma forma, não imagino como seria viver sem acesso a livros, teatro, cinema, no fundo, trampolins de pensamento.

- Palavra Comum: Que projetos tens e quais gostarias chegar a desenvolver?

- Nuno Moreira: De momento estou na fase de escrita e elaboração de ideias para uma nova série/livro que dá continuação à estética visual iniciada em ZONA. Nos últimos 2 anos tenho estado a escrever apontamentos para este trabalho e se tudo correr bem irei dar início em breve e se possível ter o projecto pronto no final de 2017.

Esta é a página web do autor.

Sobre o autor / a autora

Ramiro Torres

Ramiro Torres

(Galiza) Ramiro Torres nasceu na Corunha no 1973 e estudou Graduado Social. Tem publicado poemas na revista 'Poseidónia' e 'Agália', assim como no blogues 'A fábrica' e 'A fábrica da preguiça'. Inaugurou as edições do Grupo Surrealista Galego com o seu livro "Esplendor Arcano".

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