da prosaica grossaria (a razão do perverso – poemas descartados), por Mário Herrero

da prosaica grossaria (a razão do perverso – poemas descartados), por Mário Herrero

1 comentário 🕔10:30, 07.Nov 2016

Do livro original d’ A Razão do Perverso (ajuste de contas) foi preciso retirar vários textos, demasiados, para poder cumprir o requisito de não ultrapassar o número de seiscentos versos, estabelecido nas bases do Prémio “Illas Sisargas”. Optei finalmente por retirar os poemas mais prosaicos e deixar os, digamos, mais líricos. Potenciei a crueldade preciosista em detrimento da crueldade prosaica. Porém, o livro ficou com certeza castrado. Sem dúvida, essa é a palavra. Porque não concebo o lírico sem o prosaico, o oculto sem o evidente. É por isso que desejo agora oferecer esses poemas descartados. O complemento necessário ao livro finalmente editado. Que cada leitor coloque os poemas onde julgar pertinente. Que cada leitora interprete como quiser o oculto e o evidente. Fica assim completo este livro de orações.

***

farei um poema exclusivo para ti
e com ele alcançarei a glória das letras,
sublimarei as tuas qualidades de
fodedora incansável, magnificarei
a forma em que concluis os coitos,
maravilhas direi da maneira
em que lambes o meu pénis,
descreverei, um por um,
o teu registo de gemidos,
louvarei a roupa da tua cama,
as cores das tuas cuecas,
as rendas dos teus soutiens,
as tuas palavras soezes,
os ritmos do teu clítoris,
a negrura profunda do teu coração,
as salas frias que percorres,
as amargas casas que habitaste,
os corpos inertes dos teus amantes,
as folhas desentranhadas nos livros,
o triste nome que para ti imaginei

*

lembro
aquelas prosaicas bacanais
em que os versos
se misturavam
sem razão aparente,
tu passavas
por cima dos corpos
deitando flores,
amputando dedos,
a pele estalava
sob os teus pés,
e o medo
reclamava
o seu lugar,
doçura e equilíbrio
eram palavras
que nunca chegaste
a conhecer

*

chegava a noite
e começava o jogo,
o disfarce de operário,
as leituras de Poulantzas,
os esboços de uma revolução,
e eu queria apenas sexo,
e tu querias ser Uma Thurman,
e eu queria apenas vinho,
e tu querias iniciar uma guerra,
circulavam manifestos,
explodiam bombas,
e eu queria apenas sexo,
e agora,
já perto dos cinquenta,
não sei onde estás,
eu tenho filhos,
emigrei, falo a língua
que nunca falamos,
e imagino-te explorando operários
numa fábrica da Inditex

*

só calavas em francês,
espida sobre a biblioteca
devoravas as folhas com ânsia,
e da tua cona fluíam livros,
e eu observava estupefacto,
apertando o cu contra a parede,
a tua pele brilhava,
a maquilhagem excessiva,
o movimento perverso dos dedos,
a biblioteca a arder,
só calavas em francês,
só fodias em espanhol,
e os livros tornavam-se nada

*

com essa forma tão lúgubre de foder,
como essa maneira tão democrática de escrever,
como essas coxas cálidas
e essas brancas mãos,
a escolher cada uma das palavras,
como escolhes a lingerie que não se vê,
a posição exata dos lábios,
a geometria artificiosa do teu púbis,
a tua incapacidade para compreender
a perversão dos sentidos, tudo medido,
tudo planificado, cada gemido,
cada verso, cada plano para encantar vontades,
cada vez que abrias as pernas e te oferecias,
tudo mentira, todos e cada um dos teus versos,
todos e cada um dos teus passos,
tudo mentira, passos, versos,
pernas, beijos, livros, tempo,
tu imaginavas um país
e eu queria apenas sexo

*

analisavas a dor de forma precisa,
classificando cada pancada
numa lista interminável,
depois voltavas sobre os teus passos
e reiniciavas o movimento,
o sangue na minha boca,
o suor a desenhar curvas,
sonhavas com ser Borges
a descrever uma biblioteca,
sonhavas com as onze mil vergas
mas só uma bastava,
sabias que doía e desejavas a dor,
sabias que tudo era falso
mas já não podias parar,
e assim foi como construíste
a tua última poética

*

a impossibilidade
de nos reconhecermos espidos
neste jogo incerto
deixou-nos por fim sem forças
para iniciar novamente
o demorado percurso
de aquele amor pausado,
de aquela farsa inútil,
dos corpos tatuados,
das noites sem calar,
e agora que isto acaba,
que os beijos já não sabem,
reconheço-me espido,
como uma criança triste
que perdeu o sono,
que perdeu a roupa,
que não sabe onde está

*

dos teus mamilos cortados
nasceu um país,
do mais profundo
das tuas entranhas,
surgiu uma língua,
dos meus dedos
no teu ânus
manou um rio,
desta intensa mentira
demos nome aos filhos,
e dos vales obscuros,
a semente da guerra
que me mantém em pé

*

devo dizer que os teus lamentos
nunca causaram em mim
a menor das penas, o pior foi sempre
ouvir a litania dos teus versos
a descrever, um após outro,
os teus atos sexuais,
as tuas misérias,
transformar quinze segundos
num poema repleto de adjetivos inconsistentes
e verbos flexionados até ao infinito,
muito mais do que as tuas próprias pernas
ou a tua capacidade lírica,
listas de amantes, de prostíbulos, de títulos descartados,
de amores arruinados, de uma vida esquecida,
nada em ti me faz pena,
nunca tiveste pena de mim

*

não se confundam, não,
o que não foi feito aos vinte anos,
não será feito aos cinquenta,
porque tudo é já diferente,
mesmo os cheiros
e o sentido das palavras,
o movimento dos músculos
e o sabor dos lábios mordidos,
nada que imagines será suficiente,
nem artifícios, nem jogos,
nem fechar os olhos, nem abri-los,
nem reparar os corpos, nem quebrá-los,
procura posições, tenta inventar sintaxes,
assaltar os dicionários
ou alguma obscura sex shop,
mas não te confundas, não,
a pele fede agora, não há perfume
que possa ocultar os aromas da putrefação

*

de que tudo era mentira
nunca tiveste dúvidas,
dos poemas escritos sobre a cama,
plena de álcool e insónia,
da visão dos teus pais
deitados numa estranha confusão,
dos gritos dos vizinhos
configurando a única política que conheces,
da tua triste iniciação no sexo,
que preferes nem lembrar,
dos anos na universidade,
dos filhos,
da deserção e do medo,
de que tudo é mentira,
nunca tiveste maior certeza

*

(fobias e parafilias)

*

começamos
e, enquanto compasso o ritmo,
a cabeça foge
e fica o estômago,
as pernas movem-se
e fica o bílis,
a azedume insuportável
de um sexo burguês
ou de um foder proletário,
do rasto da tua pena
a conceber pornografias,
e é por isso que
aperto o teu pescoço,
e é por isso que
fica apenas o estômago
e um intenso fedor a excrementos

*

diverso és no discurso,
diverso entre os lençóis,
diverso quando imaginas
a semântica inócua da paixão,
fetichista da desordem
nos corpos e nos quartos
em que os corpos se consomem,
fóbico persistente,
receoso passeante
de ruas e montanhas,
espetador atónito
desta perpétua carnificina,
observador curioso
do metódico trabalho do estripador
que rasga o ventre das vestais
nos brilhantes templos
do nosso tempo

*

nada tão prazenteiro para o poeta
como vir-se sobre o corpo inerte
de um impuro, como cuspir sangue
sobre a sua fria pele, como gozar
o seu ânus escarlata
com a bengala que o amo ofereceu,
nada tão prazenteiro como sonhar-se
marginal, como lamber os dedos
da pátria, como desonrar
as obras dos impuros, como tecer
redes de morte com os fios do Senhor

*

tira a roupa, deixa-a sobre a cadeira,
tira também as palavras,
não te quero ouvir,
apoia os braços sobre a mesa, de costas
a mim, já conheces as rotinas,
se queres fazer parte de nós,
sabes bem o que deves fazer,
o que deves calar,
o que deves levar
nesse branco cu, não olhes para mim,
não pronuncies o meu nome,
ergue-te quando eu entro,
ajoelha-te e lambe-me
sem uma queixa,
dá-me a tua vontade,
e, assim, talvez,
algum dia consigas entrar
na minha biblioteca

*

não há melhor lugar
para um buraco da glória
do que um pétrea parede
num velho prédio da capital,
uma boa foda
entre estantes repletas
de letras da província,
reuniões de eruditos
que concluem em trinas cópulas
de rabos minguados,
de isóclina perfeição,
surgem línguas,
brotam vozes,
nascem até gerações
de persistentes fodedores,
de guardiães do sacro lugar,
explodem fontes,
sequências inacabáveis de sons,
tudo dentro, bem adentro
dos pétreos muros da nação

*

je suis l’avant-garde

as mãos atadas,
a boca aberta,
a saliva que cai
indica o caminho,
humilha-te mais uma vez,
quero ver-te suplicar
um espaço ao meu lado,
uma cloaca no paraíso,
deves aprender a separar
os justos dos injustos,
deves saber bem
quem é que manda aqui,
deves dominar sem medo
os mecanismos da censura,
humilha-te mais uma vez,
lambe lentamente
o meu livro de orações

*

mario-herrero-a-razao-do-perverso-300

1 comentário

  1. 🕔 15:09, 07.Nov 2017

    Luis Mazás

    Bom texto. Mário Herrero em estado puro. Parabéns!!!

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