Na nossa sessão Café com Português costumamos olhar para as palavras como pontes. No entanto, ao abrirmos a antologia «Para acordar os da casa-grande: (alguns) novos escritos de mulheres negras brasileiras» (Através Editora), percebemos que as palavras também podem ser punhais. O poder da escrita negra feminina reunido nesta obra, organizada pelo professor e escritor Henrique Marques Samyn, reside na recusa de objeto para assumir, definitivamente, o papel de sujeito da história. Esta escrita manifesta-se em duas frentes indissociáveis: a força da ancestralidade e o confronto com o racismo.
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Por um lado, as 21 autoras escrevem com o sopro dos seus antepassados, a ancestralidade não é um tema folclórico, mas sim a fundação do texto. Ao resgatarem as memórias, as autoras usam a língua portuguesa para realizar uma reparação histórica, provando que as suas vozes trazem o eco de séculos de resistência. É uma escrita que cura porque lembra. Por outro lado, essa mesma escrita recusa o isolamento do passado e mergulha de cabeça nas urgências do presente. O racismo, a violência urbana e a solidão são denunciados sem eufemismos. O idioma, tantas vezes cúmplices do apagamento colonial, transforma-se aqui em munição literária. Cada poema e ensaio serve como um café forte e amargo: serve para despertar a “casa-grande” da sua letargia e exigir uma nova postura diante do mundo. É a literatura como território de insurgência e direito à vida.
Apresentar esta obra no Café com Português é reconhecer que a língua portuguesa, tantas vezes usada como ferramenta de exclusão e apagamento, é hoje o território onde essas 21 escritoras inscrevem a sua liberdade e o seu direito à memória. Elas não pedem licença, elas acordam a casa-grande pelo poder da palavra.
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«Desde as brechas falamos ao mundo, falamos o mundo. Gestamos vocábulos, concebemos categorias, linguagens. Afirmamos a importância de nossas experiências para a formulação de uma teoria da literatura que faça da escuta sensível das oralituras um desafio aos constrangimentos epistemológicos metaforizados pela porta do não retorno. De posse de nossos corpos-raízes, sem mapas ou bússolas, trafegamos tempos, rasgamos as ruas, rios e mares, movimentamos encruzilhadas. Nos guia um logos circular segundo o qual, conforme explica Muniz Sodré, a origem é destino, arkhé é a própria continuidade do grupo de modo que “o fim é a origem, a origem é o fim” (Sodré, 2025). A jornada é longa, há muito passado pela frente e, o futuro, na voz de nossas filhas, grita urgências. Em compasso com os mais velhos exercitamos a resiliência, afinal, eles nos advertem: “Quem troca o caminho por atalho, tem mais trabalho”.» Fabiana Carneiro da Silva, pág. 169.
A literatura que incomoda é a que nos faz crescer. Aceita o convite para sair do letargo e ler esta obra connosco.
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Quem assina a curadoria: Henrique Marques Samyn é professor Associado do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Dedica-se ao estudo da produção literária e crítica de autoria negra na Literatura Brasileira, bem como a pesquisas acerca da representação de subjetividades e corpos racializados desde uma perspectiva interseccional. Coordena o premiado projeto LetrasPretas, fundado em 2017, voltado ao estudo e à divulgação da produção cultural e intelectual de autoria negra e feminina, desenvolvido com estudantes negras e cotistas da Uerj. Entre 2020 e 2024, lecionou sobre literatura de autoria negra na Tokyo University of Foreign Studies como Affiliated Associate Professor. Integrou a Comissão Consultora da Ocupação Machado de Assis, realizada pelo Itaú Cultural em 2023/2024. Presidiu a Comissão Julgadora do Prêmio Conceição Evaristo de Literatura Afrofuturista, da Fundação Cultural Palmares, realizado em 2023. Como escritor, tem textos publicados em revistas e antologias editadas no Brasil e no exterior e vem participando regularmente de eventos literários como a Festa Literária Internacional de Paraty, a Festa Literária das Periferias e o Festival Literário de Araxá, entre outros.
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