O pai, o menino e a bola

O pai, o menino e a bola

2 comentários 🕔11:00, 10.Abr 2017

Cê ouviu aquele rebuliço ontem de madrugada?

Então seu pai foi preso mano?

Ficou paralisado tentando entender, não sabia o que era. Muitos vizinhos vira-e-mexe caíam em cana, sabia de um caso de um tio distante, mas agora era seu pai, sua referência. Sabia que ele tava no erro, mas sempre é uma surpresa.

As primeiras visitas foram pela janela engradada do 33º DP, na divisa o portal, pra cá a vida comum, pra lá o inferno. Lugar de meia luz, corredor embolorado, uns sentados com a família, muitos sozinhos e os andarilhos, que ficavam andando pareado de uma ponta a outra do páteo, pra desbaratinar o tempo, mover o esqueleto e evitar a neurose. Foram dias difíceis, de pouca aproximação e descaso.

Por conta da correria da família, principalmente da mãe, conseguiu uma transferência pra Penitenciária do Estado, a famosa “Penita”. O pai ficou na triagem, num amontoado de gente, esperando o convite ou a proposta pra comprar uma jéga, num barraco pra dois. Isso era luxo nos anos 90, onde cela pra dois soava como mentira, mas o pai conseguiu.

Lá tinha médico, esporte, escola, trabalho. Suave, né? Parece até propaganda eleitoral. Vai nessa…

Era tempo de decepar cabeças, de arrumar criaca, de viver no fio da naifa. Ver a mulecada de hoje achando que cadeia tá suave, ver as grades virar até escritório, revela que os tempos mudaram.

Naquela mão, cada dia de visita era uma treta pendente, um roxo na face, um temor de rebelião. A cadeira vai virar… Ao mesmo tempo a mulecada, que vinha com as mães visitar os pais e os padastros, fazia daquele corredor gélido um exímio parque de diversões. Santa Contradição!

Tinha até popstar zanzando por ali, o maior deles era um senhor de tez inocente, que caminhava sozinho, com suas histórias esquartejadas, que virou filme. Era o temido Bandido da Luz Vermelha, que parecia um velhinho inofensivo, sem ter onde cair morto. O menino ia a visita uma vez por mês, aos domingos, e o pai mesmo naquela tortura o recebia com um sorriso estampado, e em meio aos desencontros havia uma novidade boa pra partilhar.

O pai sabia que o menino perseguia o sonho de ser um jogador de bola, ser profissional, que ele fazia as contas pra saber qual era a Copa da sua convocação e transbordava essa confiança.

Certa vez, andando com o pai nos corredores da “Penita”, conheceu uma dupla de nigerianos. Ficou olhando pra eles, não pensou em crime, nem porque estavam fora do seu país, só vinha na sua cabeça perguntar sobre o ataque de ouro da Copa de 94, Yekini, Amokachi, Okocha, Finidi, Amuneke. Um time que fez história, ganhando da Bulgária com um gol antológico de Yekini, que ao comemorar ficou abraçado na rede chorando.

Yekini parecia fazer uma prece fervorosa, parecia pedir aos deuses Liberte nosso povo, liberte nosso povo! O menino não disse nada, só ficou ouvindo aquele sotaque meio inglês com português, talvez ibo ou yorubá e pensando no orgulho que eles deviam ter de sua seleção.

Já o pai sabia que o mundo do menino girava feito uma bola de capotão em terra batida, e fazia de tudo pra alimentar essa magia. Como estava enjaulado, teve que ser criativo, e fez da palavra seu barco, da prosa sua vela e muitas cartas navegaram por aí, endereçadas aos clubes profissionais.

Uma dessas chegou às mãos de seu Jurandir, respeitado olheiro do Nacional-SP, o descobridor do atacante Dodô, o artilheiro dos gols bonitos. Um senhor negro, de olhar sereno e voz pausada, que trazia nas suas histórias os calejos do futebol. Seu escritório ficava na arquibancada do Estádio Nicolau Alayon.

Seu Jurandir respondeu a carta, ligou pro menino, queria conhecê-lo. O menino chegou até ele, foi bem recebido, fez testes no Nacional aprendeu um bucado sobre a vida nos poucos encontros que teve com seu Jurandir e a história acaba aqui.

Não pense que vou traçar um final feliz, que o menino virou figurinha da Copa, que seu pai ficou famoso pela história e seu Jurandir virou seu empresário, isso deixa pro roteirista da novela das nove. O que vale aqui é o caminho e não a chegada.

No Brasil, boleiro de renome é um entre mil, a maioria desiste ou passa fome debaixo das sombras mentirosas dos empresários fujões. Por isso você já sabe ou deveria saber o final mais coerente pra esta história.

O que fica são as palavras, a intenção, o exemplo que as cartas do pai mostraram ao menino. Se ainda tem alguma dúvida vou te contar um segredo, o menino que sonhava com a bola, um dia acordou com um papel e uma caneta e danou em escrever suas histórias, fez isso tanto, mas tanto, que acabou virando escritor.

Agora, escreve mentiras com gosto de verdade, dedicando a quem tem paciência de passear por suas palavras. O futebol? Ah, esse apesar de tudo continua sendo um caso de amor eterno em sua vida.

***

Notas: Publicado no livro Crônicas de um Peladeiro (Elo da Corrente Edições, 2014). A foto do autor é de Sonia Bischain.

Sobre o autor / a autora

Michel Yakini

Michel Yakini

Michel Yakini é escritor e produtor cultural brasileiro.

2 comentários

  1. 🕔 12:51, 12.Abr 2017

    Vera Lúcia

    O sonho do menino com a bola produziu um lindo fruto. A crônica que retrata a realidade do menino pobre, em que a oresença da ” cadeia” é parte integrante, infelizmente, de suas vidas. Mostrar esta triste realidade com sua arte, enobrece seu ofício de escritor.

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