A noite de Irene (1/5)

A noite de Irene (1/5)

0 comentários 🕔11:54, 13.Set 2017

A Irene

Nunca escribirei o seu nome porque nomear um segredo pode destruílo.
Nunca direi onde está nin como chegar á praia dos ourizos cacho.
(Séchu Sende, in Made in Galiza)

Só no tempo se movem
as palavras e a música; mas aquilo que vive
pode morrer…

Mas não a quietude do violino enquanto a nota dura,
Não só isso senão a coexistência,
Ou digamos que o fim precede ao começo,
E o fim e o começo sempre têm estado aí,
Antes do começo e trás o fim.
E tudo é sempre já.

(Thomas Ernest Elliot, Burn Norton)

I

A praia

Durante um momento sentiu a areia e o sal a se deslizar pola sua pele macia. O ruído das ondas a bater, o sol a inundá-la. As nuvens à sua volta a rodopiar. Via cavalos e vaca-louras nos céus e, de súbito, o braço imenso do pai que a pendurava e a envolvia para leva-la de volta. Era hora de almoçar
-Papai, não quero almoçar, deixa-me um pouco mais!
– Não és a única, todos estamos à tua espera. Não podes ficar aí como se ninguém existisse! Já tens nove anos. Que exemplo é esse para os teus irmãos!?
E caminhava até o almoço
Os olhos de Irene pareciam apagar-se, mas logo se acendiam para contemplar os corvos marinhos, a solidão imensa da praia abandonada. E depois, à noite, a lua sobre o mar.
Mas um forte golpe a despertou. O carro parou de súbito fronte a um edifício em forma côncava, enterrado e escuro. Dous homens colheram-na do braço e puseram-na sobre uma cadeira de rodas, levando-a para o interior. Estava cansada e confusa, saída do sonho que a fixou numa imagem idílica, tinha um sentimento de perda da orientação básica. Tentou levantar-se e caminhar polo seu próprio pé e foi então quando percebeu que não podia. Um sentimento de ansiedade, uma impotência que havia muitos anos não sentia a envolveu. Compreendeu que estava sedada.
Observou aqueles homens, por chamar-lhes de alguma maneira. Recordava como em imagens soltas o jeito de entrarem na sua casa, dos seus risos metálicos, das suas frases perfeitamente desenhadas.
– Ninguém pode esconder-se de nós. Por mais tempo que o tentem afinal sempre serão localizados. Não compreendeis que a vossa versão está obsoleta? Necessitais uma atualização. A resistência é inútil.
Arrastaram-na através do pequeno bosque, inacessível ao carro. Ouviam-se os cervos fugir, os pirilampos alumiavam. Já era noite, uma noite em que as estrelas brilhavam com uma intensidade desconhecida nas grandes cidades, nas urbes sob o controle dos androides e os seres modificados na última programação da era global. Mas ainda havia seres humanos resistentes que conseguiram fugir às diferentes tentativas de readaptação biotecnológica e computacional do novo ciclo post-humano. Não se tratava de seres humanos comuns, mas de seres especialmente importantes para os interesses da nova era. Cientistas e técnicos, músicos, artistas, filósofos, pessoas com diferentes dons e capacidades que decidiram lutar e organizar-se contra o império da NOM (Nova Ordem Mundial).
Irene ficou sozinha no quarto onde a deixaram, ainda a sentir o torpor, os movimentos lentos e pesados. Não havia mais do que uma pequena cama construída com materiais que imitavam perfeitamente os naturais, produzidos num núcleo de empresas situadas a tão só dez quilómetros da base militar e científica na que se encontrava. Nelas conseguia-se reproduzir todo tipo de elementos orgânicos e fibras naturais sem necessidade de criar animais ou plantas para tal fim. Simplesmente a partir dos diferentes genomas codificados podiam introduzir-se as instruções para a geração de peles, lã, carne ou linho, madeiras ou quaisquer outro elemento orgânico que fosse preciso para as necessidades produtivas da nova época.
Irene passeou-se polo quarto asséptico, de cor branca, sem mobiliário, vazio de todo instrumental. Passeou-se descalça tentando arrumar os seus pensamentos, os seus sentimentos. Sabia qual era o processo. De início um jejum controlado de vinte um dias para depois dar lugar ao programa de acomodação e reprogramação genética. Na última fase se conectaria à base central do exocérebro maximizando os conhecimentos para uma funcionalidade efetiva e pragmática em benefício de toda a sociedade. Os sentimentos humanos da velha época deviam-se erradicar, carentes de utilidade prática. Os medos procedentes da própria ideia da morte tornaram-se eivas para o desenvolvimento. Irene era, pese ao seu talento, um caso recalcitrante de obstrucionismo ás novas ideias e planos da nova post-humanidade. Na medida do possível procurava-se eliminar a palavra “humano”. De fato, a intenção era eliminá-la progressivamente do vocabulário exceto como referência histórica e com o significado sempre pejorativo de ineficaz, atrasado, primitivo. Na medida do possível utilizava-se a expressão “os ancestrais”.
Irene acariciou o seu velho corpo de noventa anos. Os seus intensos olhos azuis destilavam compaixão, a pesar de tudo.
Era uma noite do ano 2045, ano do início da era post-humana.

[…]

Sobre o autor / a autora

José António Lozano

José António Lozano

(Galiza)

Sem comentários

Ainda não há comentários

Ninguém deixou um comentário para este post ainda!

ESCREVA UM COMENTÁRIO SOBRE ESTE POST

Escrever um comentário 

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *