Violeta e o Karma

Violeta e o Karma

0 comentários 🕔12:47, 01.Dez 2017

A Violeta calculou cada um dos seus passos com toda a frialdade que pôde (e que era muita). As vinganças, dizia-lhe a sua avó morta, têm que se fazer sempre em frio. Por isso, ela tinha esperado tantos meses para a sua vingança, mesmo até que ele regressou por um tempo ao país, embora só ela soubesse de quê e porquê se vingava, porque ele, após tantos meses, continuava a ignorar a razão daquele silêncio dela.
Através de uma amiga comum, a Violeta fez-lhe chegar uma caixa empacotada. Já se imaginou a cara dele ao abri-la e não encontrar os seus objetos pessoais, aqueles que ele, indiretamente, por médio de terceiras pessoas, lhe pedira. Visualizou como ele se decataria que aqueles objetos pessoais não estavam ali (a Violeta tinha-os vendido, era parte da sua vingança) e, em contraste, estariam todos os livros que ele lhe tinha presenteado, que eram muitos. Quase creu ouvir o gemido dele ao abrir a caixa e se encontrar todos os seus livros devolvidos, mas não os objetos pessoais. Sabia que um livro presenteado com o coração que é posteriormente devolvido representava uma cutelada nesse mesmo coração.
Não ouviu o gemido desgarrado, mas sim um som suave que anunciava um correio no seu telemóvel. Pensou que, apesar do seu total silêncio, ele quiçá fosse capaz de lhe escrever e lhe pedir explicações. Ela não responderia. Contudo, o correio não era dele, mas tinha um remitente estranho: karma@karma.kr.
A Violeta não pôde evitar a curiosidade. Leu-o.

Estimada Violeta:
Creio que sabes quem sou. Só queria dizer-che que a tua vingança se converteu numa benção. Foi assim, os livros que enviaste a quem tu já sabes, acabaram nas mãos de pessoas que se alegraram de os receber.
Teu:
O Karma.

Aquilo tinha de ser uma brincadeira, uma maldita brincadeira, se calhar até um tipo de vingança dele. Ainda que não tinha visitado o seu perfil nas redes sociais desde havia meses, visitou-o. Criou um perfil falso e viu que o conteúdo da mensagem era verdadeiro. Num das mensagens, ele dizia:
«Graças ao karma, recuperei os meus livros e pude compartilhá-los com quem realmente queria lê-los».
Aquele comentário enfureceu profundamente à Violeta. A sua vingança convertera-se, efetivamente, numa benção, num presente. Sem pensá-lo duas vezes, respondeu à mensagem do suposto karma pedindo-lhe explicações.
Só uns segundos depois, o karma respondeu-lhe:

Minha querida meninha,
Para que entendas como funciono, vou explicar-cho em termos sintáticos, porque tu trabalhas como professora de língua: a vingança começa sendo uma oração ativa como “Violeta fodeu o seu amigo”, enquanto eu, o karma, transformo a ativa em passiva e sai “Violeta foi fodida”, ou melhor ainda, apresento-me em ergativa: “Violeta fodeu-se”.
Teu.
O Karma

© Xavier Frías Conde, 2017

Sobre o autor / a autora

Xavier Frias Conde

Xavier Frias Conde

(Galiza)

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