Edimburgo, Escócia 5. Por Hirondina Joshua
Enquanto me perguntavam sobre o que é estar dentro e fora do mundo, sempre achei que ler fosse uma forma de atravessar fronteiras. Abrimos um livro e, de repente, já não estamos inteiramente aqui. O corpo permanece na cadeira, os olhos percorrem as linhas, mas algo em nós se desloca. É como se a alma se inclinasse para dentro das páginas.
Ler é exactamente esse exercício: aceitar que algo escapa. No fundo, isso não devia ser espanto, porque a maior parte das coisas na vida são de escapamento. O tempo escapa. A presença escapa. O sentido escapa. Nunca seguramos completamente aquilo que tocamos nem mesmo aquilo que pensamos compreender.
Comer é uma grande dispersão. Comer tarda. O alimento dissolve-se, espalha-se, transforma-se em outra coisa. Ao comer, tentamos reunir o mundo dentro de nós, mas o que era matéria organizada torna-se fluxo invisível. Há sempre perda no acto de incorporar: o paradoxo de viver e, ao mesmo tempo, desfazer-se. Então: onde está o material e o não-material? O pensamento precisa de um corpo que o sustente, ainda que fuja à matéria. Agora faz-me sentido: Cogito, ergo sum.
(esta sou eu nos dias distraídos)
Comer chama-me atenção quando escrevo.
Vejo que nunca escrevi nada. Tudo se repete como uma caneta antiga. O mundo volta e voa. Eu retorno aos espaços atravessados.
‒ Nunca escrevi nada.
Não é possível escrever sem ter um papel dentro do corpo. Percebi isso numa manhã quando lia a Bíblia.
Ezequiel o grande servo foi chamado a comer o rolo assim para que pudesse falar à casa de Israel.
‒ Como um rolo pode dar mel à boca?
Descreve-se que o mel apareceu e inundou a boca dele de doçura: revelação.
E depois, no Apocalipse, o acto de comer o livro volta: o livro sobe doce pela boca e desce amargo até ao ventre: o mistério que nunca se esgota.
Porque o livro é mais do que o corpo.
Por isso, todos os dias se fala do sopro para que se esconda o livro.
❧
More from Contributos de:
Cerne, de Leonora Rosado | Carla Nepomuceno
Cerne, de Leonora Rosado. Por Carla Nepomuceno

