“No mar maior”, por Henrique Marques Samyn

“No mar maior”, por Henrique Marques Samyn

0 comentários 🕔09:15, 09.Jun 2017

nom hei [eu i] barqueiro nem remador

Já veio a esta praia muitas vezes. Assim faz sempre que está deprimida ou melancólica: aqui é vazio, silencioso, e por isso ela se sente bem. Brinca com as conchas, pegando as que parecem mais bonitas e alinhando-as de muitas formas; as menores, devolve ao mar, mesmo sabendo que as ondas em algum momento as deixarão outra vez na areia. Sabe que os arranjos de conchas serão desfeitos, sabe que as conchas lançadas retornarão, mas a consciência dessa efemeridade faz com que se sinta bem: deixa de lado os problemas e esquece as preocupações.

Agora, por exemplo, já não pensa tanto no que ele fez, e mesmo a raiva que sentia parece dissipar-se aos poucos. Não que o tenha perdoado: sente que talvez não possa fazê-lo, ao menos por enquanto. Mas, quando as lembranças insistem em buscá-lo, as recordações surgem pálidas e distantes. Uma sombra – isso ele é agora; que assim permaneça. Acreditaríamos, se ela afirmasse ser isso o que de fato deseja? Dificilmente: é ainda jovem, e não acreditamos que uma mulher tão jovem possa tomar decisões definitivas (sobretudo estando assim, magoada). Diríamos, entre nós, que tudo isso é efeito da raiva ou da tristeza; que ela tenta defender-se, de algum modo; que ainda o ama, ou pelo menos acredita amá-lo, e essas coisas não mudam tão facilmente. Mulheres desejam amores eternos, é o que sempre nos disseram, sobretudo mulheres jovens. Por que ela seria uma exceção?

Mas ela não pensa nisso; na verdade, não pensa em nada. Está distraída, brincando com algumas conchas que tem entre as mãos. A praia está vazia; ela está agachada, bem junto do mar; a água e a espuma molham seus pés e parte do seu vestido. A sensação é agradável, porque hoje faz calor e o sol ainda está alto no céu. Ela deixa as conchas na areia, pega um pouco da água e umedece no rosto; quando os dedos tocam os lábios, sente o gosto de sal. Tem vontade de entrar na água, mas não está preparada para fazê-lo – a não ser que esteja disposta a encharcar o vestido, e depois voltar assim para casa. Não gosta de pensar nisso, porque faz com que se lembre dele outra vez, resgatando uma das piores lembranças: o dia em que ele se jogou na piscina, puxando-a, como se tudo fosse muito engraçado. Porque ele riu, e porque todos os amigos riram, ela riu também; mas, no fundo, sentia-se horrivelmente constrangida. Quando saiu da água, tremendo de frio, sentindo as roupas coladas ao corpo, tinha vontade de chorar – mas como, se todos riam tanto? Embora humilhada, conteve as lágrimas. No dia seguinte, percebeu que o celular, que estava no bolso da calça, tinha parado de funcionar; para piorar, espirrava – prenúncio de um resfriado que não a deixaria por uma semana. Nervosa, brigou, gritou com ele; mas era tudo brincadeira, ele dizia, passando-se por vítima. Ela não rira com todo mundo, não se divertira também? Lembra-se de cada detalhe do episódio, volta a sentir raiva – e sente ainda mais raiva de si mesma por isso. Precisa esquecer.

Decide entrar na água: agora, fará isso porque quer – não porque um estúpido, encorajado por outros estúpidos, acha que jogá-la numa piscina é algo muito engraçado. Deixa as sandálias na areia, caminha em direção ao mar. Sente a resistência da água; as ondas estão altas, estourando com força. Tem um pouco de medo, mas isso não a detém. Decidiu entrar na água – e o fará. Observa o vestido molhado, pisa com calma na areia irregular, estudando cada passo. Detém-se numa distância que lhe parece segura: apesar da violência das ondas, consegue equilibrar-se, e gosta de sentir os respingos da água. Quer avançar – mas age com cautela. Uma onda mais forte estoura; ela espera por alguns momentos, logo caminha mais um pouco. O medo a estimula: é uma pequena aventura. Mas vem uma onda mais alta, e ela não sabe o que fazer. Parece muito alta para que permaneça de pé; talvez deva abaixar-se – pensa, mas o corpo não age: a onda a atinge em cheio, numa explosão violenta. Sente o corpo voar por alguns segundos, como se estivesse rodopiando; os pés procuram o chão, os braços se agitam no vazio.

Ergue-se lentamente.

Está envergonhada, mas a praia ainda parece estar vazia – não tem muita certeza disso: os óculos foram levados pelas ondas. Ela nem tenta procurá-los: sabe que não os encontraria; eles agora pertencem à água salgada, ficarão perdidos em meio à imensidão azul. Um pouco cambaleante, afasta-se do mar; senta-se na areia, que para os olhos míopes se assemelha a uma extensa mancha amarelada. Sente que há grãos de areia em cada parte do seu corpo; tenta limpar-se, inutilmente, batendo com as mãos nas pernas, nos braços, no pescoço. Está terrivelmente tonta: embora a queda não tenha sido tão séria, o susto foi grande, e está há muito tempo sem comer. Deita-se na areia, estende o corpo, abandona-se ao sol. De olhos fechados, tenta relaxar.

Ainda não sonha, porque ainda não dorme – mas as imagens surgem aos poucos. Uma praia que não é esta, embora com ela se pareça; uma menina que não é ela, embora se sinta em seu corpo. É mais jovem, como quando começou a namorá-lo; aguarda-o, com a ansiedade de quem espera o primeiro beijo. Mas ele, onde está? Para passar o tempo, alinhava as conchas; mas tamanha é a demora que ela se cansou de fazê-lo. Não sente raiva – talvez seja jovem demais para isso; o que sente é uma profunda tristeza. É como se ele a tivesse abandonado nessa praia deserta, como se nunca mais quisesse vê-la. Deixa as sandálias na areia, caminha em direção ao mar. As ondas estão altas, estourando com força – mas ela não tem medo: é como se o mar a convidasse, como se ali pudesse encontrar a paz. Sente a resistência da água, mas avança sem receio, pisando com firmeza na areia irregular. Apesar da violência das ondas, não se detém: continua a caminhar, sentindo as águas cobrindo seu peito, seus ombros, seu rosto. Quando vem a onda mais alta, deixa que arrebente sobre o seu corpo – o corpo voa por um tempo infinito, perde-se em meio às águas revoltas; deixa os pés flutuarem, abre os braços, entrega-se ao mar.

Desperta de repente, assustada, ouvindo gritos.

Não entende o que está acontecendo, e as imagens borradas não ajudam – mas há gritos, vozes chamando um nome: de onde apareceram essas pessoas? Levanta-se, sobressaltada; esquece as sandálias, que ficam na areia. Percebe um grupo de pessoas, aproxima-se delas – ouve alguém chorando. Quer perguntar o que aconteceu, mas não tem coragem. Há outras pessoas saindo do mar; só quando estão muito perto percebe que trazem um corpo. Com gestos cuidadosos e solenes, deitam-no na areia. Uma mulher tomba de joelhos, gritando um nome; os outros ficam ao redor, em silêncio. Embora não consiga distinguir as feições, percebe que o corpo é de uma mulher – jovem, tão jovem quanto ela.

Sem nada dizer, afasta-se: abandona as conchas, as sandálias que ficaram na areia, os óculos levados pelo mar. Não sente medo, tristeza ou alívio; não sente nada – apenas o corpo, que o sol quente seca aos poucos. Não pensa mais nele, não tem mágoa ou lembranças ruins.
Porque não é a mesma.

*

Nota sobre o autor: Henrique Marques Samyn é escritor, ensaísta e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisa literatura galega há mais de dez anos, tendo concluído em 2010 uma tese de doutorado sobre a literatura trovadoresca. Autor dos artigos “Lirismo e alteridade: uma leitura da trajetória poética de Helena Villar Janeiro” e “Notas sobre a nova poesía galega en voz feminina”, entre outros.

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