Foto de Paola Zordan (cf. https://artcontexto.com.br/portfolio/paola-zordan/)
ou
ÉTICA PÓS-SPINOZISTA PARA RELACIONAMENTOS CARNAIS
Ressalva: este texto satírico explora binarismos fêmeas-machos nas figuras de homens e mulheres independente da sexualidade biológica. Ao sublinhar papéis sociais e estereotipias arraigados na cultura ocidental centrada em identidades, intenciona discutir um consumo de corpos que ainda surge como dominante.
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Primeira parte
DA MONOGAMIA
Axioma
I. Não existem homens monogâmicos.
Proposição 1
Os homens que são monógamos só o são por causa das circunstâncias.
Corolário
As circunstâncias que tornam um homem monógamo podem ser de ordens variadas. Os homens ficam monógamos por causa da impotência ou porque são desprezados pelas mulheres que comeriam e que, sob circunstâncias favoráveis conseguem abordar. Outros não possuem tempo para comer todas as mulheres que querem ou não encontram circunstâncias favoráveis para abordá-las, visto que, se um homem é casado pelas leis civis e religiosas ainda vigentes não pode abordar uma mulher, que não a sua esposa, sem ferir a os preceitos canônicos da sociedade.
Proposição 2
Os homens só são monógamos salvo frente às poucas mulheres que não comeriam.
Proposição 3
Pele macia, peitos empinados, traseiro exuberante, mucosas rosadas e vermelhas, cabelos compridos e, às vezes, um salto alto, bastam para fazer de uma mulher um ser comestível para quase todo e qualquer homem com inclinações heterossexuais. Para os que possuem inclinações homossexuais, acrescente-se a qualidades similares um falo ereto e reluzente.
Proposição 4
Dadas as circunstâncias favoráveis, nenhum homem deixa de comer alguém comestível.
II . Uma mulher que se sente comestível come o homem que quiser.
Proposição 5
Uma mulher, quando realmente quer comer um homem, cria circunstâncias favoráveis para tal.
Proposição 6
Mulheres que não se sentem comestíveis, seja por motivo hormonal ou por impedimentos jurídicos, estéticos e morais, não tendem a se atirarem nos homens que por ventura considerem comestíveis.
Proposição 7
Nem o maior tratado do mundo explicaria com exatidão os complexos e variáveis fatores que tornam um homem ou outra mulher comestível, ou não, para uma mulher.
Corolário
Homens com uma carreira estável, com disposição física e algum dinheiro, são comestíveis em potencial para qualquer uma que esteja selecionando um macho para seu uso. Portanto, mulheres casadas com qualquer homem relativamente bem de vida, são potencialmente aptas a ganharem cornos, principalmente quando os maridos apresentam circunstâncias favoráveis inerentes às suas atividades profissionais (viagens, plantões, ausências facilmente justificadas).
Proposição 8
As mulheres elegem pouquíssimos homens, às vezes só um, como comestíveis. Por isso, parecem monogâmicas, mas são mesmo chatas, cheias de exigências, critérios e regras para escolher quem gostariam de comer.
Axioma
III. No homem, a monogamia é circunstancial, na mulher, é o resultado de um processo seletivo.
Proposição 9
A intensidade do devir-mulher de um homem (não importa se heterossexual radical ou homossexual afeminado ou tudo que fica entre esses extremos) define os modos que o tornam monogâmico.
Corolário
Casar com um homem, chato, seletivo e cheio de critérios, com aparentes tendências monogâmicas, não garante que, dadas as circunstâncias favoráveis, a comida de todo dia (que às vezes é aquilo que sobrou de ontem) não seja substituída por um alimento mais fresco.
Axioma
IV. Homens, mulheres e todas as combinações deles num só indivíduo tendem a casar com alguém comestível que, salvo certos cuidados, torna-se indigesto com o passar dos anos.
Segunda parte
DOS CORNOS
Axioma
-
Não existe monogamia sem corno.
Proposição 1
Os cornos existem para lembrar da falácia de se querer possuir alguém.
Proposição 2
Todo mundo, mesmo que não saiba, mesmo que só virtualmente, já ganhou algum corno.
Proposição 3
Os cornos dão uma lição de desapego e transcendência, são chances de se abolir a mania de exclusividade e as tiranias do ego.
Axioma
II. Os cornos são perdoáveis, as comparações, jamais.
Proposição 4
A maldição do corno é a comparação. Saber-se corno só dói quando a comparação começa e os envolvidos começam a se medir.
Proposição 5
Os cornos ensinam diversificação e mostram singularidades, jamais devem servir como afronta ao parceiro ou imposição de um modelo ideal.
Corolário
O corno começa a incomodar quando entra em reminiscências do tipo “com ele (o outro) eu seria mais feliz”, aquela coisa horrível de se ficar julgando quem ama mais e quem ama menos. O corno começa a decompor as pessoas quando surgem as comparações mais terríveis, que mostram a uma das partes o quanto ela está longe do modelo ideal. Modelo de beleza, modelo de fidelidade, modelo de competência. A experiência vivida pelo outro é passível de ser perdoada, mas estar ao lado de alguém que nos faz se sentir mais feio, mais gordo, mais burro, menos competente, é muito difícil de aceitar. Saber que estamos envelhecendo, que estamos com alguns quilos a mais, que nossa performance não é uma virtuose, tudo bem, o problema é sofrer por não estar dentro das expectativas do outro, acreditando que o corno procede por compensação e não pelo simples andar do acaso junto aos fluxos do desejo.
Proposição 6
Só sofre com os cornos que ganha quem se importa com comparações.
Proposição 7
Um corno bem dado só fortifica a relação “monogâmica” oficial.
Proposição 8
É estupidez atribuir o final de uma relação aos cornos que aconteceram junto dela.
Proposição 9
A maneira mais burra de encerrar um relacionamento é arranjando um corno.
Proposição 10
Nenhum corno vale a pena quando se calcula se vai valer a pena.
Corolário
Calculado, o corno entra na usura e perde toda a sua graça. Pensar se aquela escapada vale o tempo e o dinheiro que irá demandar é pura crueldade matemática na economia do desejo. As intensidades se aprisionam, a hipocrisia começa. Quem deu mais, quem deu menos? É melhor nem dar.
Axiomas
III. Quando vira culpa, o corno deixa de ser gozo, delírio, para acabar num pesadelo.
IV. Passar bem por um corno é melhor do que vencer uma tourada.
deMONSTRAção
Deus tem cornos. Nas práticas mágicas e rituais ancestrais,o deus cornudo é a contraparte masculina da hierogamia celeste. Satanás, que era serpente nua, ganhou cornos quando a igreja reinventou a tora e abandonou a velha arte. E mesmo no judaísmo tem aquela história de moisés voltando corneado do monte sinai. De qualquer modo, a força do deus cornífero sobrevive e ninguém consegue explicar as guampas invisíveis do patriarca são josé. Quantas histórias, romances, narrativas… A lista é longa, sendo que um dos nomes mais notáveis é o rei artur. E lá está o dragão, esse lagarto alado e cornudo que fazia corpo com a grande mãe. Tiveram que inventar um São Jorge, pura alegoria da afirmação fálica, só para combater a bestial força divina. Aceitar os cornos é se livrar da vileza do metal, da dor da ponta da lança e dessa crueldade torpe que repudia o gado, o réptil, o aracnídeo. Toda essa “dor de corno” porque o homem gnóstico e platônico resolveu separar os deuses de seus animais. Mas a intensidade guampuda nunca desaparece. Surge como paixão incontrolável, potência engolidora que faz do humano, potência selvagem. Entretanto, não se põe contra a lógica abstrata e suas extensões de palavras e raciocínios dos quais hoje é impossível se abster. Ao contrário, os cornos sobrevivem na garra das palavras, insinuando-se no rosnar da tradição escolástica, gritando no panteísmo de Spinoza, explodindo com Nietzsche no clamor do Minotauro. Enquanto a contracultura dança as bênçãos tornadas diabólicas, o humanismo está cheio de cornudos que fazem tudo para esconder suas amarguradas aspas. A força dos cornos investe contra os juízos e a moral. Corneados, ganhamos a chance de escapar do medo e de sermos eternamente julgados. A única danação é o próprio julgamento. O homem tem a presunção de condenar. Sente rancor porque deus não lhe deu venenos mortais para exalar, hastes pontudas para brigar, garras afiadas, caninos dilacerantes. Suporta cheio de tristeza não ter asas para voar. O homem cria um deus que o julga porque quis ser melhor que ele numa louca suplantação de todos os animais. O homem sofre como nenhum outro animal, não porque agora voa, dilacera, envenena e consome o que quiser, e sim porque nunca conseguirá imitar a serenidade de uma erva.
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