Livraria Ler Devagar, Lisboa. Por Hirondina Joshua
Li sobre uma escritora que contava sobre anões, interpelada pela crítica decidiu mudar no livro seguinte, contou sobre um gigante que aos poucos diminuía a altura.
Há alguma coisa que acompanha o poeta? Ou aquele que escreve?
Para Schopenhauer, todas as outras artes são imitação de ideias, menos a música, esta é a imitação da vontade própria, a música tem a capacidade de criar ideia para as outras artes, mas o inverso não é possível.
Li sobre uma escritora que contava sobre anões. Interpelada pela crítica, decidiu mudar. No livro seguinte contou sobre um gigante que aos poucos diminuía a altura. Há alguma coisa que acompanha o poeta? Ou aquele que escreve? Para Schopenhauer, todas as outras artes são imitação de ideias, menos a música, esta é a imitação da vontade própria, a música tem a capacidade de criar ideias para as outras artes, mas o inverso não é possível. O poema de Craveirinha é vasto mas em todo há música em forma de ritmo, em forma de ideia não traduzível à matéria, ideia na ideia dentro do poético. Precisamos de uma canção fora do mundo para a revolução, porque entendemo-nos num espaço que não nos é nosso. A música comanda esse espaço. Lembro-me de entender Craveirinha numa canção sem poema. Entender o som na poesia de tudo que me chegava. A música como criação parece-me aceitável em paralelo com a palavra. Se a palavra é também som. A palavra é música, como esponja suga o que não é aparente.
Voltando à questão inicial. Há uma coisa que acompanha o poeta ou aquele que escreve?
❧
Sinto música no labor de Craveirinha (diálogo com versos de José Craveirinha):
quero ser tambor
versos tchaiam no segredo da noite escura
silêncio amargo da Mafalala
sobre nós a música do quarteto
na insinuação do ritmo
e lá um microfone de alta fidelidade
ampliou cem milhões de vezes o jazz terrível
tchaiam estes versos tchaiam
no último turno dos homens de capacete de lata
dó sustenido por Daíco
a rua vibrava baixinho o som quente da viola de Tingane
a noite estava escura
oh, sangue de minha Mãe
xigubo está chamar
as veias sacras da grande xipalapala
❧
Glossário:
tchaiam – bater, fazer soar
xigubo – termo de origem onomatopaica (dos tambores)
xipalapala – espécie de trompa ou trompeta de chifre ou antílope palapala, com que se convoca o povo
You might also like
More from Críticas
ATIRAR UM OSSO À ESPERA de Rita Pitschieller Pupo | Luís Serguilha
ATIRAR UM OSSO À ESPERA de Rita Pitschieller Pupo, por Luís Serguilha
Sobre “Estado Demente Comrazão”, de Paulo Fernandes Mirás | Alfredo J. Ferreiro Salgueiro
Estado Demente Comrazão é um livro complicado. É por isso que não está na moda. Parabéns ao seu autor!

