No lançamento de <em>Mecanismo de Emergência</em>, de Tiago Alves Costa, na Corunha

No lançamento de Mecanismo de Emergência, de Tiago Alves Costa, na Corunha

0 comentários 🕔13:00, 05.Dez 2016

A quarta-feira 30 de Novembro, na Livraria Suévia da Corunha, teve lugar o lançamento de Mecanismo de Emergência, de Tiago Alves Costa, publicada por Através Editora.

Publicamos o texto que o Tiago leu ali, agradecendo a sua amabilidade e imensa força criativa, e, a seguir, também o texto lido por Ramiro Torres.

***

TIAGO ALVES COSTA

Como se explica um livro? Como se explica uma palavra? Pergunta o atleta-escritor. E insiste: a palavra é uma representação da vida, portanto: não se explica: sentem-se. isso pensas tu. Disse uma palavra enquanto vagueava o dedo lentamente sobre uma impossibilidade. quanto medem as tuas horas, atleta? Insistiu de novo a palavra.

O Mecanismo é simples. Diz o atleta-escritor. Um movimento instintivo. Um golpe de intuição. Linhas de fuga. Corrermos: traçar uma linha que não existe. A Emergência. Um Mecanismo que se completa na sua profunda e densa engrenagem não. não. não… Irrompe de novo a palavra agora com mais palavras do seu lado. Mas o escritor teima: mas talvez não seja necessária a fuga. Talvez haja afinal um jogo, uma dança hipnótica, uma brincadeira de infância, por detrás da palavra. Talvez haja afinal um riso, um leve e doce riso que provoca o mundo, o mundo que desaba. Quanto terá de altura o mundo, palavra-gelo? alguém nos pode informar, por favor, quanto gasta de pé este atleta?… Perguntou uma palavra sem espaço.

Então o escritor, acusando agora numa das mãos um ligeiro tique nervoso, insiste: falo obviamente de um território de experimentação da palavra. censura! censura a este atleta. isto é um ultraje. uma ofensa ao reino da palavra. Proferiu uma palavra com os olhos injectados. E o escritor cala-se. Mas insiste no seu carácter inquieto: território de sedução: jogo-palavra / ritmo-palavra / dança-palavra / palavras que se escrevem depois de 1000 anos, depois de 200 metros. Palavras que saltam em altura. Palavras que correm para trás. A indignação aumenta por entre as palavras. E o escritor pede por favor para que o deixem terminar. Por favor deixam-me terminar? Mas as palavras não param de incitar o protesto. E insistem: que fique claro que nós só viemos cá para ver o sol e que, obviamente, não queremos nada com o mundo, com poetas, neste caso. Mas…. nem mas nem meio mas. dedica-te, atleta sem nome, a estrutura simples do vento e depois aparece por cá para avaliarmos as tuas costas, o perfil insondável das tuas costas. Insistiram as palavras, com vagos mas majestosos movimentos das mãos.

O escritor faz uma última tentativa para se explicar. E agora acelerando o ritmo para que não o interrompam. Mecanismo de Emergência: um território de tentativas- erro, um território de dúvidas, de caminhos iniciáticos, uma vã tentativa de recriar o mudo, estádio intermédio entre dois excessos….mas as palavras não deixam terminar o atleta-escritor. Retiram-lhe a caneta, a última vontade que lhe restava, e avisam que ele está obviamente despedido, que arranje outras! mais obedientes, claro.

O atleta-escritor, cansado, rasga o papel onde escreve, apaga as luzes onde vê e adormece na noite onde sonha: talvez amanhã, nosso atleta do coração…talvez amanhã….

Em diálogo com Mecanismo de Emergência, na entrada de Dezembro. Livraria Suévia.

Galiza, 2016

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RAMIRO TORRES

ObrigadoTiago Alves da Costa Mecanismo de Emergência a todas as pessoas que hoje estais aqui, nesta Livraria do Norte onde nos convoca um Galego do Sul, o Tiago Alves Costa.

Diz-nos ele, nada mais e nada menos, na contracapa do seu livro, que: Se o meu berço materno está em Portugal, a minha matriz histórica está na Galiza. Sou uma metade absoluta de cada um galego-português. No entanto, tenho que reconhecer que foi na Galiza que me descobri… curiosamente, como português também. E levo-a marcada, indelevelmente, no meu imaginário de filho inquieto do mundo.

Com isto, caro Tiago, vens de deitar abaixo as edificações da terrível ignorância que acompanha o processo de (de)construção mental e perceptiva mais habitual nesta beira atlântica da Península Ibérica, onde a maioria dos seus habitantes se negam a ver a enorme quantidade de energia dilapidada inutilmente em manter a distopia do desencontro mútuo que nos empobrece de maneira sistemática, mas nunca definitiva …

E é que hoje, na Corunha, na Agra, na Livraria Suévia, apresentamos com total naturalidade um livro escrito por um poeta portugalego na nossa língua comum, publicado por uma editora galega, e onde ouviremos versos em diversas vertentes fonéticas do galego, ou português, ou galego-português, ou português-galego, etc…

Sobre o autor diz o seguinte o Portal Galego da Língua: Tiago Alves Costa, nado no Baixo Minho, Vila Nova de Famalicão, rumou aos E.U.A para concluir os seus estudos universitários. Trabalhou no sector editorial independente. Em 2012 publicou o seu primeiro livro W. C. Constrangido. Tem alguns dos seus poemas antologizados e traduzidos para castelhano e inglês. É actualmente colaborador da revista literária Asymptote. Publica em 2016 o seu segundo livro, Mecanismo de Emergência, sob o selo editorial Através Editora. Vive na Galiza, na Corunha.

Vou partilhar convosco o que é para mim o Tiago: trata-se de um perscrutador em estado puro, com um olhar limpo e atento ante a existência. Ser de conversa demorada, apanha os fios secretos da realidade para reconfigurar a sua identidade mutante e, ao tempo, poderosamente ligada às raízes vulcânicas do poético, entendido como fulgor do vivo que vence as mistificações socialmente aceites com uma ironia cheia de inteligência criativa ao tempo que reveladora… Não sou ainda plenamente consciente da sorte que tenho de habitar a sua amizade e do proveito que podemos tirar, não só eu, também todas e todos nós, da sua força clarividente.

Mecanismo de Emergência. Cá temos um livro poderoso, irmão da perspicácia do grande Mário Cesariny à hora de despir o mundo que está à nossa volta, atirando-lhe as máscaras, amostrando os seus artifícios magrittianamente, como quem retira o véu do que críamos era o real, enquanto pisca o olho para nós e continua o seu caminho diante da nossa perplexidade.

Eis aqui o percurso do irónico para o fascinante: um trabalho oculto, calmo, inadiável, convertendo a leitura em réplicas de um terramoto para os sentidos, nomeadamente para o chamado sentido comum por essa polícia do pensamento que nos tenta convencer da irreversibilidade de todo o existente frente à nossa vidência mais livre. Quiçá aí um dos possíveis sentidos do Mecanismo de Emergência, do que já têm falado muito e atinadamente poetas como Estíbaliz Espinosa. Um livro que (nos) desoculta…

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