FAZ SOL, MAS EU GRITO
Para Thiago de Mello
I
fartas horas inúteis
em que tragédias são recicladas
e se moldam por entre sombras
e gestos desprezíveis
molduras da tarde disforme
ela diz:
“que tempo estranho…”
Estendo as mãos ao vento
algumas gotas ácidas corroem o meu desprezo
Reinvento uns versos esquecidos e ancoro tantas embarcações
em lugar nenhum
Enquanto a nova empresa americana ergue suas cercas
Modulo o tom de voz para não gritar
Mas antes pudesse gritar.
II
ruas imóveis sangram
como essa lua vermelha
que escorre
entre os corpos desmedidos
estranhas estruturas de ossos
que sustentam ossos
aguda solidão
d’água cavando
o sólido chão
intacta simetria
de cada grito
moldado ao sol.
III
quartos, cômodos
corredores em espirais
bocas automatizam
cruas faces/membranas
em cruzes
sombras esquálidas
de meninos esquecidos
nos porões
frios
sem vista para o mar.
*
POEMA DE CINZA CHUMBO
I
O pai ousou gritar nos dias cinzas de chumbo
A mãe rodava panfletos num velho mimeógrafo estéril
Nada entendíamos
Cantávamos tristes canções entre os ciprestes e as sombras.
II
Os mortos insepultos são partes da paisagem
Estão ali nas escadas
Emparedados naquele mar
Seus gritos tangem o fosso – precipícios
enferrujados elevadores do centro,
desvalidas memórias amputadas.
III
Na vala comum desses dias – ossos de um país moribundo
Rescaldos de versos enlameados
No chão que é de poucos
No mausoléu de granito o ditador com honras apodrece
Comunga avenidas e praças de desatada sangria
IV
O pai tecia longos poemas sobre a revolução
A mãe espreitava as frestas do fim do mundo
Nada entendíamos
Dormíamos entre as lápides quebradas da tarde.
*
MENINAS DE MAIO
Na praça central,
À véspera do dia santo,
As meninas de maio se despem
de seus longos cabelos ao vento
Filhos desaparecidos são emaranhados laços de pontas disformes,
Rascunhos de cartas atiradas ao mar
sombras siamesas em quarentenas vivas
– velhas avós mudas que resguardam gritos em gavetas
Dos bordados finos,
Cordões umbilicais guardados que tracejam o choro dos arcanjos
O grito da besta-fera que tudo desfia, tudo
jogos da lua, chão quadriculado de precipícios
penhascos de sangue movediços qual setas de contramão
fardas estendidas no varal ao sol para secar as lágrimas.
*
MEMÓRIA
Tantas vozes mortas ainda escorrem
Nessa umidade fria da parede
Uns passos intactos / calados no chão
Destroçados qual vermes inaudíveis
Poças dormentes que rangem
engrenagens tísicas de porcelana
bromélias que murcham
com sangue nas cavidades
&
brotam nesses rios fétidos
Usinas de fetos e espasmos
Gritos/ lamentos das galerias
cavando domados silêncios
das horas turvas de um relógio de sol
calcinado pela escuridão.
*
GREVE
Depois da greve
Viraremos árvores
Simétricas árvores
a
b
s
o
l
u
t
a
s
nosso grito será o sol estampado nas folhas
nossas veias amplas raízes entrelaçadas
nos mortos
nossa mais rara espécie de orquídea
brotará do medo, a seiva da liberdade.
*
VITÓRIA-RÉGIA
A lua refletida no lago
Uma índia vem e com um dedo
a conquista
Muito antes dos americanos.
*
ODE IMEMORIAL
(as garras)
a morte estreita suas unhas
numa branca noite de lua
disforme
no reflexo frio dos cacos do espelho
retorcido
(os cortes)
a morte afia seus cabelos
qual lâmina obcecada e intacta
resguarda no grito – a revolução
e serra as grades
para o infinito
esquecimento.
*
PAISAGEM DESFEITA
a cada golpe preciso
encontros empoeirados
desfeitos
rasuras tão findas
de poemas frágeis
lançados ao vento
a paisagem
na dura manhã
em que incendeias
plantas ciprestes
pedras tumulares
epitáfios ilegíveis
retratos abreviados
envelhece
ruídos marcados
compassos lentos.
*
1932
A guerra nos escorraçou
chão batido
formigas de suor
cálices de sangue amargo
guardamos as folhas com poemas
contra el-rei
mas, invadiram a fórceps nossa alma
andamos em desatados
nós contrários
§
puseram-nos em covas rasas
carne viva
atearam fogo em nossas palavras
clandestinas
vieram os urubus,
carregaram nossos olhos
tão azuis em suas rapinas/
nossos versos
descolaram ao vento feito plumas.
*
armam-se as noites
até os dentes,
cravam luas como anzóis na boca
a rasgar de fora a fora o grito, a palavra
um disforme canto clandestino das lápides
fora de lugar.
*
Leandro Rodrigues (Brasil, 1976) é professor e poeta. Autor de Aprendizagem Cinza (Ed. Patuá, 2016) e Faz Sol Mas Eu Grito (Ed. Patuá, 2018). Possui poemas publicados em diversas antologias e revistas literárias do Brasil, Portugal, Espanha e Estados Unidos. Os poemas que publicamos pertencem ao seu último livro.



