A máquina Gonçalo M. Tavares

A máquina Gonçalo M. Tavares

0 comentários 🕔13:30, 27.Mar 2017

O autor talvez mais internacional das letras lusas dispensa qualquer introdução. Também porque até passou pela Galiza nos primeiros tempos do seu fantástico crescimento. Foi a convite em Compostela precisamente da revista Biblos [cfr. nº 80]. Eram os primórdios de um grande percurso. Hoje plenamente confirmado.

Gonçalo M. Tavares (Luanda, 1970) estourou de início como já sendo autor com aura, e estar apetrechado com exigente gaveta de um dia apontar para o céu. E começou a disparar em várias direcções. Livros em diferentes géneros que foram construindo a mais assombrosa carreira literária que já se viu provavelmente em qualquer língua ou continente. Tinha sido em 2001 aquela estreia, e desde a tal vão agora mais de trinta títulos, cujo comentário e glosa ocupariam vários volumes desta revista. Constituem, os dele, uma obra em conjunto diversa e original, raiz em diferentes países de díspares trabalhos artísticos e académicos, encenações de teatro, composições radiofónicas, vídeos de arte, curtas metragens, intervenções de artes plásticas, ópera, performances, projetos de arquitetura… E premiada em muitas das suas encarnações individuais, tanto em Portugal como no estrangeiro. Recebeu o LER/Millennium BCP 2004 e o Saramago 2005 com o romance Jerusalém. O Grande Prémio de Conto da Associação Portuguesa de Escritores em 2007 com água, cão, cavalo, cabeça, ao tempo que o Portugal Telecom no Brasil. O Branquinho da Fonseca/Fundação Calouste Gulbenkain por O Senhor Valéry. O Revelação da APE por Investigações. Novalis. Em 2010 teve o Prémio Melhor Livro Estrangeiro na França com Aprender a Rezar na Era da Técnica. Ao mesmo tempo Uma Viagem à Índia tinha em Portugal o de Melhor narrativa Ficcional da Sociedade Portuguesa de Autores, o Especial de Imprensa Melhor Livro 2010 Ler/Booktailors, o Grande Prémio da APA 2011, o Fernando Namora/Casino do Estoril, o Portugal Telecom e o Fundação Inês de Castro. Em Trieste (Itália), em Belgrado (Sérvia), em vários espaços e meios da França, na imprensa inglesa, na Holanda, Brasil, Turquia e até na da Espanha, entre outros, os seus livros foram aparecendo em destaque como sendo dos melhores do ano. E é um dos dez escritores que fazem parte do Comité do Finnegan’s List 2014, European Society of Authors. Ahh e o seu blogue adverte que estão em curso cerca de 290 traduções em trinta e cinco línguas, com edição em quarenta e oito países…

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–Afirmado adjetivamente de ‘génio’, ‘figura maior’, ‘brilhante’, ‘um clássico’, já desde há algum tempo e em mais de uma geografia, tu continuas a trabalhar com pulso ainda mais firme. Tanto reconhecimento ajuda ou desafia a tua produção de escrita? Como consegues digerir a vertigem desse poder de escritor consagrado?
–Durante muitos anos eu escrevei sem pressão alguma do exterior. De alguma maneira, escrevi numa espécie de aquário em relação ao mundo, entre os vinte e os trinta. O facto de ter aguardado pela publicação aos trinta tem a ver muito com essa sensação-instinto que tive logo, quando novo, de que as coisas necessariamente iriam mudar a partir do momento em que se publiquem, de que se tornem público. Bem, mas para mim, em primeiro lugar, tenho que dizer que é absolutamente espantoso e maravilhoso e surpreendente a forma como os meus livros têm sido recebidos. Isso é algo bom, muito bom, e portanto eu acho que a vida está feita infelizmente de coisas muito más, coisas às vezes terríveis de que não podemos escapar, a vida é muito violenta por vezes, a doença está sempre à espreita, andamos à volta ou a fugir da morte –e portanto quando há coisas boas o mínimo que podemos fazer é não transformar as coisas boas em coisas más. E portanto a forma como tem sido recebidos os livros não pode ser transformada, a forma boa e tudo o que de bom tem acontecido, não pode ser transformado em algo mau. Isso parece-me essencial. Seria de uma grande inabilidade humana eu transformar algo bom numa coisa assustadora. Claro que agora há mais estímulos do exterior, não estou num aquário já, mas eu tento manter uma certa distância. E realmente o facto de eu ter uma metodologia em que escrevo em um determinado período a matéria bruta, fico anos a guardar essa matéria bruta numa espécie de forno, a que vou voltando, cortando, partes dessa refeição, desse livro, cortando partes, revendo, etc. Mas mantendo sempre também uma distância em relação ao texto, ou seja, o facto de não escrever e publicar de imediato o que escrevo, intervalar anos e anos entre o momento de escrita e o momento de publicação – por exemplo, Uma viagem à Índia escrevi em 2002 talvez e publiquei em 2010, portanto uma diferença de oito ou nove anos –, essa diferença faz com que eu me mantenha muito tranquilo em relação ao exterior. Eu não tenho a angústia de escrever o próximo livro. Eu tenho sempre, digamos, alguns anos de avanço com vários livros já feitos que ainda não foram publicados. Isso dá-me muita tranquilidade. Não sinto opressão alguma do exterior e penso que também é uma espécie de treino estóico que sempre tive que ajuda também a manter essa distância de tranquilidade em relação às coisas boas e às coisas menos boas. Eu penso que consigo isso.

–Não tinhas direito de escrever tão bem aos 35 anos, disse Saramago do teu Jerusalém, e hoje a tua sombra até quase apaga no mundo a sua memória. Como te sentes tratado por crítica e escritores em geral mas nomeadamente de Portugal? Alguém confessou que também tinha vontade de te bater?
–Quando a crítica ou quando o Saramago tem essas palavras tão generosas para comigo o que eu sinto em primeiro lugar é uma alegria grande. Uma alegria porque quando um grande escritor como Saramago, ou outros grandes escritores, se manifestam em relação à minha obra de uma forma muito entusiasmada, isso é uma grande alegria porque não há nada melhor do que nós sentirmos o entusiasmo de colegas de ofício. Tenho uma amiga pianista que diz que o reconhecimento por parte de outros pianistas é sempre o mais importante. No meu caso realmente um colega de ofício, um escritor, sabe as dificuldades que existem para escrever um bom livro depois de milhares de erros diferentes. E portanto receber elogios, receber atenção por parte de colegas doutras gerações mais velhas é para mim uma grande alegria, e ao mesmo tempo há também uma questão de colegas de ofício que me parece importante: para mim ser colega de ofício é algo quase sagrado, portanto eu tento manter isso de uma forma muito clara, tento tratar bem os colegas de ofício e fico muito contente quando sou bem tratado pelos colegas também. O que o Saramago fez foi de uma grande generosidade, todas as palavras dele foram de uma grande generosidade, de alguma maneira não me… –quando o Saramago falou da hipótese do Nóbel, quando o Saramago brincou a dizer que lhe apetecia bater-me, tudo isso eu vejo-o como uma manifestação de generosidade, e mais uma vez não vejo como uma pressão negativa, vejo como uma espécie de energia boa que eu devo aproveitar para continuar a fazer o meu caminho tranquilamente sem ansiedades nenhumas. É isso que eu tenho feito.

–Neste ano terás estado no Brasil e na Argentina, pelo menos, e costumas receber convites para eventos literários de diversa natureza. Que importância concedes a estes Encontros na tua carreira?
– As saídas, conferências, encontros, para mim são muitas vezes um meio, um pretexto para produzir um texto, escrever um texto. Gosto quando de um encontro literário propõem um tema muitas vezes fora do meu foco. Isso agrada-me muito, porque isso me obriga a desviar o pensamento e de alguma maneira a escrever algumas notas sobre um tema que não iria escrever. Portanto vejo sempre essas intervenções públicas em termos de comunicações orais como um meio para chegar a textos.

–Tens qualificado os teus últimos romances como “diversos”, isso por não encaixar na planificação de conjuntos anteriores?
– Eu acredito que a Literatura vive do alfabeto e não de géneros literários – costumo dizer que o material de trabalho de um escritor é o alfabeto, como por exemplo de um escultor que trabalha a pedra o seu material é a pedra. Portanto parece-me fundamental distinguir isto, dizer que um escritor trabalha não com géneros literários mas com o alfabeto. E o alfabeto não tem género literário. O “a” não pertence ao ensaio nem o “p” à poesia, todo o alfabeto está junto e é com essa massa que devemos trabalhar. E por isso para mim os géneros literários são algo artificial. Eu tento sempre partir do alfabeto, e nesse sentido terminar em algo que não sei bem o que é: é depois de o ter escrito que olho para o animal que escrevi e tento organizá-lo, dar-lhe um nome. Há animais/livros que eu faço que, quando os termino, não sei exatamente que nome lhe hei chamar, não são contos, não são ensaios, enfim, não consigo integrá-los, e de alguma maneira eu preciso de ter um nome para um tipo de escrita, para um tom de escrita, e de alguma maneira a minha obra tem muito a ver com isso, com a criação de hipóteses de literatura. Cada hipótese de literatura tem um nome, podem ser canções, pode ser senhor, pode ser Bloom Books, e penso que todos acabarão por ter um nome.

–As séries O Bairro e a dos Livros Pretos estão encerradas ou premeditas ainda completá-las?
– O Reino foi composto de quatro romances e está terminado, é um livro composto digamos de quatro, sobre o mal. O Bairro é uma outra coisa, faz parte de um projecto utópico, saíram dez senhores. Não sei se vai continuar se não, de alguma maneira estou a tentar perceber como é que O Bairro se percebe a si próprio, como é que O Bairro se desenvolve. Não me coloco nunca na posição de ter que fazer um livro. De alguma maneira O Bairro é uma ideia muito forte que me interessa, uma ideia de utopia que está em movimento e eventualmente terá continuação. Mas ainda não sei.

–O horror e o grotesco não deixam de habitar os teus livros, tratados com um racionalismo e uma austeridade pouco frequentes. É esse um dos elementos mais poderosos também na Arte?
– Bem, o horror e o grotesco: eu acho que a Literatura parte da perversão. Uma das origens desta palavra tem a ver com verso, o lado oposto, o lado que está escondido, portanto o lado que não está visível, e nesse sentido perverso (‘per’ tem a ver com percorrer) será percorrer o verso, percorrer o escondido, percorrer o obscuro. E se pegarmos nesta feição da linguagem nós podemos dizer que toda a Literatura é perversa literalmente, e portanto o terrível –eu não diria o horror ou grotesco–, mas terrível, o assustador, o intrigante, fazem parte quase constituinte da Literatura. E nesse aspeto os meus livros têm essa questão da perversão. Eu diria que nalguns livros isso é mais evidente, por exemplo no Reino, em Jerusalém, Aprender a Rezar na Era da Técnica, começava precisamente a perceber a maldade. Por exemplo em Aprender a Rezar na Era da Técnica, perceber a cabeça de um médico fascista, digamos com pensamento quase desumano em relação às outras pessoas. Enfim, o mal é de alguma maneira um enigma, não é? O Grande Mal como o Grande Bem, são enigmas. Talvez um dia consiga ter coragem para pensar sobre a Grande Bondade, que também é enigmática, mas para já o tema, por exemplo de O Reino, tem sido “o mal”. O tema geral, o que me interessa sempre são os comportamentos humanos: o ciúme, a agressividade, a violência, o medo, a ansiedade, todos esses comportamentos e as sensações humanas me interessam. A sensação de paz e tranquilidade é uma sensação que de alguma maneira não excita a linguagem, a linguagem é muitas vezes excitada pela perturbação. Enfim, julgo que é a Literatura, como disse, nasce na sua constituição, parte desta ideia de que alguma coisa perturba, alguma coisa está perturbada, e por isso se fala, por isso escrevemos. Se tudo estivesse bem, se tudo estivesse tranquilo, não precisaríamos falar, não precisaríamos escrever.

– O teu laboratório incessante, o teu caudal copioso, quanto tempo e esforço requerem?
– Escrevo a matéria bruta com alguma velocidade, com alguma rapidez. Escrever é para mim instintivo, é quase como andar ou saltar ou correr, é algo muito direto e imediato. Depois desta primeira parte, em que a escrita sai às vezes de rajada –às vezes escrevo três ou quatro horas seguidas–, depois disto às vezes paro vários anos e portanto um livro demora-me sempre muitos anos. Vou digerindo, cortando, e o meu tempo de vida vai acompanhando o tempo de vida do próprio livro. As publicações vão saindo mas sempre diferidas em relação ao momento de escrita.

–Na construção de uma diversidade de objetos singulares, que ao mesmo tempo encaixas numa pluralidade harmónica, o plano e a disciplina antecedem em muito a produção visível? Tens uma visão de conjunto e uma resolução de detalhe, ou as peças/livros encaixam depois no quadro que progride?
– Realmente não tenho um plano prévio, nem para um livro individualmente nem para os livros no seu conjunto. Escrevo muito instintivamente, às vezes com quatro ou cinco notas, quatro ou cinco ideias, uma ou duas imagens, e a partir daí começo a escrever um livro. E em relação à própria obra também nunca é planeado. Eu quando publiquei, por exemplo, O Senhor Valéry, nunca tinha pensado numa hipótese de “bairro”, foi só ao terceiro ou quarto senhor que me apareceu a imagem do Bairro. Portanto é uma obra que se vai construindo e que eu não sei como vai continuar. Eu costumo dizer que cada livro é como se fosse um ponto e de alguma maneira vou unindo os pontos e fazendo desenhos. Todos os livros quando saem publicados eventualmente vão formar um desenho com algum sentido, espero eu, mas um desenho que não sei qual é, não sei qual é o desenho que os livros vão formar. Eu escrevo muito para investigar e portanto gosto muito de não saber o que vou fazer, isso para mim é essencial, escrever sem saber o que vou fazer. Sempre que soube o que ia escrever desisti de escrever. Se eu tenho a ideia para um conto, e tenho mais ou menos na minha cabeça o conto completo, eu nunca escrevo esse conto, desisto porque para mim o prazer da escrita é um prazer de pura descoberta.
É evidente que os livros têm muita relação entre si, são escritos por um mesmo autor, mas muitas vezes são como que animais completamente opostos, animais inimigos. Se pensarmos, por exemplo, num livro como O Senhor Valéry, ou num livro como animalescos, ou Viagem á Índia, e Canções Mexicanas, são livros quase inimigos, são livros que têm um tom oposto, têm uma velocidade completamente diferente. O Senhor Valéry, por exemplo, ou Histórias falsas, são livros com uma calma enorme e, pelo contrário, Canções Mexicanas ou animalescos são livros de grandíssima velocidade. Portanto eu não sei bem o que dizer, eu acho que gosto da ideia de os livros serem animais que vão existir num espaço, e esses animais vão-se aproximando uns dos outros e formam famílias e vão também criando inimigos, e agrada-me isso, agrada-me fazer caminhos que muitas vezes são completamente opostos.

–Estará na pluralidade de personagens por ti criadas um dos maiores deslumbramentos da tua Obra? Que elementos narrativos achas mais determinantes na escrita ficcional?
– Gosto da ideia da ficção que passa pelas personagens, que de alguma maneira é o desenrolar de uma personagem, é a história do cruzamento de personagens. A narrativa é como personagens que caem e a história é um pouco descrever a queda dessas personagens. O romance é muito a descrição da alteração da posição de diferentes personagens. Num livro como, por exemplo, Aprender a Rezar na Era da Técnica, isso está muito claro, é a descrição da vida de um homem, dos seus momentos fortes, dos seus momentos de fraqueza, dos seus momentos de doença, a ascensão e queda de uma quase narrativa clássica, nesse sentido. E eu gosto desta ideia, de tentar observar uma personagem nos diferentes momentos, nos momentos em que de alguma maneira se eleva e nos momentos em que cai… Sobre a ficção, eu não gosto da ideia de partir de contar história, para mim a ficção e o ensaio, por exemplo, estão muito ligados, gosto do ensaio ficcional, por assim dizer. A ideia de criar um pensamento ficcional, um pensamento que não quer chegar à verdade, mas que quer apenas ensaiar caminhos, possibilidades. E a ficção também é isso, a ficção é uma hipótese de uma história, como há muitas outras hipóteses de histórias. O início de uma história clássica, o “era uma vez”, é o início de uma hipótese quase científica. A ficção é uma investigação social e humana, é assim que eu o vejo, e portanto não separo a ficção da reflexão. Gostava muito que toda a ficção fosse um início de um pensamento, início de uma reflexão, não gosto da ideia de ficção enquanto passa tempo, não acho que seja aceitável.

–A Poesia e o Ensaio, inclinação ou ambição de abarcar o infinito?
– Podemos pensar na Poesia, Ensaio, Ficção, Conto, como géneros literários separados, ou podemos pensá-los como produção artificial de algo que não existe. Para mim Poesia, Ensaio, Ficção, são parte da mesma energia. Eu diria que o que me interessa na Poesia tem que ver com a síntese, com a capacidade de síntese, acho fundamental como é que sintetizamos. O Ensaio de alguma maneira também é uma síntese, talvez uma síntese diferente mas é sempre uma síntese. A Poesia de alguma maneira coloca o som, o som da língua, também no ponto central. Mas, como eu digo, acho que não há nenhum género literário puro, todos os géneros literários são impuros, mestiços, morenos, são géneros literários de infinitas raças simultâneas. Um texto é ao mesmo tempo Poesia, Ensaio, Ficção: pensando em Um Homem: Klaus Klump, eu acho que é um romance, sim, mas é também um pensamento, é também Poesia de alguma maneira e, é isso, não me parece que seja importante classificar.

–Quanto ao teatro, a tua produção estrita não tem sido tão rica como noutras vertentes e no entanto a encenação com base em textos teus é reiterada. Achas satisfatórios estes trânsitos? Foram eles que inibiram a produção direta que seguramente seria bem acolhida?
– A escrita para teatro para mim não é pensada como algo fora da escrita, ou seja, para mim só existe escrita. Gosto muito da ideia de Roland Barthes porque a escrita é um verbo intransitivo, um verbo que não precisa da pergunta “o quê”, eu posso dizer estou a escrever e não precisa a pergunta “o quê”. A escrita por si só é já uma força enorme. E portanto para mim escrever poesia, escrever teatro, escrever ensaio, escrever ficção é escrever antes de mais. E nesse sentido o teatro para mim, isso é muito claro, eu vejo o teatro como um texto, ou seja nunca penso o teatro como algo que vai ser passado a cena. Portanto nunca escrevi propriamente para teatro, com as regras dramatúrgicas, com toda a história e estrutura de cena. Para mim isso nunca foi relevante. Para mim o relevante foi sempre pensar como é que um texto gera acções, como é que um texto gera gestos. O que tem sido extraordinário é que, para além de alguns textos que aparentemente são mais próximos da estrutura de teatro, e que foram levados a cena, para além disso, inúmeros livros meus não teatrais –Jerusalém, os Senhores…, enfim, uma série de livros dos mais estranhos e mais afastados do teatro–, foram passados para teatro, e isso agrada-me muito. O Senhor Valéry, O Senhor Henri, Jerusalém, fizeram uma peça de teatro, uma ópera, com Luís Miguel Cintra, como encenador, etc. Enfim, foram fazendo muitas coisas teatrais a partir de textos não teatrais e isso agrada-me muito.

–O teu universo difícil de acompanhar na sua desconcertante variedade completa-se dos mais diversos modos –como prefaciar o Cardoso Pires. Um romance que fala da infelicidade e da solidão vai ao encontro do teu mundo literário ou trata-se de um pedido puramente editorial?
– José Cardoso Pires, como qualquer outro autor, para mim, é lido com olhos prévios de alguém que quer gostar. Quando abro um livro quero gostar, procuro os caminhos que me fazem deslumbrar com o livro. José Cardoso Pires é um escritor extraordinário, é um escritor de grande síntese e nisso como é evidente admiro-o muito. É alguém que consegue transformar a escrita em algo visual. Nós estamos muitas vezes a ver as cenas, a ver as páginas, e a sua ligação ao cinema é evidente. Não é por acaso que muitos dos livros passaram a filme. E portanto José Cardoso Pires parece-me um autor essencial. O prefácio que eu escrevi para a Relógio d’Água tem a ver com esta atenção também aos autores de gerações anteriores. Para mim esta questão de dar atenção aos autores que me antecederam é determinante, e também dar atenção aos autores que vem a seguir a mim. E portanto é uma espécie de companheirismo já sem um dos companheiros presente, já sem um dos companheiros vivo, neste caso José Cardoso Pires, e eu gostava de ver este prefácio como manifestação de admiração e ao mesmo tempo de companheirismo, tenho muito orgulho em ser colega de ofício de José Cardoso Pires, ou de muitos outros autores –sei lá, Carlos de Oliveira, lembro-me agora, que é um escritor admirável, e muitos outros, não vou dizer porque vou-me esquecer de muitos. Mas tenho muito orgulho de escrever em português.

–As tuas ‘influências literárias’ maduras colocam-se fora das letras lusas?
–As minhas influências literárias são inúmeras, de alguma maneira “O Bairro” sintetiza um conjunto de autores que eu admiro e que eu considero. Tenho um outro livro que se chama Biblioteca, e que já foi publicado em Espanha, que tem entradas ficcionais sobre cerca de duzentos autores, enfim, o número de autores que eu admiro é inúmero e dentro desse inúmero que admiro estão muitos, muitos portugueses. Mais uma vez será inútil citá-los mas são inúmeros. A língua portuguesa acho que tem de se orgulhar muito do que já fez, e falando agora em autores de língua portuguesa, e não portugueses, lembro de imediato Clarice Lispector, Guimarães Rosa ou Machado de Assis…, mas talvez Clarice Lispector é para mim um nome essencial, uma escritora que eu acho totalmente extraordinária, e é talvez uma das maiores escritoras de sempre em qualquer língua. E portanto, sim, admiro muito muitos autores

–Para acabar, a concessão aos nossos imediatos leitores: que recordações guardas da Galiza, na que pelo menos me constam duas passagens?
–Para mim a Galiza é um espaço absolutamente familiar, portanto quase que não me sinto a entrar na Galiza. Entre a Galiza e Portugal, é como quase entrar num outro compartimento da mesma casa, como se tivesse uma casa de família grande e a Galiza fosse um compartimento apenas, um compartimento diferente, um compartimento da mesma casa. Lembro-me perfeitamente da ida à Galiza a propósito de um convite da Biblos, já há muitos anos, mas depois disso fui inúmeras vezes à Galiza, a última das quais por exemplo perto do ano novo, na passagem do ano 2015 para 2016. Aí por exemplo passei de novo pela Corunha, Fisterra, a costa, etc. E aí fui sempre muito bem tratado como tem sido sempre que vou à Galiza, quer como escritor quer como pessoa, sinto-me sempre muito bem recebido, e muito bem aí.

Sobre o autor / a autora

Carlos Quiroga

Carlos Quiroga

Carlos Quiroga é professor de literaturas lusófonas na Universidade de Santiago de Compostela (Galiza - Espanha) e Director do Conselho de Redacção da Revista Agália. Obras: g.o.n.g.-mais de vinte poemas globais e um prefácio esperançado (1999); Periferias (1999, prémio Carvalho Calero de narrativa); O Castelo da Lagoa (Prémio de Teatro infantil na Mostra de Ferrol - Terra (1988); A Espera Crepuscular (2002); O Regresso a Arder (2005); Inxalá - Espero por ti na Abissínia (2006); Venezianas (2007); Império do Ar (2013).

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