“Telebullying”, por Rui Tinoco

“Telebullying”, por Rui Tinoco

0 comentários 🕔10:12, 02.Out 2017

A palavra para uma nova violência: novas tecnologias, novos gestos dos homens. Ou então nem tanto: a inveja, o egoísmo, a sede de poder e de riqueza.

Hoje, referir-nos-emos principalmente a esta última. Mas primeiro, um breve exercício etimológico: tele, do grego, que remete para a ideia de longe, de distância; e bullying, violência continuada que parte do presente para o presente imediato, que escorre do agora, como o present continuous inglês parece explicar.

O muito velho, da antiguidade clássica, e o hoje anglo-saxónico numa mesma palavra.

Voltamos, pois, ao início do texto – mais uma vez.

Pensámos na insistência publicitária de que somos objeto através do telemóvel pessoal. Máquinas digitando números, o nosso por exemplo, respondemos: «Está?»… «Quem fala?»… Ouvimos o som da chamada. Inversão de papeis: é a máquina que nos irá ligar a um comercial – a um outro humano.

E a insistência ad nauseam, se não atendermos: se não nos submetermos.

Um outro cenário nos ocorre agora: somos nós que pretendemos renovar um contrato. A grande empresa já não se digna a falar connosco diretamente. Digitamos uma sequência de números, dizem-nos: para não ler mais este texto marque 1; se quiser continuar a fazê-lo marque 2; para outras opções (…)

Trata-se de uma nova geografia tecnológica em que a parte humana começa a ter de prestar vassalagem à máquina, como neste caso:

Prove que não é um robot. Digite as letras e números que exibimos na imagem distorcida.

Bem, pelo menos, e até ver, é ainda o humano a peça central de todas estas equações.

Rui Tinoco

*

Nota sobre o autor: Rui Tinoco, poeta, psicólogo bracarense a viver no Porto, dispersou vários poemas e outros textos literários em diversas revistas materiais e electrónicas. Em 2011 publicou o seu primeiro livro de poesia intitulado O Segundo Aceno. Mantém os blogues Ladrão de Torradas e Psicologia, Saúde & Comunidade. Em 2013 veio a lume o projeto Era Uma Vez o Branco. Seguiu-se o projeto a quatro mãos Causas da Decadência de um Povo no seu Lar (2015) e a Mão Heteronómica (2017).

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