Entrevista a Ugia Pedreira: “A música salvou-me desde nena”

Entrevista a Ugia Pedreira: “A música salvou-me desde nena”

0 comentários 🕔11:00, 04.Set 2017

- Palavra Comum: Qual é a tua perspectiva sobre a música e o seu vínculo com as artes e a vida?

- Ugia Pedreira: A música salvou-me desde nena, voei por cima de momentos difíceis graças à senhora musa. Também foi umha forma de jogo, ainda o é. Som vinculeira e joguei muito só, mas quando tivem e tenho oportunidade som companheiros-as de jogo quem compartilham conmigo experiéncia arredor dela. Desses momentos aprendim a relacionar-me e a assentar valores. Foi e é um meio de comunicaçom, umha canle através da qual podo espremer o que sinto e penso. Mas tarde decatei-me que ia compondo cançons que falavam da minha vida, ia contando as aprendizagens e as ideias a outros-as por via musical. Para que? Porque mesmo podia ajudar a mudar esta merda de mundo, medrar eu e no instante mesmo de comunicá-la ser feliz. Umha combinaçom para sobreviver, acho. É por isso que nas minhas cançons falo de mim mesma mas do contexto social que habito e dos sonhos dum mundo diferente. Coa mania de ler outras letras cantadas, umha das minhas paixons, e ler filosofia e psicologia da música por flipada em conhecer este hábitat onde os humanos transitamos. Nom distingo entre vida e música, som o mesmo, assim o canto, assim me podo mostrar umha vez passado o desejo de querer demonstrar, gostar, da competitividade, da autoestima e tantas coisas miserentas que todos-as carregamos…. Ajudou-me ademais a aceitar o meu corpo, a aceitar a minha voz e conhecer o que levo dentro através de provas, por isso adoro a improvisaçom e as mudanças, nom som muito de fórmulas repetitivas porque em seguida me aborreço. Na minha opiniom, é tam essencial viver cachos de arte como comer cachos gastronómicos. É por isso também que entro na teima de comer ecológico quando podo e escuitar o que me parecem bons sentimentos musicados, é dizer, captar desde onde venhem e porqué som transmitidos, como o que metemos na boca, no ouvido ou na pele. Tem um percurso, umha manufaturaçom, um início e umha chegada. Gostaria que a música fosse umha linguagem universal, queda-se-me cada vez mais contaminada a frase, homogeneizada, globalizada e parca. Se déssemos mais cabida ao sentir artístico diariamente quiçá se poderia dar umha volta sã à indústria, ao capital que a governa, aos conceitos de ócio, tempo livre, entretimento, etc. Creio que faríamos a vida mais fácil.

- Palavra Comum: Desde o ponto de vista da coesão social, que relevância tem -ou pode ter- a música?

- Ugia Pedreira: Muitos estudos sociais apelam ao seu poder para confluir, esse mesmo que tem o xamã como músico na aldeia, o dj atualmente, aqueles génios e ícones nos mass media geraçom tras geraçom. Fai-nos falta juntar-nos apesar do desenvolvimento tecnológico ainda nos fai falta conversar, tocar-nos, bailarmos e crer-nos um grupo unido que desfruta conjuntamente de algo. E menos mal… A música promove esta assembleia, e nom só em concerto, em espaço convencionalmente cénico senom também que conquista e remove a energia dos corpos numha taberna, num espaço de ensaio qualquer, cantando num coro…. A mim particularmente interessa-me essa capacidade de transformaçom que pode ter sobre um lugar, umha situaçom, da vida dum indivíduo-a. Isso falava-o com Cristina Pato em NY, pois o seu padrinho Yo-Yo Ma está com essa teima para bairros mais marginais. Outra gente polo mundo, em Brasil, por exemplo, trabalhando com a música para melhorar a qualidade de vida, ou qualquer pessoa consciente disto em Galiza, numha associaçom pequena com esse objectivo na sua comunidade. Parecem-me acçons bem interesantes, desde o comum e pequenino. Claro que nom por ser música já tudo flui e coesiona. A varinha mágica creio que tá nos valores que promoves, nos sentimentos que mostras e fundamentalmente porqué e para que os lanças a outros-as. Com que motivo, objectivo se o há ou nom, como é sobretudo, no meu modo de ver, se segues umha linha honesta contigo mesmo-a, apontalando a tua funçom neste planetinha, fazendo-lhe caso ao Continuum da tua vida. Claro que tamos também ante umha necessidade de identificaçom, queres pertencer a um grupo, pandilha, tribo e vibrar com ela, ainda que seja daninho para a tua mente, para os teus ouvidos, caso das festas de pachanga. A falta de consciência auditiva é tam brutal como o resto dos sentidos e neste ponto ganham quem sabe vender, as máfias e a falta de escrúpulos.

- Palavra Comum: Como impacta na saúde a música? Fala-nos das tuas experiências neste sentido…

- Ugia Pedreira: É neste último sentido que a música se converte em saúde, na consciência plena ou no seu contrário, na inconsciência plena. Esse lume interior que te leva a pintar ou cantar como os “anjos”, para entender-nos. Pra mim converteu-se em saúde quando fum vivendo as mil realidades que podia provocar num cérebro lesionado como o da minha filha Lua Awel. Microcefalia, leucomalacia severa, atrofia cerebral som diagnósticos duros, mas o dia a dia foi levado fluidamente, com surpresas, belezas, felicidades, alegrias, albrícias, festa graças à música que lhe fomos entregando, e Lua foi elegendo abrindo-lhe a capacidade de eleiçom, a curiosidades, múltiples emoçons, intensidades, tímbricas, volumes, expressom, conciência do humor… Nom é só que ajude aos enfermos de Alzheimer a melhorar o seu estado de ánimo, nem que apuxe umha maior capacidade inteletual, emocional e motora em pessoas que tocam um instrumento, ou seja um entretenimento e esparcegimento do ditoso ócio, ou seja um ofício para profissionais de luz, som, gestom,… Creio que é umha linguagem universal para quem quer cultivar-se aí, para quem quer escuitar finamente e mergulhar-se na inteligência da escuita. Com esta linguagem abrimos espaços comunicativos num caso tam duro como este. É mais receptiva à melodia da fala que ao conceito letra-palavra. Através da melodia da fala conhece o estado de ânimo, e se o que acontece ao redor tem boas traças, gosta ou nom. Através da musicalizaçom da palavra creio que consegue aprender a acçom, aí tamos nesse ponto em investigaçom. Poderá-se levar a Lua Awel a falar um idioma comum através da música? Há estudos ao respeito? Nom o sei.

Tou também ao pé do que significa cantar em coletivo com o Coro da Marinha, amadores-as que nunca tiverom experiência profesional ao respeito coma mim ou Pierrot, que fai os arranjos vogais segundo o seu conhecimento musical, gosto e risco. Esta toda gente que nos reunimos as sextas feiras em Rinlo promovemos umha comunidade que se entende arredor da música. Cantamos algumha que outra vez polas tabernas, sabedores da boa energia que isso promove num lugar, apoiamo-nos uns a outros com saberes e contatos, muitos deles nos dim o importante que é a sexta feira para limpar a assassina rotina, os maus pensares da semana, ou o bom que pode ser ante umha depressom estar num espaço donde sejas entendido e respeitado por outras pessoas. Sendo livre de dizer e opinar. Isso é saúde. E se o cantar fosse mais consciente, dirigido a reestruturar problemas respiratórios, musculares, etc., voltam-se abanar grandes totens como medicina convencional e indústria farmacéutica.

- Palavra Comum: Que importância tem a música no desenvolvimento do ser humano?

- Ugia Pedreira: Só pensar que nom exista teríamos que pôr-nos nesta posiçom por um momento: nom há melodias de pássaros, nem ao falar, nem nos rituais, nem nas festas, nem nos filmes, nem na sala de espera… um mundo de surdos-as profundos sem vibraçons.

Além de afetar à química do cérebro liberando dopamina, fai mudanças neuroendrocrinas, afeta ao comportamento, e, portanto, à atividade motora, sonho, humor, atençom, linguagem, evidentemente apuxa todas as inteligências. Agora andam dizendo que os mecanismos neuronais da música poderiam ter-se desenvolvido para exprimir emoçons e isto ser percursor da fala. É muito sério, mas em algum lugar começa a tratar-se seriamente. Se podemos ser o que comemos e também o que ouvimos e cantamos, falamos e fazemos.

Sobre o autor / a autora

Ramiro Torres

Ramiro Torres

(Galiza) Ramiro Torres nasceu na Corunha no 1973 e estudou Graduado Social. Tem publicado poemas na revista 'Poseidónia' e 'Agália', assim como no blogues 'A fábrica' e 'A fábrica da preguiça'. Inaugurou as edições do Grupo Surrealista Galego com o seu livro "Esplendor Arcano".

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