Museum Picasso, Barcelona. Por Hirondina Joshua
O artista não é um criador; é antes um descobridor de essências. E nesta operação ele combate com a mesma técnica dos deuses: a explosão. A arte assusta demasiado, como uma bola pequena de berlinde a rolar num espaço vasto. O artista não pode ser criador; para que fosse, era necessário um inferno e um paraíso simultâneo, sem qualquer espécie de divisão entre ambos. Nem eu compreendo bem esta metafísica. A criação, a dita e chamada “artifício humano”, é a descoberta. Esta, como não se ensina por depender exclusivamente dos olhos, teremos que pedir um corpo “são” e sem ouvidos. Ora, o homem foi feito à semelhança de um Ser; como não pode ser ele um pequeno deus? Um criador? Uma grande criatura fez chover e a pequena criatura fez da chuva um alimento. Excepcional a operação da descoberta, se calhar mais cansativa que a da “criação”. Cavar fatiga. Ter a cova cobre de onde vem a matéria para a sua fazedura. Criar é recriar: DEScobrir. A descoberta é um encontro entre duas criaturas selvagens: uma em delírio e outra em combustão.
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